Toni Erdmann (2016)

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toni-erdmannNa madrugada do dia 10 para o dia 11 de fevereiro de 2017, às 04:18, eu tive a minha vida interrompida por um acidente de moto. Eu voltava para casa com a minha esposa após vermos uma banda cover do Audioslave quando passamos em alta velocidade sobre um quebra-molas e fomos parar no chão. O obstáculo foi construído recentemente, logo eu fui me dar conta dele apenas quando já era tarde demais para frear. Eu sei a hora exata do acidente porque o meu relógio, que foi destruído pelo impacto, parou de funcionar para sempre com a queda.

Fiquei triste por perder tão estimado objeto (presente de natal da esposa), mas, felizmente, devo reconhecer que sou um homem de sorte. Apesar de ter rolado no asfalto através de um quarteirão inteiro, a minha moto, uma Fazer 250cc, apenas ralou algumas partes da carenagem. O notebook que estou utilizando agora para escrever este texto escapou ileso. E eu e minha esposa, que fomos arremessado no chão após um impacto à 100km/h, estamos vivos e inteiros.

Logicamente, nós não escapamos ilesos. Ela precisou dar 4 pontos no joelho e ralou bastante uma perna e eu me fodi todo. Quando caí, projetei minhas duas mãos pra frente. Nisso, do lado esquerdo, eu quebrei o dedo mindinho e, apesar da brava resistência do meu finado relógio, ralei pra valer o braço na região próxima ao cotovelo, o que certamente me garantirá uma cicatriz badass e, consequentemente, uma desculpa para mais uma tattoo. Do lado direito, quebrei um osso próximo a junta (me parece que foi a ulna) e vi a pele da palma da mão ser completamente consumida pelo asfalto impiedoso. Resultado: já estou há 20 dias com os braços imobilizados, recebendo comida na boca e sem poder lavar a minha própria bunda, e ficarei assim pelo menos mais 2 semanas.

tony-erdmann-cena-3Experimentei vários estados de espírito desde o acidente. No início, senti desespero e vergonha. Não foi fácil ver minha esposa machucada e saber que, apesar da péssima sinalização do novo quebra-molas (a placa está atrás de uma árvore), eu fui o grande responsável pelo ocorrido. No dia seguinte, após sair do hospital, eu ainda tive que encarar os meus sogros e assumir a bronca. Depois disso veio o medo e as incertezas, visto que eu precisei ser afastado dos meus dois cargos (professor e controlador de voo). Por último, veio a tristeza de ver minha vida paralisada: tive que interromper a cobertura que eu estava fazendo do Oscar, desmarcar as aulas na autoescola (estou tirando habilitação de carro), abandonar academia, corridas no parque, passeios e planejamentos de aula que eu havia preparado para este ano. Minha rotina era cansativa, mas ser arrancado dela dessa forma foi quase como morrer em vida. Chorei muito no início, mas logo a razão voltou e eu percebi que, mediante o que aconteceu (e, principalmente, a tudo que PODERIA ter acontecido), eu não devo perder mais tempo com lamúrias. Chala Head Chala, não importa o que aconteça, tudo vai ficar melhor!, não é mesmo?

tony-erdmann-cenaTodo caso, tenho certeza que o leitor, apesar de compreensivo, não está interessado em mensagens de superação baseadas no Dragon Ball, certo? Vamos então ao plano de contingência para o blog, comentários sobre o Oscar e, claro, sobre o filme em questão, o alemão Toni Erdmann.

Pessoal, a grande verdade é que, por ora, eu não tenho a mínima condição de manter o blog atualizado. Já retirei alguns curativos e estou com alguns dedos livres, o que me permitiu escrever este texto ao longo de uma tarde inteira ao custo de muita dor e suor, mas não pretendo repetir essa tarefa tão cedo. Eu precisava desabafar, dar uma satisfação para quem visita a página regularmente e resenhar este filme antes que eu me esquecesse do que vi (já fazem mais de 3 semanas), mas paro por aqui. Preciso recuperar minhas mãos e isso demanda repouso.

Sobre o Oscar:

  • Coitados do Warren Beatty e da Faye Dunaway por terem sido escalados para um dos momentos mais grotescos da história da cerimônia. Pessoalmente, o meu favorito era o La La Land, mas entendo que o Moonlight, além de ser muito bom e bem feito, tem muito mais a dizer no contexto político e cultural atual. A vitória foi merecida, porém o êxito ficou maculado pela confusão na hora da entrega da estatueta. Sinceramente, ninguém deveria ser chamado em um palco para agradecer a mãe por algo que não ganhou.
  • Melhor Atriz para a Emma Stone numa categoria que tinha a Isabelle Huppert foi um erro ainda maior do que premiar o Casey Affleck em detrimento do trabalho monumental do Denzel Washington no Cercas, que por aqui sairá com o título tosco de Um Limite Entre Nós.
  • Pô, Academia! Moana é bem melhor do que Zootopia!
  • Nada contra o ótimo Mahershala Ali, mas a curta participação dele no Moonligth, ao meu ver, foi inferior ao que o Michael Shannon fez no Animais Noturnos, filme esse, aliás, que soma-se ao Capitão Fantástico como os grandes injustiçados do Oscar 2017.

tony-erdmann-cena-4Toni Erdmann concorreu e perdeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para O Apartamento. O longa, que foi escrito e dirigido pela alemã Maren Ade, vale-se muitas vezes do bizarro e do ridículo para passar uma válida mensagem contra o estresse e a seriedade excessiva do mundo adulto. Tony Erdmann é o alterego que Winfried (Peter Simonischek) usa para divertir-se e aliviar a tensão de seus conhecidos com piadas e brincadeiras. Após encontrar a filha, a ultra metódica Ines (Sandra Hüller) e perceber que ela não está muito feliz no cargo de executiva de uma grande empresa, Winfried vale-se de seu personagem doidão para tentar ajudar a moça. Acontece de tudo aqui: queijo ralado na cabeça, dentadura falsa, uma cena esquisitíssima de masturbação, interpretação “destruidora” da clássica The Greatest Love of All da Whitney Houston, uma festa com todo mundo pelado e uma fantasia de um gigante peludão que deixaria o Chewbacca com inveja. É um filme longo (2h40min) e estranho, mas também é um filme do qual a gente sai feliz e com novas e boas perspectivas. Em breve, a história ganhará uma versão hollywoodiana, produção que marcará o retorno às telas do grande Jack Nicholson.

Bem, é isso. Desculpem-me por ter falado pouco do filme, mas eu juro que fiz o meu melhor. Se tudo der certo, dentro de uns 20 dias eu tiro o gesso e o restante dos curativos e volto a escrever normalmente. Por enquanto, estou feliz por estar vivo, contente por ter conseguido finalizar este texto (me fez sentir ‘normal’ outra vez) e agradecido por ter alguém ao meu lado que, neste momento de dificuldade, está sendo extremamente paciente, amorosa e me ajudado em tudo. Desculpa por ter tentado voar sem asas, Renata. Obrigado por tudo (prometo dar menos trabalho na hora do banho). Te amo.

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  1. Já acompanho o site já faz um tempo e é a primeira vez que comento. Primeiramente lhe desejo uma rápida recuperação. Parabéns pelos ótimos textos e espero que volte rapidamente a fazer o que gosta (e que faz muito bem!).

    Abraços e melhoras!

  2. Força e melhoras cara! Continue teu “passatempo” aqui no Já Viu Esse e que tenha a melhor recuperação possível!

    Continue a nadar… Continue a nadar…

  3. Onde foi o acidente? No bairro santa monica? Colocaram um quebra-molas novo lá e quase me acidentei também recentemente.

  4. Pingback: Be Here Now (2015) | Já viu esse?

  5. Pingback: A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017) | Já viu esse?

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