Animais Noturnos (2016)

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animais-noturnosFaltando pouco mais de 2 semanas para a cerimônia de premiação do Oscar, finalizei a cobertura dos indicados a Melhor Filme com o Lion e agora pretendo focar nas produções que concorrem a Melhor Filme Estrangeiro. Antes, porém, tirei um tempo para ver esse Animais Noturnos, filme que está indicado em apenas uma categoria (Melhor Ator Coadjuvante), mas que uma ou duas pessoas me disseram que foi feito para quem “realmente gosta de cinema”, seja lá o que isso signifique.

Dirigido e adaptado para a tela pelo diretor Tom Ford (o estilista da Gucci que aventurou-se pela primeira vez no cinema com o longa Direito de Amar), Animais Noturnos conta duas histórias paralelas que complementam-se e dão sentido uma para a outra. O tom é sombrio, há experimentações visuais e narrativas e o final é aberto, exigindo que o espectador interprete o que viu e complemente a lacuna deixada pela última cena com suas próprias impressões. Resumindo, não é um filme que o diretor pega na sua mão, mastiga tudo e te conduz através da trama. Ford dá muito (sem trocadilhos), mas exige toda a sua atenção em troca. Eu, que “realmente gosto de cinema”, assisti o filme, fiz o meu dever de casa (busquei informações e pensei sobre o que vi) e agora compartilharei com vocês as minhas conclusões. O texto conterá SPOILERS.

Susan (Amy Adams) está um tanto quanto entediada e solitária no topo do mundo. Ela é casada com um bonitão do queixo quadrado (Armie Hammer), mora numa mansão e é reconhecida e elogiada por seu trabalho como artista plástica, mas a gente olha para ela e não vê exatamente uma mulher feliz. De cara, o diretor nos mostra que Susan sabe que está sendo traída pelo marido, porém o enfeite de testa não parece ser o maior dos problemas aqui.

animais-norturnos-cena-4Certo dia, junto da correspondência matinal, Susan recebe o manuscrito de um livro. Grande é a surpresa da personagem quando, ao verificar o autor da obra, ela descobre o nome de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Como o marido atual  está viajando “a trabalho”, Susan começa a ler o manuscrito imediatamente e encontra em suas páginas uma história incrivelmente familiar.

Animais Noturnos, o livro escrito por Sheffield, começa com uma família viajando de carro à noite numa estrada deserta. Num determinado ponto do caminho, Tony (também interpretado pelo Gyllenhaal), que está acompanhado pela esposa (Isla Fisher) e pela filha (Ellie Bamber), depara-se com outros dois carros bloqueando o trajeto. Ele buzina e tenta ultrapassa-los, tudo em vão. Após um período de incerteza, os carros misteriosos cedem passagem, mas em seguida eles começam a pressionar para que Tony vá para o acostamento. Bate daqui, acelera dali, Tony tem seu veículo fechado e é obrigado a parar. Das sombras, surgem Ray (Aaron Taylor-Johnson) e seus dois comparsas, animais norturnos travestidos de gente que atormentarão aquela família de todas as formas possíveis antes de realizarem seu último ato de covardia: após abandonarem Tony no meio do nada, Ray e sua turma estupram e matam mãe e filha com requintes de crueldade.

animais-norturnos-cena-3Chocada, Susan interrompe a leitura várias vezes. A primeira impressão que tive é que ela estava compreensivelmente enojada com a violência do livro, mas há mais. Susan tem dificuldade para encarar Animais Noturnos porque ela reconhece a si mesma nas páginas do livro escrito por seu ex-marido. Pior, ela vê-se no papel de vilã. Não que ela tenha matado ou estuprado alguém, mas o passado de Susan junto de Edward não foi dos melhores. Ao longo do filme, o diretor Tom Ford introduz alguns flashbacks para mostrar como Susan dispensou Edward porque ele não parecia ser um cara arrojado e promissor. Edward até tentou salvar o casamento, mas as coisas degringolaram de vez quando ele flagrou Susan traindo-o com o bonitão do queixo quadrado (pasmem!) logo após realizar um aborto. É ou não é uma danadinha essa Susan?

animais-norturnos-cena-2E por que Susan vê-se como a vilã do livro escrito por seu ex-marido? O que significa aquele final seco e abrupto? Eis as minhas teorias. De certa forma, Susan destruiu a vida de Edward ao trocá-lo por um homem mais rico e viril. Edward teve a sua masculinidade ferida da mesma forma que Tony também teve quando viu sua mulher e sua filha serem levadas por estranhos. Assim sendo, Susan compara sua traição com a brutalidade de Ray e sente vergonha de si mesma. A leitura de Animais Noturnos transforma-se então numa espécie de catarse para a personagem, que estava presa em um casamento bosta e que via o mundo de uma forma grotesca e deformada (o que fica patente nas obras de arte que ela produz). Susan entende o envio do manuscrito como uma possibilidade de reaproximar-se de Edward, reparar o mal que ela lhe fez e, de quebra, livrar-se daquela vida artificial que ela levava, mas não é bem isso que acontece. Na última cena de Animais Noturnos, Susan enche a cara sozinha em um restaurante após Edward não aparecer no encontro marcado entre os dois. Ao meu ver, trata-se de um filme de vingança: Edward transformou toda a raiva que sua ex-mulher lhe passou para produzir sua obra prima, esfregou esse trabalho na cara dela e, no último momento, encontrou forças para fazer o que deveria ser feito, que era dispensá-la de vez de sua vida. Este raciocínio é reforçado pela conclusão do livro, no qual Tony, após uma série de indecisões, descarrega uma arma no peito de Ray.

animais-norturnos-cenaQuem “realmente gosta de cinema” encontrará em Animais Noturnos muitos motivos para apaixonar-se ainda mais pela sétima arte, como a bela fotografia noturna e o poder do diretor de fazer a gente prender a respiração na cena absurdamente tensa da estrada, mas o filme não é indicado apenas para quem curte “filmes cult”. Não tenho dúvidas de que trata-se de um material denso e sombrio e que a sessão exige um pouco de reflexão no fim, porém a qualidade das atuações (o Michael Shannon, que interpreta um delegado no fim da carreira, concorre a Melhor Ator Coadjuvante), bem como a história fluída e os temas humanos que ela aborda (arrependimento e superação), são atrativos que estão ao alcance de todos.

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  1. Um tardio comentário para uma maravilhosa resenha… Olha, eu acho que ‘gostar realmente de cinema’ é apenas ‘adorar’ cinema. Tem tanto filme por aí que não vale nem meio. E em Animais Noturnos temos dois, talvez 3 em 1.

    Sim,porque o filme dentro do filme acaba virando um terceiro que é o filme do ‘se’? ‘E se eu tivesse feito assim?’: ‘E se eu não tivesse feito aquilo?’. Todos os personagens carregam implícita e, ou, explicitamente, esta pergunta. Eu também carrego uma pergunta? E se eu não tivesse assistido?

    Por isto vou tratar deixar as séries (algumas geniais como The Man In The High Castle, da Amazon, duas temporadas) e assistir Lion, do qual tenho lido e ouvido muito boas referências.

    Abraços e parabéns pelo post

  2. Pingback: Toni Erdmann (2016) | Já viu esse?

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