Manchester À Beira-Mar (2016)

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manchester-a-beira-marNos primeiros 10 minutos de Manchester À Beira-Mar, o zelador Lee Chandler (Casey Affleck) limpa uma privada entupida de merda, briga com uma mulher histérica e enfia a porrada em dois caras num bar. O serviço dele não é dos mais fáceis e empolgantes, mas ainda assim desconfiei que aquele mau humor todo não estava relacionado apenas ao trabalho. Eu também tenho uma rotina estressante, mas nem por isso eu saio por aí socando as pessoas (vontade não falta, mas a gente respira e conta até 10, né?). Cria-se na abertura, portanto, um gancho para que o passado do personagem seja explorado de forma a jogar um pouco de luz naquele presente nebuloso. Porque Lee é da pá virada? Antes da explicação, porém, o diretor e roteirista Kenneth Lonergan ainda aplica mais um golpe no lombo do pobre zelador: o irmão do cara morre, o que obriga-o a viajar de Boston até Manchester À Beira-Mar (sim, o nome da cidade é esse mesmo) para acompanhar o funeral.

Tive dificuldades para estabelecer laços emocionais com a história de Manchester À Beira-Mar. O filme não chega a ser ruim e, definitivamente, a vitória do Casey Affleck na categoria Melhor Ator no Globo de Ouro não foi uma “grande bobagem” (como o Rubens Ewald Filho disse na transmissão da TNT), mas senti pouca empatia pelo material como um todo. Todo caso, como acho mais produtivo falar do que gostei, vou esforçar-me para comentar o que o filme tem de bom.

manchester-a-beira-mar-cena-3Tão logo chega em Manchester (abreviado mesmo, cansei de escrever esse nome rs), Lee depara-se com uma situação inesperada: o irmão morto solicitou em testamento que ele recebesse a tutela de seu filho, Patrick (Lucas Hedges). Fica ainda pior: para cuidar de Patrick, Lee teria que abandonar sua vida em Boston e ir morar em Manchester. Fora a dificuldade de mudar radicalmente sua rotina para atender as necessidades de terceiros (lembrem-se: Lee não é lá um cara muito alegre e paciente), surge a questão concernente ao passado do personagem naquela cidade. Quando ele passa, as pessoas apontam para ele e conversam baixinho, o que dá a entender que algo ruim aconteceu.

E aí, o que diacho Lee Chandler aprontou? Não vou contar isso aqui (este não é um texto com spoilers), mas dá para dizer que foi algo MUITO traumatizante, o tipo de coisa que faz alguém querer deixar uma cidade e nunca mais voltar pra lá. A resolução desse mistério é o ponto alto do filme, porém não tenho certeza se gostei da forma como o diretor Kenneth Lonergan faz isso. Qual o recurso mais comum para mostrar cenas ocorridos no passado? Flashbacks, certo? Lonergan insere vários trechos de cenas pregressas na trama, mas ele não faz questão nenhuma de assinalar o que está fazendo. Normalmente, antes de um flashback, há um aviso do tipo “2 anos antes” ou uma transição de tela diferente e chamativa. Aqui não há nada, apenas o corte seco. Demorei para perceber que a história estava alternando entre passado e presente e, quando consegui, tive aquela sensação prazerosa de “ah, entendi!”, mas eu trocaria fácil o “eureka!” por uma edição mais tradicional.

manchester-a-beira-mar-cena-4O Chandler do Casey Affleck é aquele tipo de cara divertido para tu ver na tela mas que tende a ser insuportável na vida real. Basicamente, Manchester À Beira-Mar é sobre um sujeito que é obrigado a enfrentar os demônios de seu passado devido a um evento inesperado. Ele não queria estar naquela cidade, ele não queria conversar com aquelas pessoas e ele não queria as responsabilidades que o irmão lhe imputou, mas mesmo assim ele está lá, com aquela cara de tédio absoluto, fazendo grosserias com as pessoas, atrapalhando as transas do sobrinho, brigando com velhos na rua e distribuindo socos nos bares. A gente acaba rindo do mau humor do personagem (e até entende o porque de tanta amargura após as explicações que o roteiro traz), mas não dá para querer um cara desses por perto. O mérito dessa chatice vai todo para o Casey Affleck, que emulou bem os conflitos de um cara prestes a desmoronar psicologicamente. Merece o Oscar de Melhor Ator? Pessoalmente, prefiro o Viggo Mortensen ou o Denzel Washington.

manchester-a-beira-mar-cena-2Pra quem disse que tentaria falar sobre o que o filme tem de bom, eu já reclamei bastante (edição confusa e protagonista antipático). Vamos aos elogios. A trilha sonora de Manchester À Beira-Mar é muito bonita. Composta em sua maioria por músicas levadas no piano, a trilha é daquelas que tu realmente presta atenção. Gostei também da participação do Matthew Broderick, que aparece em uma cena do tipo “vergonha alheia”, e entendi, do fundo do meu coração, a preocupação do Patrick com o destino que dariam para o cadáver do pai dele. Como o cara morreu durante o inverno, ficava difícil escavar o chão para sepultá-lo, logo colocaram-no em um freezer até que o enterro fosse possível. Chandler, insensível, argumenta que trata-se apenas de um “corpo”, mas não é bem assim. Meu avô faleceu dentro de um ônibus e eu fui obrigado a vê-lo jogado numa maca num canto escuro de um hospital. Lembro perfeitamente de olhar para ele e pensar que ele estava com frio. Logicamente, trata-se de um pensamento irracional, mas não dá para ser muito pragmático frente à morte. Tô contigo, Patrick.

Perceberam que, a despeito do nome da Michelle Williams estar no poster, até agora eu não comentei nada sobre ela? Apesar de ter recebido uma indicação para Melhor Atriz Coadjuvante, a atriz aparece em pouquíssimas cenas. São cenas emocionalmente carregadas e o choro dela é de cortar o coração, mas é um trabalho menor quando comparado, por exemplo, com o que Naomie Harris, sua concorrente, faz no Moonlight.

Do que vi até agora, Manchester À Beira-Mar é o filme mais fraco dentre os selecionados para o Oscar 2017. Não torço por ele em nenhuma categoria, não consigo me imaginar assistindo-o uma segunda vez e me pergunto porque ele recebeu mais atenção do que o Capitão Fantástico.

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Uma resposta »

  1. Concordo que dia filmes que já assistimos até agora ele é o mais fraco.
    Vou apontar o que eu gostei dele:
    – gostei de Chandler não consegui superar o que aconteceu, e de se punir e de o filme mostrar mais isso do que a punição social que ele sofre.
    – gosto de pensar que o ser humano não é egoista e que em meio às dificuldades procuramos ajudar uns aos outros, não é bem isso que acontece. Chandler não abre mão do estilo de vida que ele têm devido aos seus atos para cuidar do sobrinho . As dificuldades dele fez ele continuar escondido e fugindo, a maioria dos filmes seria ao contrário , seria como ele superou toda dificuldade e adaptou sua vida a do sobrinho . Nesse filme a vida não é romantizada .

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