Até o Último Homem (2016)

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ate-o-ultimo-homemApós ver a base naval de Pearl Harbor ser obliterada pelo ataque surpresa do Japão em 1941, o presidente Roosevelt determinou a entrada dos Estados Unidos na 2º Guerra Mundial. O sentimento de revanchismo estava em alta e levou vários jovens americanos a ingressarem no serviço militar para terem a oportunidade de matar alguns japoneses. Consciente de suas obrigações civis e desejoso de fazer a sua parte para ajudar o país, Desmond Doss (Andrew Garfield) também alistou-se no exército, mas, ao contrário de seus compatriotas, ele não estava disposto a disparar um tiro sequer.

Desmond Doss foi um Opositor Consciente, pessoa que recusa-se a matar e/ou utilizar armas de fogo devido a princípios éticos, morais e religiosos. Designado para uma companhia de atiradores que enfrentaria os japoneses na ilha de Okinawa, Doss, que era adventista e conhecedor da medicina, desafiou seus superiores e conseguiu na justiça o direito de servir na linha de frente do combate não para matar, mas sim para salvar as vidas de seus companheiros. É esta história surpreendente e emocionante que o Mel Gibson conta em Até o Último Homem, filme indicado a 6 Oscars.

Os feitos militares de Doss, que incluem coisas impressionantes como salvar 75 soldados e chutar uma granada para proteger o pelotão, já seriam mais do que suficientes para a gente afeiçoar-se ao personagem e sentir-se inspirado por ele. Nem por isso, porém, o roteiro abre mão de nos mostrar o cara legal que ele era antes da farda. A primeira hora do filme é composta do tradicional treinamento militar, com direito a umas gritarias a la Nascido Para Matar promovidas pelo Vince Vaughn, e por um resumo da história pregressa de Doss. Quando criança, o personagem quase foi o responsável pela morte do irmão ao atingi-lo com um tijolo numa briga. Depois disso, Doss entregou-se a espiritualidade e desenvolveu aversão à violência. Alguns anos mais tarde, já adulto, ele encontrou na medicina o meio de valorizar a vida e apaixonou-se pela bela Dorothy (Teresa Palmer). Doss é um cara bacana, do tipo que você gostaria que namorasse sua irmã, e o fato de ele ser interpretado pelo Homem-Aranha boa praça Andrew Garfield contribui bastante para que a gente torça por ele em sua loucura de ir para a guerra sem uma arma.

ate-o-ultimo-homem-cenaLoucura? O ponto de discórdia de Até o Último Homem, obviamente, é a questão armamentista. Com o filme contando a história de um pacifista, seria fácil o roteiro enveredar para a mensagem antiguerra. Durante o treinamento militar, aliás, é exatamente isso que a gente pensa que acontecerá, com a postura de Doss sendo alvo da violência do soldado Smitty (Luke Bracey) e da intolerância do capitão Glover (Sam Worthington), dois caras que seriam capazes de atirar na própria mãe. Quando a batalha pela colina Hacksaw Ridge começa, porém, quem é contrário ao uso de armas e violência em situações extremas é obrigado a dar o braço a torcer e reconhecer que, as vezes, o recurso mostra-se necessário. É claro que, não fosse a guerra, nenhuma daquelas atrocidades aconteceria, mas, uma vez que o conflito mostrou-se inevitável, Doss só conseguiu salvar todas aquelas pessoas porque, atrás dele, havia uma dezena de soldados atirando feito uns loucos e dando-lhe cobertura. É muito bom que o filme apresente mais de um lado para a questão das armas e argumente no sentido de que opiniões diferentes são complementares e não excludentes.

ate-o-ultimo-homem-cena-2Até o Último Homem tem discursos heroicos (o Hugo Weaving é um monstro), romance e cenas de humor negro (não é lá muito legal rir de um cara que está com uma faca cravada no pé), mas, em última instância, esse é um filme do Mel Gibson, o mesmo cara que redefiniu o conceito de batalhas em larga escala no Coração Valente, transformou a crucificação de Jesus num espetáculo sangrento no A Paixão de Cristo e envolveu o pobre Jaguar Paw numa nuvem de marimbondos no Apocalypto. Colocando de outra forma, esse é um filme de guerra de um diretor que já provou-se especialista em fazer sangue jorrar, e a última metade da trama testa pra valer a capacidade do espectador de continuar olhando para a tela após uma série de mortes e cenas macabras. Na tentativa de tomar a colina, os soldados americanos tem seus corpos queimados, alvejados por balas e dilacerados por explosões. Após cada uma das muitas e espetaculares batalhas, vê-se toda espécie de podreira espalhada pelo chão, coisas como vísceras, membros incinerados e corpos sendo consumidos por vermes e ratos.

ate-o-ultimo-homem-cena-3Desmond Doss não precisava ter ido para a guerra. Defensor do “não matarás“, ele teve todas as chances e motivos para abandonar a infantaria. Sua noiva pediu para ele desistir. Sua família pediu para ele desistir. Seus superiores tentaram fazê-lo desistir. Contra tudo e contra todos, Doss desceu até o inferno, olhou a morte nos olhos e voltou de lá como um herói sem disparar uma única bala. As ações do violento soldado Smitty impressionam (no momento mais loucão do filme, o cara usa a carcaça de um morto como escudo para avançar contra os japoneses), mas o que emociona a gente de verdade são os esforços que o magricelo Doss faz para resgatar seus companheiros. Orando e pedindo para Deus “ajudar-lhe a salvar mais um”, o personagem medica e retira dezenas de soldados feridos do campo de batalha. Dadas as limitações físicas e técnicas de Doss, não é exagero dizer que o que ele fez (o filme é baseado em fatos reais) foi um verdadeiro milagre.

Até o Último Homem homenageia um herói da vida real (no fim, há trechos de entrevistas com o próprio Doss, que faleceu em 2006) e, pelo tom respeitoso e politicamente correto, pode representar a volta por cima do diretor, que perdeu fãs e prestígio após declarações antissemitas e racistas nos últimos anos. Gostando ou não do Mel Gibson pessoa, no entanto, é preciso reconhecer que o Mel Gibson cineasta acertou a mão mais uma vez: Até o Último Homem é um filmão.

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