Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

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moonlight-sob-a-luz-do-luarQuando os créditos surgiram anunciando o final de Moonlight, fiquei com aquela incômoda sensação de não ter “entendido o filme”. Não que a trama seja complexa ou algo do tipo, mas o propósito do roteiro (mais conhecido como ‘moral da história’) me escapou. Antes de escrever esse texto, fiquei um dia pensando sobre o que vi e cheguei a conclusão que o “problema” realmente estava comigo. O recorte temporal que o diretor e roteirista Barry Jenkins faz da vida de Chiron (Alex Hibbert/Ashton Sanders/Trevante Rhodes), mostrando-o na infância, adolescência e maturidade, não parece ter a pretensão de ensinar nada pra ninguém. O que Moonlight oferece é a oportunidade do espectador bisbilhotar, do conforto de sua poltrona, numa realidade selvagem, cabendo a cada um extrair de lá o que melhor lhe aprouver.

Jenkins conta sua história em 3 capítulos que recebem os nomes/apelidos que o protagonista usou ao longo da vida. Manterei essa divisão para organizar melhor as minhas ideias sobre o que vi e farei algumas revelações importantes sobre o roteiro, ok?

1. Moleque: Chiron nasceu e foi criado em uma vizinhança violenta. Sua mãe, Paula (Naomie Harris), é uma usuária de drogas que prostitui-se dentro da própria casa para sustentar o vício. Sem nenhum tipo de carinho e proteção, o menino vira alvo fácil para os valentões da escola. No início do filme, Chiron (ou ‘Moleque’, como ele é desdenhosamente chamado) corre de um grupo de perseguidores e esconde-se em uma tapera. Juan (Mahershala Ali), um traficante local, observa a cena e afugenta os delinquentes. Este episódio aproxima homem e criança, com Juan e sua esposa, Teresa (Janelle Monáe), passando a fornecer a estrutura familiar que o personagem nunca teve.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena2. Chiron: Juan partiu deste mundo (provavelmente vítima da vida arriscada que ele levou) e Chiron seguiu seu caminho. Às vezes ele visita Teresa e os problemas tanto com a mãe quanto com o pessoal da escola continuam, mas agora o garoto, já um adolescente, está envolvido mesmo é em seu próprio processo de autoconhecimento. Chiron, que agora faz questão de ser chamado pelo próprio nome, descobre-se gay em um final de tarde quando recebe um beijo de Kevin (Jharrel Jerome), seu amigo de infância. O relacionamento não dura: acovardado, Kevin junta-se a outros garotos e aplica uma surra em Chiron. No dia seguinte, o personagem é preso por quebrar uma cadeira nas costas de um de seus agressores.

3. “Nêgo”: Já adulto e solto da cadeia, Chiron transformou-se em um traficante de drogas e adotou o apelido de ‘Nêgo’. Quando o vemos pela primeira vez, com aquela dentadura de ouro e uma pistola na cintura, a sensação que temos é que o período encarcerado matou o resto de sua inocência. A “pose” do tipo N.W.A., porém, não dura muito: numa madrugada qualquer, Chiron recebe uma ligação de Kevin (André Holland), seu antigo amigo/amor e decide encontrá-lo.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-3Como vocês puderam ver, Moonlight é um prato cheio para quem gosta de temas polêmicos como violência, racismo, bullying, homossexualidade e núcleos familiares desfeitos. Como já vi muitos filmes que giram em torno dessas polêmicas, fiquei esperando por uma cena ou uma mensagem que convidasse o espectador a problematizar as questões postas, mas isso simplesmente não acontece, daí vem o nó mental relatado no primeiro parágrafo. A gente sabe que o fato de Chiron tornar-se um traficante está intimamente ligado aos problemas que ele enfrentou com a mãe e ao ambiente inóspito no qual ele cresceu, mas o diretor Barry Jenkins não nos obriga a acreditar nisso. Não há tampouco uma tentativa de explicar/justificar a homossexualidade do personagem relacionando-a à questões sociais e/ou biológicas. As coisas são como elas são, e não vi nenhum espaço para julgar as ações do personagem.

O fato do filme trazer uma história bastante hermética (fechada em si mesma), porém, não impede que a gente relacione-se com ele. Revisitando o que vi, resgatando cenas da memória e revendo alguns trechos, encontrei o seguinte diálogo:

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-5Juan: Uma vez, eu encontrei essa senhora. Ela era muito velha, velha mesmo. E essa senhora, ela me parou e disse: correndo por aí, sob a luz do luar, garotos negros ficam azuis. Você está azul. Então vou te chamar assim: azul.

Chiron: Então seu nome é azul?

Juan: Não. Chega um momento que você precisa decidir quem você é. Ninguém pode tomar essa decisão por você.

Aí está: tomada de decisão. Não há determinismo social, você escolhe o seu próprio caminho. Estaria aí, nesse trecho que não por acaso contém o título do filme (e seu correspondente subtítulo nacional tosco), a essência de Moonlight? Sim e não. De fato, Chiron acaba tendo algumas atitudes que mudam o seu destino, como quando ele resolve abandonar o papel de vítima e chispar uma cadeira nas costas de um idiota. Por outro lado, tão logo sai da cadeia, ele segue exatamente os mesmos passos de Juan e recorre à criminalidade para ganhar a vida, logo ele, Chiron, que ainda pequeno sabia que as drogas destruíam a vida de pessoas fracas como sua mãe.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-4A gente simpatiza com Kevin por ele tratar Chiron bem mas em seguida ele junta-se a um bando de babacas e bate no personagem. A gente detesta a mãe drogadona do cara mas, no fim, ela reconhece os próprios erros e dá um conselho muito válido para ele. Perceberam o quão difícil é formar opinião sobre o conteúdo do filme? Tal qual a luz da lua, tudo nesse filme é meio acinzentado, daí nossas mentes condicionadas diariamente para ver apenas em preto e branco tem dificuldade em ler personagens e situações que parecem estar além do bem e do mal. O fim sugere uma redenção através do amor? Talvez, mas não tenho certeza rs

Moonlight concorre a 8 Oscars, dentre eles Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Atriz e Ator Coadjuvantes, e é bastante pesado e desafiador. Só veja se você estiver disposto a deixar-se incomodar.

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