La La Land: Cantando Estações (2016)

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Ontem, 24/01, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar de 2017 (clicando aqui você vê a lista completa dos concorrentes). Seguem alguns comentários sobre os selecionados:

  •  A despeito de ter disputado apenas prêmios secundários no Globo de Ouro, o drama racial Estrelas Além do Tempo arrancou uma surpreendente indicação a Melhor Filme. O ocorrido parece ser uma resposta da Academia às críticas sofridas em 2016, quando praticamente nenhum ator/atriz negro(a), bem como as produções voltadas para eles, tiveram espaço na cerimônia. Olhando para cada categoria, percebe-se que esse ano houve uma preocupação com a diversidade, o que é bastante positivo.
  • Outra surpresa em relação ao Globo de Ouro foi a performance do ótimo A Chegada, que passou de 2 para 8 indicações, incluindo Melhor Filme. Os fãs de ficção científica agradecem o/
  • Eu não esperava o Mel Gibson na lista para Melhor Diretor, não por ter alguma crítica negativa ao que ele fez no Até o Último Homem, que ainda não vi, mas pela recente trajetória polêmica dele fora das telas.
  • Bizarro o Elle vencer o Globo de Melhor Filme Estrangeiro e não ser sequer indicado na mesma categoria do Oscar, ainda mais porque que sua protagonista, a Isabelle Huppert, concorrerá a Melhor Atriz. Alguém em Hollywood não gosta do Verhoeven.

Anúncio feito, agora é esperar até o dia 26/02 para assistir a cerimônia de premiação e conhecer os vencedores. Ficarei feliz comigo mesmo se, até lá, eu conseguir ver e resenhar pelo menos mais 12 filmes, o que cobrirá todos os indicados nas principais categorias e ainda me permitirá ver ao menos um documentário. I am one with the force and the force is with me! Bora!

la-la-land-cena-3La La Land ainda está nos cinemas e uma forma bem fácil de vendê-lo é dizer que o filme concorre em incríveis 14 categorias, o que coloca-o ao lado do Titanic e do A Malvada como recordista de indicações. A outra forma é defini-lo pelo que ele é, um musical que aquecerá o seu coração e fará com que você recorde cada um dos pequenos e belos momentos que marcaram o início da sua relação com aquela pessoa especial. Prefiro essa segunda abordagem, mas reconheço que ela esbarra em um problema: o musical, apesar de ser um gênero queridinho da Academia, não tem muito apelo junto ao público ocasional. Minha esposa mesmo, antes do filme começar, reconheceu que estava curiosa, mas que não gosta “quando aquele povo começa a cantar e dançar”. Nesse texto, contarei-lhes como o La La Land venceu a resistência dela à musicais e explicarei-lhes porque o filme tem tudo para ser o grande vencedor do Oscar de 2017.

la-la-land-cena-2É apenas mais um dia ensolarado em que dois jovens tentam sobreviver na mágica porém cruel cidade de Los Angeles. Mia (Emma Stone) trabalha como atendente na lanchonete de um estúdio e sonha com a possibilidade de tornar-se uma estrela de cinema. O pianista Sebastian (Ryan Gosling) toca músicas chatas em bandas ruins enquanto planeja abrir o seu próprio bar de jazz. O amor pela arte e o desejo de uma vida melhor unirá os personagens em uma história cheia de altos e baixo e muitas, muitas cenas onde o “povo começa a cantar e dançar”.

É claro que a cantoria causa estranhamento. Não é todo dia que você está em um engarrafamento e, do nada, alguém salta de um carro e começa um coro sobre o poder da perseverança. Superado esse “choque” inicial, porém, a qualidade do material fala mais alto do que qualquer desconfiança. La La Land foi escrito e dirigido pelo Damien Chazelle (o responsável pelo conceitual Whiplash) e, cena após cena, fica patente o esmero do diretor na coreografia das danças e na manipulação da câmera para que o espectador experimente algo arrebatador. Da parte técnica, chamo a atenção para o seguinte:

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  • Plano-sequência: Seja nas passagens grandiosas como a dança na ponte que abre o filme, seja em cenas mais intimistas como a do planetário ou ainda nas apresentações solo dos protagonistas, Chazelle praticamente não utiliza cortes, filmando tudo em incríveis tomadas contínuas.
  • Experimentação: Tradicionalmente, musicais costumam utilizar suntuosos cenários de estúdio para os personagens executarem suas performances. O diretor vale-se desse recurso (principalmente no final, com as muitas transições entre ambientes), mas ele também leva a dança para lugares pouco comuns. Gostei de ouvir os TIC PLEC dos sapatos de Sebastian e Mia no asfalto e achei a sequência abstrata do planetário, com o casal flutuando e movendo-se no infinito, o ponto alto do filme.
  • Repertório: La La Land é uma defesa apaixonada do jazz e do musical, dois formatos que Chazelle considera ameaçados atualmente. O diretor as vezes soa amargo (Sebastian diz que Los Angeles venera tudo mas não valoriza nada), mas a argumentação dele concentra-se mais em enaltecer o que ele ama através de citações dos grandes clássicos do estilo. Sou leigo em jazz, mas notei a frequência com que nomes de músicos são citados (bem como suas fotos nos cenários) e vi referências ao Cantando na Chuva (Sebastian rodopiando no poste), Cinderela em Paris (os balões), Sinfonia de Paris (toda a sequência final) e ao próprio Whiplash, com o J. K. Simmons fazendo uma divertida inversão de seu papel naquele filme (agora ele não gosta de jazz).

la-la-land-cena-5O espetáculo técnico, porém, pouco valeria se não viesse acompanhado de bons sentimentos. Palavras do Stephen King no Sobre a Escrita, “é menos sobre estilo e mais sobre contar uma boa história”. Sebastian e Mia são sonhadores, pessoas como eu e você que acordam todos os dias querendo uma oportunidade de mostrar ao mundo quem eles realmente são. Após um começo difícil (no engarrafamento, ele buzina e manda ela ir tomar um suco), eles encontram o caminho até o coração um do outro e, juntos, buscam forças para viverem seus sonhos. La La Land traz uma visão bem adulta sobre projetos de realização pessoal, mostrando que, as vezes, é necessário saber aceitar menos do que a gente merece antes da vitória chegar, mas ele também tem espaço para a inocência do amor adolescente. A química entre o Ryan Gosling e a Emma Stone, ambos indicados ao Oscar, me lembrou da primeira vez que saí com a minha (hoje) esposa, da primeira cerveja dividida em um bar barulhento, da primeira sessão de cinema juntos e, claro, do primeiro beijo. Durante a execução da linda City of Stars (concorre a Melhor Canção Original) eu olhei para o lado e vi ela me olhando de volta, sorrindo. Naquele momento, tive duas certezas: 1) ela gostou do filme que “o povo canta e dança”  tanto quanto eu 2) sou sortudo pra caralho.

La La Land foi o grande vencedor do Globo de Ouro e tem tudo para repetir o desempenho no Oscar. Vi um filme cult, que celebra o jazz e a história de Hollywood com uma técnica primorosa, mas também vi uma história de amor que faz qualquer um querer voltar a viver um namorinho de portão. Seu trabalho, Damien Chazelle, merece ser venerado pela Academia (com o Oscar) e valorizado pelo público (com o ingresso). Parabéns e obrigado ❤

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  1. Obrigada por dividir sua paixão por filmes comigo, sei que quando fazemos algo com amor e compartilhamos o amor toca profundamente a outra pessoa , sua paixão me encanta.
    Realmente os musicais nunca ganharam a minha simpatia, mas esse ganhou meu coração . Gosto quando os filmes retratam romances realistas , o ser humano é feito de sonhos e escolhas, infelizmente as obrigações adultas acabam nos distanciando dos sonhos , lindo ver que realizar os só sonhos é uma questão de insistência c e conhecimento pessoal .
    Meu entendimento de pessoa adulta se deu quando comecei a fazer minhas escolhas ,e entender que cada escolha tem sua consequencia e isso é retratado de forma tão romântica no filme que torna tudo mais bonito .

  2. Pingback: Toni Erdmann (2016) | Já viu esse?

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