Assassin’s Creed (2016)

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assassins-creedDescobri que, fora o branco dos olhos, eu tenho algo em comum com o ator Michael Fassbender: assim como ele, eu nunca joguei um game da franquia Assassin’s Creed. Isso, no entanto, não impediu-o de protagonizar a primeira versão cinematográfica do jogo e nem me deixou indiferente ao lançamento. Já passei muitas horas na frente da TV apertando x, quadrado, bolinha e triângulo e entendo perfeitamente o frisson causado pelo anuncio de adaptações de sucessos do videogame para o cinema.

Assim sendo, pausei (sem apertar Start) minha cobertura do Oscar e reservei um dia para assistir o filme. Motivos para desconfiar da qualidade de Assassin’s Creed não faltaram (alguns sites classificaram-no como ‘decepcionante’ e aquele trailer com uma música de hip hop foi um equívoco só), mas ainda sim eu honrei minha trajetória nerd e comprei o ingresso. Não me arrependi. O que vi não é tão empolgante quanto outras adaptações de jogos recentes (sinceramente, não acredito que o filme tenha forças para gerar a continuação que o final promete), mas as cenas de ação acabam compensando o roteiro capenga e, todo caso, sempre haverá a interminável série Resident Evil para ser o fundo do poço do gênero.

Entre os séculos XV e XIX, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, também conhecido como Inquisição Espanhola, perseguiu e matou judeus e muçulmanos que recusavam-se a converter-se à religião católica. É neste contexto que Aguilar (Fassbender) ingressa numa sociedade secreta de assassinos árabes para fazer frente aos templários, os quais estão varrendo o território espanhol em busca de um item precioso, a Maçã do Éden. Segundo a tradição, o artefato contem um segredo capaz de mudar o destino de toda a humanidade, e Aguilar e seus companheiros devem impedir que ele vá parar nas mãos da igreja.

assassins-creed-cena-4Católicos colocando fogo nos hereges, assassinos esfaqueando católicos, artefatos milenares… O cenário de Assassin’s Creed é bastante rico e convidativo, mas ao que parece os produtores não acreditaram que essa treta religiosa seria o suficiente para segurar o roteiro. Paralelamente à Inquisição, o diretor Justin Kurzel narra uma trama atual em que o detento Cal Lynch é salvo da morte por Sofia (Marion Cottilard), cientista que trabalha para uma organização misteriosa. Sofia é a mente por trás do projeto Animus, uma máquina que coloca Cal Lynch em contato com seu antepassado, o assassino Aguilar sobre o qual você leu ali no parágrafo anterior.

Vou tentar resumir. Cal Lynch é (foi) Aguilar, assassino do credo árabe. A organização de Sofia está ligada aos templários. Os conflitos entre os dois grupos repetem-se no presente, com Sofia manipulando Cal para que ele resgate as memórias de seu antepassado e descubra o paradeiro da Maçã do Éden. Entenderam? Não? Credo, uai! O modus operandi de Assassin’s Creed consiste numa série de flashbacks em que Cal usa o Animus para conectar-se à Aguilar e voltar para a Inquisição Espanhola em busca de informações. Suas habilidades vão aumentado à medida que o filme vai passando e, progressivamente, ele vai tomando partido no conflito entre muçulmanos e católicos. No meio de tudo, rola umas explicações meio O Código da Vinci, mas nada digno de nota.

assassins-creed-cenaHá uma discrepância gritante entre as cenas do passado e as do presente. Aguilar corre, pula, esfaqueia e despenca de lugares altíssimos no melhor estilo “X + -> + quadrado + bolinha”, tudo muito legal, mas aí na sequência seguinte você precisa ver o Fassbender lutando contra um roteiro ruim para tentar dar alguma profundidade a Cal, um personagem clichê que não aceita o seu destino. Aguilar foge da fogueira da inquisição e enfrenta uma série de inimigos em lutas muitíssimo bem coreografadas. Cal chora a morte da mãe e fica de birra com o pai. Aguilar pode até ser uma máquina de matar sem praticamente nenhum background, mas a gente acaba gostando muito mais dele do Cal. Adivinhem? As cenas de Cal duram muito mais que as do Aguilar.

Como não joguei Assassin’s Creed, não sei até que ponto essa dinâmica funciona (ou até mesmo existe) nos jogos, mas, enquanto filme, a alternância entre cenários de ação (passado) e drama (presente) é a grande vilã da história. A cena final até tenta unir os dois arcos (e não por acaso ela é melhor do que todo o lenga lenga sobre o lado violento do caráter humano), mas cá com os meus botões eu fico pensando no quanto o longa poderia ter sido melhor caso a trama inteira fosse ambientada na Inquisição, com o Aguilar tendo motivações mais claras e o conflito moral do presente sobre o livre arbítrio sendo adaptado para o século XV.

assassins-creed-cena-3Assassin’s Creed poderia ser melhor, mas certamente não é decepcionante. Acredito que o fato de eu não ter ligações emocionais com o jogo pode até ter ajudado na avaliação positiva, porém a qualidade das cenas de ação me impressionou de verdade. Caso vocês assistam, procurem reparar nos detalhes dos trajes dos personagens, na movimentação dos atores (que visivelmente abriram mão de dublês na maioria das cenas) e nas sequências criativas de pancadaria. É ou não é um material de primeira, desses que ficam bem legais na tela grande? Por cenas como aquele “salto da fé” (que foi filmado na marra), vale a pena deixar um pouco a história de lado.

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