Zootopia (2016)

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zootopiaLevando em consideração a temática engajada e o visual soberbo, eu daria o Globo de Ouro de Melhor Animação de 2017 para o Moana. Não é por isso, porém, que eu começarei esta resenha dizendo que a vitória do Zootopia foi injusta. Eu ter morrido de amores pela aventura da menina que queria navegar o oceano não me impede de reconhecer os muitos predicados que este filme tem, a começar pelo roteiro. Como quero comentar alguns detalhes da história (e considerando que a animação foi lançada no início do ano passado), o texto conterá SPOILERS, capiche?

Tal qual o título sugere, Zootopia é uma utopia vivida por animais, ou seja, uma fábula onde os protagonistas habitam uma sociedade ideal e harmônica nos moldes daquela imaginada pelo escritor inglês Thomas More. Basta alguns minutos de filme, no entanto, para que a gente perceba que a perfeição daquele mundo é bastante relativa. Ainda que exista um pacto de não agressão entre presas e predadores (o que permite que espécies diferentes convivam no mesmo espaço), a cidade onde a história desenvolve-se está lotada de sujeitos de caráter duvidoso. Brigões, políticos corruptos, vendedores de drogas, mafiosos e vendedores de DVD’s piratas (!!!) misturam-se aos trabalhadores de Zootopia, o que torna a presença da polícia indispensável para manter a paz e a ordem.

Desde pequena, a coelha Judy Hopps sonhou em seguir a carreira policial. Desencorajada pelos pais e pelos amigos, que julgavam-na muito pequena e fraca para a profissão, Judy valeu-se de sua inteligência e de uma força de vontade sem igual para estudar e realizar os exames de admissão. Aprovada, a personagem muda-se para a cidade de Zootopia louca para caçar e prender alguns bandidos, mas tudo que ela consegue é um entediante cargo de agente de trânsito. Judy até tenta resignar-se e transformar-se em uma eficiente máquina de emitir multas, mas logo o misterioso desaparecimento de 8 animais dará a oportunidade perfeita para ela provar o seu valor como policial e, de quebra, livrar a cidade de uma grande ameaça.

zootopia-cena-4Antes de falar sobre a natureza moral do roteiro de Zootopia, devo dizer que gostei demais da pegada da história, que é baseada em uma investigação e lembra o que há de melhor nos filmes noir hollywoodianos da década de 40/50, com os personagens visitando toda espécie de inferninho à procura de pistas que possam levá-los até o vilão. Logicamente, o material escrito e dirigido pelos cineastas Byron Howard e Rich Moore é suavizado, logo os prostíbulos e bares copo sujo cedem espaço para ambientes menos polêmicos e potencialmente engraçados, como um clube de nudismo, mas ainda assim foi muito legal ver a Disney investir em uma narrativa menos convencional que atravessa o submundo e dá voz a personagens marginais como o malandrão Nick Wilde.

Minha memória não anda lá essas coisas (já tô do tipo que precisa anotar senhas e datas), mas lembro que os primeiros trailers de Zootopia davam a entender que o protagonista da história era o Nick, e não a Judy. Acontece que, nas audições-teste que foram realizadas antes do filme ser lançado, os produtores perceberam que o público não foi muito com a cara de Nick, logo o roteiro foi reescrito e o foco da história mudou. Não é difícil entender o porque disso ter acontecido. Eu, que sou adulto e senhor do meu próprio lar, gostei bastante do personagem, mas imagino que um pai possa ficar desconfortável ao ver no papel de protagonista um raposo que ganha a vida aplicando golpes na praça com a ajuda de um anão. Nick é um sobrevivente, descolado e inteligente, mas o esforço e a honestidade de Judy vendem mais e sintetizam melhor a reconfortante ideia de que, no fim, o bem sempre vencerá o mal.

O final de Zootopia, como o da maioria das fábulas, é moralista e didático. Crime e castigo são faces da mesma moeda, ou seja, se você fizer merda, você irá se ferrar. Antes do chinelo comer, porém, o roteiro dá um nó na cabeça de quem enxerga o mundo em preto e branco e vale-se de uma inversão de estereótipos para fazer o público pensar. Num cenário comum, ovelhas são vítimas e leões são vilões, certo? A tendência é que  torçamos sempre para o Davi, mas nossa simpatia pelo mais fraco não pode impedir-nos de ver que, as vezes, é o Golias que está sendo sacaneado. A gente acha normal quando o prefeito Lionheart é acusado de ser o responsável pelo sumiço dos 8 animais, afinal de contas ele é um predador e não seria estranho ele obedecer ao próprio instinto e quebrar o pacto de não-agressão. Grande é a nossa surpresa, portanto, quando a ovelha Bellwether, secretária do prefeito, é desmascarada no fim, revelando seu plano para amedrontar e confundir a população de modo que ela pudesse chegar ao poder. É sempre importante reforçar que, por mais tentador que seja, não devemos deixar-nos levar pelas primeiras impressões.

A ótima história de Zootopia é enriquecida pelos detalhes. Eu, que nunca me cansarei de referências ao O Poderoso Chefão, adorei o personagem Mr. Big, versão fofinha do Don Corleone que, no dia do casamento de sua filha, ajuda Judy e Nick fazendo ofertas irrecusáveis para alguns vilões. Boa também é a cena de sintetização de drogas, momento que será celebrado pelos fãs da série Breaking Bad, e a barraquinha de DVD’s pirata do loucão Duke Weaselton, na qual encontra-se versões paralelas de várias animações recentes da Disney, como Pig Hero 6 (Operação Big Hero) e Wreck-It Rhino (Detona Ralph). Por fim, apesar de ter uma pegada levemente mais sombria e adulta, Zootopia tem aquela ótima piada do bicho preguiça, que você certamente viu (e riu) nos trailers e que fica ainda melhor quando inserida dentro da história como uma (infelizmente) válida crítica ao funcionalismo público. Pessoalmente, continuo preferindo o Moana, mas Zootopia é bom o suficiente para merecer sua atenção.

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