Divines (2016)

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divinesA cerimônia do Globo de Ouro 2017 foi realizada no último domingo, dia 08/01. Eis alguns comentários sobre o que vi (e alguns sobre o que li no dia seguinte):

  • La La Land: Cantando Estações levou tudo. Indicado em 7 categorias, o musical terminou a noite com 7 estatuetas e transformou-se no favorito para vencer o Oscar de Melhor Filme deste ano. Moonlight: Sob a Luz do Luar (e dá-lhe subtítulo tosco!) levou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e correrá por fora (apesar que, considerando o que houve em 2016, sempre pode surgir um azarão).
  • O Rubens Ewald Filho continua insuportável. Fora os comentários rasos sobre os concorrentes (quando perguntado sobre o Ryan Gosling, ele disse que é um ator ‘interessante’), o crítico foi grosseiro ao menosprezar a vitória do Casey Affleck, classificando-a como “uma grande bobagem”. Pessoalmente, eu também preferia o Denzel, mas daí a dizer que o Casey é um ator ruim é MUITA babaquice.
  • Que bom que a Isabelle Huppert venceu na categoria Melhor Atriz – Drama. A performance visceral dela não merecia ser eclipsada pelo fato do Elle ter sido feito fora de Hollywood.
  • A Meryl Streep foi homenageada com o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto da obra e, no discurso de agradecimento, fez duras críticas ao comportamento do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como às suas promessas de políticas anti-imigracionistas. No outro dia, as redes sociais estavam cheias de mensagens de apoio à atriz, mas também houve quem acusasse-a (como o próprio Trump fez) de mentir por não aceitar a derrota dos democratas na última eleição. Do ocorrido, extrai-se que, mesmo que aos trancos e barrancos, a liberdade de expressão ainda respira (ela pode acusá-lo, sem provas, de zombar da deficiência de um repórter; ele pode dizer que ela, vencedora de 3 Oscars, é uma atriz superestimada). Também conclui-se que a internet transformou-se no grande tribunal do século XXI. Eu, que também sou juiz, achei que o apelo da atriz por tolerância, respeito e paz perdeu-se um pouco na insistência sobre o caso do deficiente e na comparação infeliz entre cinema e MMA. Esses “deslizes”, porém, não invalidam o resto da mensagem, ou alguém discorda que “violência gera violência e desrespeito gera desrespeito”? As vezes, é bom analisar mais os discursos e menos os oradores.

Divines (que provavelmente sairá por aqui como Divinas – Duas Garotas da Pesada), produção original da Netflix da diretora Houda Benyamina, concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Assisti-o sem muitas expectativas (ele não entrou na lista final de produções indicadas ao Oscar e, no Globo, os favoritos eram o Elle, que ganhou, e o The Salesman) e encontrei um filmão, daqueles que tu termina e tem vontade de sair comentando e indicando para todo mundo.

divines-cena-2Dounia (Oulaya Amamra) é uma adolescente lutando para sobreviver na periferia de Paris. Filha de uma prostituta alcoólatra (!!!), Dounia pratica pequenos roubos nos supermercados locais para adquirir produtos que, posteriormente, ela e Maimouna (Déborah Lukumuena), sua amiga, venderão na escola durante os intervalos. Foi após ver uma cena ambientada nessa escola, aliás, que eu perdi o meu chão.

No que parece ser uma aula profissionalizante, uma professora tenta ensinar as atribuições de uma secretária para as alunas. “Boas secretárias”, ela diz, “sorriem, sentam com a coluna ereta e estão sempre preparadas para resolverem conflitos”. Dounia, que é literal e metaforicamente uma filha da puta, atrapalha a aula de todas as formas possíveis. Com a paciência no fim, a professora pergunta se Dounia não pensa no futuro, se ela não quer ganhar dinheiro. A resposta da menina é fulminante: “Ser secretária pra quê? Para ter a mesma vida miserável que você? Quanto você ganha? O suficiente para pagar o aluguel, água, energia, telefone e comprar essas roupas feias que você usa? Eu quero MONEY, MONEY, MONEY!”. A sala inteira ri. Irritada, a professora expulsa Dounia da sala.

divines-cena-5O incômodo com o que vi não deixa de ser uma reação natural de empatia. Eu também sou professor e, infelizmente, já vivi situações semelhantes, logo é fácil imaginar a frustração que aquela mulher passou. O vazio que senti, no entanto, vai um pouco além da empatia. Em um primeiro momento, eu até fiquei com raiva de Dounia. Vai ser grossa assim lá na puta que pariu! Na sequência, porém, eu não pude deixar de reconhecer que há uma verdade inconveniente no que ela diz. O planejamento de vida a longo prazo baseado na escola (estudar, aprender uma profissão, batalhar por alguns trocados) deixou de ser uma opção para os jovens que crescem acostumados com a velocidade da internet. Eles não querem conselhos sobre coluna ereta e nem promessas de um futuro estável, eles querem dinheiro, sexo, roupas de marca, bebidas e carros, tudo aqui e agora. Nós, um dia, também desejamos o mesmo, mas daí crescemos, apanhamos um pouco da vida e percebemos que não existem muitos atalhos: se você quer algo, você tem que esforçar-se para consegui-lo. É ruim ver que, por melhor que sejam nossos argumentos, nós não conseguimos mudar a cabeça de alguns jovens. Infelizmente, eles também precisam se ferrar para aprender, e em Divines Dounia se ferra pra valer.

divines-cenaApós virar as costas para a escola e perceber que a mãe não lhe dará nenhum futuro, Dounia e Maimouna começam a trabalhar para Rebecca (Jisca Kalvanda), uma traficante local. No início, elas realizam tarefas simples, como vigiar o quarteirão para certificar-se que a policia não aparecerá no meio de uma venda de drogas, mas logo Rebecca decide usar a inteligência e a beleza de Dounia para faturar alto. Na cidade, há um figurão que guarda 100mil dólares em casa. Caberá a Dounia seduzi-lo e rouba-lo.

Divines tem o mesmo poder de assustar/conscientizar que, em seu tempo, filmes como Eu, Christiane F., Diário de um Adolescente e Réquiem para um Sonho tiveram. A diretora Houda Benyamina construiu uma narrativa do tipo “ascensão e queda” bastante didática e atual para mostrar para os jovens (ou até mesmo para os adultos que não amadureceram) que não há como escapar das consequências de atos ilícitos. As meninas divertem-se muito antes dos problemas acontecerem (há uma cena verdadeiramente divina, tanto pela execução quanto pela atuação das atrizes, em que elas fingem dirigir uma Ferrari ), mas, no fim, a conta chega. É um filme moralista? É, mas um pouco de moralismo não faz mal para quem maltrata professores e acredita que pode sair por aí roubando, vendendo drogas e ganhando Iphone de graça, não é mesmo?

divines-cena-4A diretora não desconsidera o ambiente ruim em que Dounia cresceu (família desestruturada, vizinhança violenta). Houda parece ser partidária da ideia de que as condições influenciam, mas não determinam o destino de alguém, e por isso gasta um tempo mostrando que, apesar de tudo, há caminhos (o amor, a arte, a amizade) fora do crime para que os jovens possam escapar das armadilhas de uma sociedade em que eles valem o que consomem. Como eu concordo com ela, levarei Divines para os meus alunos verem esse ano, não para ditar caminhos, mas para dar exemplos e mostrar que sempre haverá mais de uma opção.

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