Cercas (2016)

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cercasEu já fui ao cinema em outro país e em outros estados, mas eu nunca havia ido ao cinema dentro da minha própria casa. Ontem eu fiz isso e foi muito, muito legal.

Comprei um projetor portátil para utilizar nas aulas que darei esse ano. Ao longo de 2016, não foram poucas as vezes que senti falta de mostrar imagens e vídeos para ilustrar o que eu estava falando, mas a escola onde eu trabalho possui apenas uma sala de vídeo e ela está sempre ocupada pelos outros professores. Assim sendo, resolvi investir uma grana para facilitar a minha vida e, de quebra, tornar temas como Revolução Francesa e Primeira Guerra Mundial mais atrativos para os alunos.

Como eu precisava testar o aparelho, coloquei-o sobre uma mesa no fundo da minha casa, mirei a projeção numa parede encardida, configurei daqui, regulei dali e TCHANAM! montei o meu próprio cinema! Tá certo que a intenção não era bem essa e que a projeção não fica maior do que a tela de uma TV de 42″ (o som também é meio capenga), mas não tem crianças gritando, não tem adultos mexendo no celular e eu consigo ver estrelas quando olho para o alto. Estrelas, caras!

O filme que ficará marcado para sempre na minha memória como o primeiro de muitos que verei no conforto da minha casa é o Cercas. Dirigido e protagonizado pelo Denzel Washington, o longa é baseado em uma peça teatral do escritor August Wilson e conta a conturbada história de uma família afro-americana que atravessou a década de 50 lutando para sobreviver à pobreza e ao preconceito racial mas, sobretudo, lutando para permanecer unida.

cercas-cena-3A primeira impressão que tive de Troy (Denzel) foi muito boa. Falastrão e bem humorado, o cara passa a semana toda dando duro como lixeiro e na sexta, e somente na sexta, ele tira um tempo para tomar um trago com seu amigo Jim Bono (Stephen Henderson). Troy é casado com Rose (Viola Davis), mulher que ele paparica constantemente com elogios e promessas de noites fogosas, cuida de um irmão com problemas psicológicos (Mykelti Williamson) e cria dois filhos que não demonstram interesse em trabalhar, Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby). Que homem, não?

Completando o perfil “cara legal”, Troy mostra-se disposto a enfrentar o status quo de sua época e questiona seu patrão sobre a distribuição das tarefas na empresa. Segundo ele, não é justo que somente os brancos possam dirigir o caminhão do lixo enquanto os negros ficam responsáveis pela coleta. Quando surge um burburinho que a reclamação pode custar-lhe o emprego, Troy vale-se de sua característica mais marcante, a eloquência, e faz um belo e corajoso discurso de enfrentamento.

cercas-cena-4Nesse momento da trama, já rendido pelo caráter do personagem e por sua postura leve diante dos problemas, eu era capaz de jurar que Cercas caminharia para alguma injustiça trabalhista e/ou injúria racial que Troy enfrentaria em uma história edificante. Não é nada disso que acontece. Na segunda metade do filme, vemos aquele herói da vida real ser desconstruído no seio de sua intimidade familiar até restar apenas mais um ser humano qualquer, com suas qualidades e defeitos.

Troy, que é apaixonado por baseball e foi ele mesmo um excelente rebatedor, não quer que Cory, seu filho mais novo, tente uma carreira no esporte. Segundo ele, por mais que os negros sejam melhores que os brancos, a questão racial sempre falará mais forte no momento do treinador escolher os titulares. Considerando o contexto da história (Estados Unidos, década de 50), esse raciocínio não está descolado da realidade e pode até ser visto como um gesto protecionista de pai para filho, mas ao mesmo tempo essa resignação soa hipócrita quando vemos que o próprio personagem não priva-se de questionar a ordem das coisas em seu serviço.

cercas-cenaMais uma vez, o discurso do “faça o que eu digo, não o que eu faço” incomoda na relação de Troy com Lyons, filho mais velho que ele teve em outro casamento. Lyons, que trabalha na noite como músico e ganha pouco, vive pedindo dinheiro emprestado. Troy dá um um sabão épico no filho por isso, dizendo que ele deveria abandonar aquele ambiente de vagabundos e arrumar um serviço de verdade, mas é justamente para um bar que Troy vai toda sexta feira tomar uma com Jim antes de ir para casa. Estranho, não? É nesse bar, aliás, que Troy começa a enrolar-se de verdade.

Logo no primeiro diálogo do filme, Jim diz que viu Troy observando uma garota. Troy desconversa e a gente nem dá muito bola para essa conversa, que é rápida e acontece em meio aos créditos iniciais. Troy, aquele homenzarrão apaixonado e trabalhador, não trocaria Rose por um rabo de saia qualquer, não é mesmo? A escapada do personagem ganha proporções inimagináveis na segunda metade de Cercas e dá a chance da atriz Viola Davis brilhar em uma cena poderosa de desabafo que transborda sentimentos tão díspares e ao mesmo tempo tão inseparáveis como amor e ódio.

cercas-cena-2Cercas, conforme o título sugere (e que é explicitado por Rose em um diálogo), fala de pessoas que constroem proteções metafóricas ao redor de si para lidar com os problemas da vida. O ponto aqui é que essas proteções podem tanto resguardar o que está dentro quanto manter longe quem está do lado de fora. A “cerca” de Troy é o discurso de austeridade, a postura de chefe de família trabalhador que ele usa para esconder os próprios erros e fraquezas enquanto cobra posturas dos filhos, da esposa e do amigo que ele mesmo não pratica. Cercas critica a rigidez de caráter e os discursos hipócritas, mas o final reserva um bálsamo, quase uma solução do tipo deus ex machina, para que a gente perceba a beleza das contradições que habitam o coração humano. Colocando de outra forma, Troy não é um herói, mas isso não faz dele necessariamente um filho da puta.

Pelas atuações, Denzel Washington e Viola Davis concorrem, respectivamente, ao Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama e Melhor Atriz Coadjuvante. Não consegui ver todos os indicados (e nem conseguirei – a cerimônia de premiação já é amanhã), mas torcerei pela dupla, principalmente pelo Denzel, que fala, fala, fala e a gente não consegue cansar de escutar. O texto é bom e divertido, mas o domínio dele sobre o personagem (que o próprio Denzel já havia interpretado no teatro mais de 100 vezes) é tipo de coisa que merece um prêmio.

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  1. Esse filme revira a gente, pois estamos sempre acostumadas a ditar regras de condutas e criticar as escolhas alheias, quando damos de cara com uma mulher gritando tudo que ela sente, as escolhas e os motivos de cada sonho deixado de lado, impossível querer julgar, e não se identificar .

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