Capitão Fantástico (2016)

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capitao-fantastico“O negócio é largar tudo, mudar para o meio do mato, comer banana e ler Marx”

Ouvi (e falei) muito isso entre 2004 e 2010, período que cursei História na Universidade Federal de Uberlândia. Depois de ficar sentado 3h30min numa cadeira desconfortável, sentindo o perfume suave da Mary Jane e ouvindo os professores falando sobre os males da sociedade de consumo, a gente meio que experimentava um tilt mental ao tentar casar teoria e prática. O homem é primata, o capitalismo é selvagem e a revolução (viva!) é o caminho, mas ainda assim no outro dia eu levantaria cedo para trabalhar e, provavelmente, iria ao cinema no final de semana ver algum blockbuster dirigido pelo Michael Bay. Na saída, uma promoção do Big Mac (sem cebola) com Coca. Coerência zero.

Brincávamos, portanto, com a dificuldade de lutar contra o sistema inseridos no próprio sistema. Como, ao nosso alcance, haviam apenas ações paliativas e projetos a longo prazo (consumir apenas o necessário, votar no barbudão eloquente do PSTU), vez ou outra imaginávamos como seria chutar o balde de verdade. Movimentos sociais e luta armada? Não, isso dá muito trabalho, é perigoso e dependente da vontade alheia. Por que esperar se, hoje mesmo, poderíamos encontrar um lugar longe das garras da mais-valia para viver uma vida rica em fibras e vitaminas? Por mais “tentadora” que fosse essa visão, no entanto, nenhum de nós enveredou por esse caminho. A maioria de nós, aliás, hoje está lecionando em escolas públicas, passando o sonho de uma sociedade mais justa adiante. Sabe como é, né? Os boletos vencem impiedosamente no quinto dia útil do mês. Apresento-os agora Ben (Viggo Mortensen), um homem que teve mais culhões do que todos nós juntos.

capitao-fantastic-cena-2Não sei se Ben gosta de bananas, mas ele certamente não depende delas (ou de qualquer outro alimento fácil de ser conseguido) para sobreviver. Ben é um ótimo caçador, tem preparo físico de atletas olímpicos e é uma enciclopédia ambulante. Há muitos anos, ele decidiu afastar-se da sociedade e mudou-se para um pequeno acampamento no meio de uma floresta. Lá, ele e a mulher, Leslie (Trin Miller), criaram seis filhos (Bo, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai), oferecendo-os conhecimentos avançados de literatura, medicina, leis e matemática, bem como treinamento físico e técnicas de luta e sobrevivência. O isolamento, que era interrompido apenas para viagens rápidas até a cidade em busca de equipamentos e suprimentos, tendia a continuar até o fim da vida de todos, mas aí Leslie comete suicídio e obriga Ben e os filhos a deixarem o acampamento temporariamente para irem até o velório, que será em outro estado.

Capitão Fantástico, filme do diretor e roteirista Matt Ross que garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para o Viggo Mortensen, fala sobre os benefícios e malefícios de viver afastado da sociedade. Ross realiza esta discussão através de um viés político/econômico/cultural, opondo capitalismo (a vida em sociedade com todas suas futilidades e vícios) e socialismo (vida intelectual e austera) de forma meio caricata, o que torna o filme um prato cheio para debates ideológicos acalorados, mas também há outras nuances que chamam a atenção, como o processo de educação infantil e o poder da autocrítica.

capitao-fantastic-cenaOs filhos de Ben e Leslie leem escritores russos como Doistoiévski (Os Irmãos Karamazov) e Vladimir Nabakov (Lolita). Eles tem momentos diários para discutirem física quântica e aspectos da moralidade. Ele sabem citar todos os artigos da Constituição Americana e possuem opiniões sobre suas aplicabilidades. Juntos de Ben, eles praticam atividades físicas como correr na floresta, escalar montanhas e caçar animais. Há pelo menos duas formas de enxergarmos tudo isso (com admiração ou com reprovação) e o diretor nos faz experimentar ambas ao longo do filme.

Eu acho fantástico, por exemplo, que um adolescente leia Lolita e, mais do que dizer que “é um livro interessante”, saiba comentar os pormenores polêmicos da história. Também vejo com admiração a disciplina com os estudos e com exercícios físicos e, definitivamente, bato palmas para a forma como os conflitos de opiniões são resolvidos na família de Ben. Eles conversam, olho no olho, sem enrolação, sem misticismos, sem eufemismos, só argumentos.

capitao-fantastic-cena-5Por outro lado, há a oposição rígida e engessada ao sistema, que não raramente soa hipócrita. Ben tem dinheiro (a origem não é muito bem explicada, mas dá a entender que a grana veio da esposa), e isso facilita bastante a sua vida as margens da sociedade, a qual ele recorre sempre que necessário para adquirir suprimentos e fazer uso de tecnologia (telefone, etc). Os filhos de Ben tem um conhecimento teórico formidável (a cena ‘da Constituição’ é impressionante), mas demonstram dificuldade para entenderem sentimentos e interagirem com pessoas que não estão nos livros, como seu primogênito lhe diz em uma cena chave.

Os contras da vida parcialmente isolada e da educação parental, no entanto, parecem insignificantes quando a família cai na estrada, no melhor estilo road movie, para ir até o velório de Leslie. Mesmo com todas as privações e com o autoritarismo de Ben, não há comparações justas, por exemplo, entre os filhos dele e os de seu cunhado, dois adolescentes típicos que não dão a mínima para a escola e que ficam o dia todo com a cara enfiada em equipamentos eletrônicos. Quando a gente está quase convencido de que, apesar de tudo, Ben está certo e que Capitão Fantástico é anti-sistema, o protagonista acaba sendo diretamente responsável pela filha ferir-se em uma “missão arriscada”.

Perceberam a grandeza do roteiro de Capitão Fantástico? Antes de posicionar-se (e ele o faz), o diretor Matt Ross conseguiu a proeza de pesar igualitariamente os dois lados das questões educacionais e ideológicas que ele aborda, dando argumentos tanto para reforçar aquilo que já acreditamos (teoria sem prática também é futilidade) quanto para estimular a nossa autocrítica (viver no mato comendo banana e lendo Marx é mais saudável do que muita coisa por aí). Outra façanha aqui é o tom que o diretor conseguiu dar para a trama. Pelos temas que aborda, Capitão Fantástico poderia ser pesado e sombrio, mas Ross disse tudo que tinha para dizer numa comédia leve e agradável (rola até uma versão açucarada da clássica Sweet Child O’ Mine). Ao meu ver, está configurada a grande injustiça do Globo de Ouro de 2017: Capitão Fantástico é um dos melhores (senão o melhor) filme dessa safra de premiações que vi até agora e deveria estar concorrendo em mais categorias. Torço para que ele tenha mais sorte no Oscar.

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  1. Pingback: Manchester À Beira-Mar (2016) | Já viu esse?

  2. Sem dúvida alguma a propaganda Marxista mais divertida que eu já vi, a impressão que eu tive foi a de que eu teria apreciado o filme bem mais se eu fosse um esquerdista. Seu texto corrobora…

    “capitalismo (a vida em sociedade com todas suas futilidades e vícios) e socialismo (vida intelectual e austera)” Essa parte aqui me fez rir horrores…

    Recomendo fortemente o livro: “A mentalidade anticapitalista”

    http://www.mises.org.br/files/literature/A%20Mentalidade%20Anticapitalista%20-%20WEB.pdf

    • Olá!
      O filme utiliza esses estereótipos aí. O fato de eu ter identificado-os e colocado-os no texto não quer dizer que eu concorde com eles.

      Não sou “esquerdista” 🙂

      Abraço

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