Loving (2016)

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lovingNo ano de 1958, Richard Loving (Joel Edgerton) e Mildred (Ruth Negga) cometeram um crime. Contrariando as leis do estado da Virgínia, eles, um casal interracial, casaram-se e foram morar juntos. Como naquela época a miscigenação (mistura de raças, por casamento ou coabitação) era proibida, eles foram presos e levados a julgamento. Na sentença, o juiz determinou que eles seriam liberados da prisão com a condição de deixarem o estado e não voltarem juntos para o mesmo durante os próximos 25 anos.

Baseado em fatos reais, Loving conta como a batalha judicial de Richard e Mildred para regressarem à Virgínia chegou até a Suprema Corte dos Estados Unidos e transformou-se em um símbolo da luta pelos direitos civis na década de 60, culminando na invalidação da lei que proibia o casamento interracial.

Pode ser que, caso você tenha o hábito de assistir filmes regularmente, o tema do preconceito/igualdade racial pareça-lhe repetitivo e esgotado. Você não está tão errado por pensar assim. No últimos anos, produções que tratam do assunto como Histórias Cruzadas, 12 Anos de Escravidão e Selma ocuparam lugares de destaque nas premiações hollywoodianas. Em 2016, a ausência de material voltado para essa temática (bem como a de de atores negros entre os concorrentes) provocou campanhas de rejeição e boicote ao Oscar nas redes sociais, o que prova que a demanda pelo tema continua forte. De fato, trata-se de um assunto recorrente, mas isso não torna-o chato ou menos importante. Diariamente pessoas são vítimas de preconceitos raciais e o cinema cumpre um papel fundamental de exemplificar o quão monstruosas são essas atitudes. Se o trabalho de conscientização não pode parar, cabe aos cineastas encontrarem novas formas de abordarem o tema sem tornarem-no enfadonho para quem já possui alguma bagagem cinematográfica. Em Loving, o diretor e roteirista Jeff Nichols tenta nos conquistar com a força pura dos fatos e do amor, sem grandes rodeios e discursos teatrais. Funciona até certo ponto.

loving-cenaAntes de termos qualquer informação de tempo e espaço para prevermos as dificuldades que o casal enfrentará, vemos Mildred contar para Richard que ele será pai. Richard, que posteriormente revelará-se um homem sério e de poucas palavras, abre um sorrisão e responde “Bom. Isso é muito bom”. Na sequência, ele adquire um terreno, esboça o plano de construção de uma casa e compra um anel de noivado. Tais atitudes poderiam até serem interpretadas apenas como sinais de uma postura responsável diante da gravidez, mas não é bem isso que está acontecendo ali. Em cada olhar, em cada beijo que Richard dá em Mildred, a gente vê claramente que ele é um homem apaixonado.

Os carros antigos, as roupas “fora de moda” e as placas e embalagens de produtos que já não estão mais em circulação denunciam que trata-se de um filme onde o amor entre uma pessoa branca e uma “de cor” não será aceito facilmente pela sociedade. Richard, que conhece as leis da Virgínia sobre o casamento interracial, tenta burlá-las levando Mildred para casar-se em Washington, D. C. A manobra, no entanto, não passa despercebida da população local, que denuncia-os para a polícia. Nesse ponto, já munido de informações suficientes para saber sobre o que o filme trataria, fiquei bastante triste e revoltado quando vi a viatura policial dirigindo-se para a residência do casal para efetuar a prisão. Sabe quando algo parece não fazer absolutamente nenhum sentido? É exatamente assim que a gente sente-se quando vê Richard e Mildred, que está grávida, sendo presos apenas por se amarem e por terem casado um com o outro.

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Quando vi a tal viatura, pensei também que o diretor nos daria uma daquelas cenas difíceis de serem assistidas em que algum dos personagens seria vítima de violência policial. O ato físico em si (socos, chutes) não acontece, mas há coisas tão ruins quanto. Richard, aquele homem bom e apaixonado que conhecemos no início do filme, precisa ouvir de um policial que não é certo ele casar com Mildred porque isso vai contra a “lei de Deus”, que fez as pessoas diferentes por um motivo. Ele até tenta argumentar que aquilo não está certo, que Mildred está grávida, mas o homem vale-se da lei e de sua mente conservadora para fazê-lo calar sob pena de prendê-lo novamente. Esse tipo de cena faz a gente sentir-se pequeno demais, impotente demais, e é bom que assim seja para que a gente passe a pensar duas vezes antes de querer ditar regras (sejam elas baseadas em raça, religião, sexualidade, etc) para a vida alheia.

Fianças pagas, Richard e Mildred são soltos, julgados e condenados a mudarem-se de seu estado. Para evitar maiores problemas, o casal junta suas coisas e vai para o Distrito de Columbia, mas ainda que a vida deles comece a progredir na nova residência (Richard consegue trabalho na construção civil, Mildred dá a luz três filhos), é notório o desejo deles de retornar para a Virginia. Eles até o fazem algumas vezes, escondidos, mas o medo constante da polícia continua sendo um indicativo de que algo não está certo. É aí que, aproveitando a força que a luta pelos direitos civis ganhou nos anos que seguiram-se a sua condenação, Mildred resolve escrever uma carta para o Senador Bob Kennedy solicitando que ele interviesse na situação. O casal passa então a ser assessorado por um ambicioso advogado, que vê no caso a possibilidade de ficar famoso mudando a própria Constituição dos Estados Unidos.

loving-cena-2A beleza de Loving está nas atuações quase silenciosas de seus protagonistas. Indicados ao Globo de Ouro de Melhor Atriz e Ator, Ruth Negga e Joel Edgerton falam pouco durante o filme, mas a gente não tem a menor dúvida do que eles estão sentindo, seja revolta, amor ou esperança, quando olham um para o outro e para as muitas pessoas, boas e más, que cruzam seus caminhos. O diretor Jeff Nichols oferece realismo quando retrata os sentimentos e aflições de pessoas comuns do interior, que não precisam valerem-se de discursos eloquentes para provarem a grandeza de suas causas, e quando mostra que grandes mudanças dependem mais de persistência do que de enfrentamentos imprudentes. É uma abordagem deveras inovadora, mas vez ou outra o filme tende a ficar maçante devido a ausência de cenas mais explosivas (no bar, quando ouve de um amigo que ele ‘não é preto’, o controlado Richard só ri). Não tenho dúvidas, porém, que as qualidades de Loving superam suas poucas escorregadas, transformando-o em mais um importante registro da sempre válida luta contra o preconceito.

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