Florence Foster Jenkins (2016)

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florence-foster-jenkins Eu sempre mantenho os títulos e subtítulos nacionais dos filmes aqui no blog. Faço isso não porque eu concordo com eles (acho estranho, por exemplo, que o Concussion tenha saído por aqui como Um Homem Entre Gigantes), mas sim para facilitar a busca dos leitores e para alinhar dados com o IMDB, que seguramente é um dos maiores portais sobre cinema da internet. Desta vez, porém, optei por manter o título original. Porquê? Porque o nacional é uma bosta. Desculpem a sinceridade, mas transformar Florence Foster Jenkins em Florence: Quem é Essa Mulher? é a atitude de uma pessoa retardada visando entreter e criar mais pessoas retardas. No pôster, você tem atores consagradíssimos como a Meryl Streep e o Hugh Grant, mas mesmo assim algum espertinho achou necessário fazer suspense através de um jogo de palavras óbvio no título para atrair o público. Sim, óbvio, porque acredito que a primeira coisa que passa na cabeça de alguém que não conhece a personagem-título é exatamente “Quem é essa mulher?”, mas nem esse raciocínio simplório o pessoal do marketing deixa o público realizar sozinho. Por mais irrelevante que seja esse apelo, não furtarei-me de fazê-lo: pessoal, parecem de subestimar nossa inteligência!

Mas e aí, quem é Florence Foster Jenkins (Meryl Streep)? Este filme, que é baseado em fatos reais e conduzido pelo diretor Stephen Frears (de Philomena), fala de uma milionária excêntrica que, na Nova York da década de 40, gastou uma fortuna para realizar o sonho de apresentar-se como cantora de ópera no Carnegie Hall, uma das salas de espetáculo mais famosas dos Estados Unidos. Essa descrição/sinopse não deixa de responder a pergunta infeliz do subtítulo nacional (Quem é essa mulher?), mas, conforme eu havia desconfiado, o filme não resume-se a reproduzir os fatos de forma wikipediana. Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia/Musical, Florence Foster Jenkins, doravante apenas Foster, é divertido e informativo, mas também é eficiente em analisar a personalidade da protagonista e de seu marido, oferecendo uma sessão multifacetada onde o grotesco e o sublime misturam-se constantemente.

florence-foster-jenkins-cenaA primeira impressão que o Stephen Frears nos vende de Florence é a de uma mulher espirituosa e alegre, mas também mimada e sem um pingo de senso crítico. Amantes da música, ela e o marido, St Clair Bayfield (Hugh Grant), organizam encontros regulares entre a burguesia nova-iorquina, nos quais há declamações de poemas e apresentações de curtas teatrais que homenageiam e celebram a música clássica. Florence desempenha bem o papel de patrona das artes, investindo pesado nestes espetáculos e em eventuais artistas que precisam de ajuda financeira, mas desde a primeira cena fica claro que ela não possui nenhum pingo de talento, seja para cantar, seja para interpretar. Fora um grupo de senhorinhas simpáticas (e surdas rs), as pessoas comparecem em suas reuniões pomposas porque foram convidadas (e devidamente pagas) por Bayfield. Nesse ponto, é inevitável perguntar-se sobre a postura de Florence frente ao público: ela sabe (e ignora conscientemente) que todos são interesseiros ou ela realmente acredita na admiração da plateia?

florence-foster-jenkins-cena-2Certo dia, Florence vai com Bayfield até uma apresentação de ópera e seu coração é tocado novamente pela beleza da música. Com muito dinheiro e tempo à disposição, ela decide procurar um professor de canto para tornar-se ela mesma uma soprano. Cosmé McMoon (Simon Helberg), um jovem e ambicioso pianista, é contratado para acompanhá-la nas aulas e é aí que o show de horrores começa. Dá um grito aí. É, você mesmo, leitor: grita aí, de qualquer jeito que você conseguir. Gritou? Pronto, você produziu um som mais agradável aos ouvidos do que as tentativas de Florence de cantar. Sério, ela é MUITO ruim. Enquanto todo mundo (marido, professor de canto, empregada) opta por ignorar os ruídos demoníacos produzidos pela personagem, encorajando-a com elogios mentirosos, o pianista Cosmé funciona como um termômetro do espectador. O cara simplesmente não consegue acreditar no que está ouvindo (vocês também não acreditarão) e usa todas as forças para não gargalhar na frente de todos (eu, em casa, não consegui me conter).

florence-foster-jenkins-cena-5Florence segue com a personagem registrando suas “músicas” em vinil e, por fim, apresentando-se no auge da trama no Carnegie Hall para uma plateia selvagem. No geral, o filme, que tem quase 2 horas, faz a gente rir bastante (continuo achando monstruosa a capacidade da Meryl Streep de transitar entre gêneros), mas não pude deixar de pensar em algumas questões mais espinhosas que o roteiro coloca. Peguemos, por exemplo, o personagem Bayfield, marido de Florence. A primeira vista, ele parece um gigolô: casou-se com uma mulher mais velha por interesse e faz tudo o que ela quer para não perder a mamata. Pra piorar a situação, Bayfield tem uma amante, que ele visita quase todos os dias após colocar Florence para dormir. A nossa tendência natural é odiar o personagem, mas aí a gente vai vendo que, apesar dos pesares, ele dedica-se à Florence mais do que qualquer outra pessoa, fazendo de tudo para protegê-la das críticas e da ridicularização. Bayfield apoia tudo que a esposa deseja fazer, e esta devoção revela-se maior do que qualquer interesse financeiro (como pode ser visto na cena do bar, onde ele briga com alguns soldados que estavam rindo da voz de Florence). Vendo este tipo de relação, que prova-se bem sucedida e vantajosa para ambos, a gente fica menos inclinado a rotular a vida alheia.

florence-foster-jenkins-cena-3Por mais difícil que seja ouvir Florence cantando, algo que ela diz em determinado momento me fez pensar. “Eles podem até dizer que eu não sabia cantar, mas eles não podem dizer que eu não cantei”. De fato, pode-se criticar o egoísmo e o uso do dinheiro para comprar uma plateia e um espaço de apresentação que outros artistas só alcançaram com muito talento e trabalho duro, mas a coragem de Florence para driblar a falta de talento e viver o seu sonho não deixa de ser inspiradora.

Florence concorre a 4 Globos de Ouro (Melhor Filme, Atriz, Ator e Ator Coadjuvante) e, apesar de ser bastante leve e acessível, é uma boa oportunidade para quebrar alguns paradigmas sobre relacionamentos. Sim, só sobre relacionamentos, porque nem a simpatia e nem a força de vontade da protagonista foram suficiente para conter meus risos na última cena. Eu rolei no sofá de tanto rir. Literalmente.

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Uma resposta »

  1. Eu fiquei revoltada com a falta de auto critica da Florence mas no fundo ela deu um tapa na cara de todo mundo que desiste dos sonhos por não se achar abilitado á realizá-los .

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