Kubo e as Cordas Mágicas (2016)

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kubo-e-as-cordas-magicasDepois de um ano letivo de muito trabalho e aprendizado, finalmente estou de férias do meu cargo de professor de História na rede estadual. Sei que a saudade da sala de aula não tardará (como minha sogra diz bem, ensinar é uma ‘cachaça’ viciante rs), mas por ora sinto-me feliz por poder descansar a cabeça e o corpo fazendo outras coisas que gosto, como assistir filmes e escrever.

Para comemorar o início dessa pausa, abri uma cerveja escura e escolhi esse Kubo e as Cordas Mágicas para ver, concorrente ao Globo de Ouro de Melhor Animação que prometia uma sessão leve e descompromissada, exatamente o tipo de material que eu precisava para me afastar da correria que foram os 200 dias letivos de 2016. De fato, encontrei um filme bastante dinâmico e divertido, propriedades quase indissociáveis das animações, mas também encontrei uma história tocante sobre a beleza da essência falha da condição humana, tema que não é lá muito leve mas que é sempre bom apreciar para continuarmos mantendo nossos pés no chão.

Num mar bravio castigado por uma tempestade incessante, uma mulher (voz da Charlize Theron) luta em um barco para sobreviver. Num movimento que faria o próprio Moisés morrer de inveja, ela escapa de uma onda gigantesca abrindo-a ao meio com o poder de um instrumento musical mágico, mas logo em seguida a embarcação é engolida pelas águas.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-3Antes de ver o filme, eu havia checado as informações sobre ele e sabia que tratava-se de uma produção da Laika Entertainment, mesma companhia responsável pelos góticos Coraline, ParaNorman e Os Boxtrolls, ou seja, certamente haveria uma ou duas bizarrices na trama, mas nem de longe eu imaginei que o pau da barraca seria chutado logo de cara. Tão logo cai na água, a mulher é arrastada até o fundo do oceano e POW! bate com o rosto em uma pedra, perdendo o olho esmagado em meio a uma bolha de sangue. Na sequência, levada pelas ondas até a praia, a personagem abre um pacote que ela trazia preso nas costas e POW! lá está um BEBÊ CAOLHO chorando.

Se você, pai matador de bichos-papões, decidir retirar seu filho da sala após esse início violento, saiba que tu perderá uma boa oportunidade de colocar seu pimpolho em contato com uma história que mostra a importância dos laços familiares e de aceitarmos as pessoas tal qual elas são. O bebê caolho cresce e torna-se Kubo (voz do Art Parkinson), um rapazinho que divide o tempo entre cuidar da mãe atônita e contar uma história com origamis mágicos num vilarejo próximo para ganhar alguns trocados. Hanzo (voz do Matthew McConaughey), o pai que Kubo não conheceu, é o personagem principal dessas histórias, um herói lendário que desafiou o Rei Lua (voz do Ralph Fiennes) em uma batalha épica.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-2O conflito começa quando Kubo, desejoso de conhecer mais detalhes sobre o pai, decide tentar conversar com o espírito do mesmo usando uma lamparina mágica (notaram que tudo é mágico nesse filme? rs). Para tanto, ele precisa desobedecer uma ordem direta de sua mãe, que proibiu-o de ficar fora de casa durante a noite. Merda feita, o menino passa então a ser perseguido pelo Rei Lua e suas filhas (voz da Rooney Mara), e a única forma de ele vencê-los é reunir as três peças (espada, peitoral e capacete) de uma armadura MÁGICA, tarefa na qual ele será auxiliado por uma macaca mal humorada e por um samurai besouro.

Confuso? Só quando transformado em texto. Kubo e as Cordas Mágicas é bem tranquilo de ser assistido e, mesmo com todas as suas bizarrices e particularidades (onde mais tu encontrará um protagonista caolho que manipula origamis com um banjo mágico?), ele é alicerçado na clássica narrativa do herói, com Kubo partindo em sua jornada para conseguir a armadura e os poderes necessários para vencer o Rei Lua; as aventuras que ele vive no processo e, por fim, o retorno para casa no qual ele encontra seu grande inimigo. A trama até contem uma reviravolta no final, na qual a identidade de alguns personagens é revelada (acredite, vocês sacarão essa ‘revelação’ logo de cara), mas no geral o que vê-se aqui é um filme de ação e aventura padrão com um visual soberbo.

kubo-e-as-cordas-magicas-cenaO que torna Kubo bastante legal (talvez não para vencer as produções da Disney –Moana e Zootopia– no Globo de Ouro, mas ainda assim legal) são os detalhes, como o tom de terror/gótico imprimido pelo diretor Travis Knight em várias cenas (todas as aparições das filhas do Rei da Lua, bem como o combate deste último com Kubo, são assustadoras), os personagens esquisitões (a caveira gigante com espadas cravadas na cabeça entraria facilmente em qualquer versão do game Castlevania) e, como já dito, a história familiar bonitinha que corre paralelo à aventura principal. É realmente tocante ver o quanto aquele menino caolho deseja reunir sua família e os esforços que ele faz para tanto. Kubo ainda celebra as diferenças com um discurso poderoso no final sobre tolerância e amor (nossa beleza está nas nossas imperfeições e memórias), momento onde a emoção aflora em uma cena lindíssima repleta de MAGIA (não podia faltar) e belas lamparinas (lembrei de uma cena semelhante dessa animação aqui). Fechando o pacote, uma versão bonitinha da clássica While My Guitar Gently Weeps dos Beatles cantada pela Regina Spektor e um vídeo mostrando o trabalho espetacular dos artistas para criar a técnica stop motion. Kubo é esquisito, assustador e divertido. Mostre ele para seus filhos! Feliz Natal!

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