Sully: O Herói do Rio Hudson (2016)

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sully-o-heroi-do-rio-hudsonNo dia 28 de novembro de 2016, eu acordei as 05:25 para ir trabalhar e, como de costume, entrei no site da Globo para “ver se algum famoso morreu”. Na verdade, eu acesso o portal para me inteirar das notícias do dia, mas falar que checo diariamente se alguém bateu as botas é algo bem divertido (ainda que fúnebre) de se contar em uma mesa de bar. Naquele dia, porém, não houve nada de divertido no que li. Para falar a verdade, me senti bastante babaca por todas as vezes que contei aquela “piada”. Acontece que, conforme a notícia principal do site anunciava, o Avro RJ85 da Lamia, prefixo CP2933, havia caído durante a madrugada em solo colombiano. A bordo, além da tripulação e de membros da imprensa, estava a comissão técnica e os jogadores da Chapecoense, que viajavam para jogar a final da Copa Sul-Americana de futebol. Até aquele momento, ainda não haviam informações conclusivas sobre o acidente, mas mais tarde o mundo inteiro chorou diante da confirmação da tragédia: das 77 pessoas que embarcaram, apenas 6 sobreviveram à queda.

Foi difícil trabalhar aquele dia. Desde 2013 eu realizo controle de tráfego aéreo na Torre de Controle (e não de Comando, como a Globo sempre erra) de Uberlândia-MG. Além disso, gosto bastante de futebol (sou doente pelo Corinthians) e, no dia anterior, eu havia almoçado assistindo os lances da classificação heróica da Chape contra o San Lorenzo. O senso de responsabilidade falou mais alto e eu fiz minha parte para que todos os aviões que pousaram e decolaram do aeroporto naquela manhã recebessem a devida atenção e segurança, mas por dentro eu estava destruído. Quando o turno acabou, fui pra casa e desabei.

Sully, filme do diretor Clint Eastwood sobre o pouso forçado de um Airbus 320 no Rio Hudson em 2009, deveria ter estreado no Brasil na mesma semana da queda do avião da Lamia, mas a distribuidora (acertadamente) resolveu mudar a data devido a comoção em torno do acidente. Como se sabe, o episódio americano teve um final feliz (todos os 155 passageiros e tripulantes sobreviveram), mas seria no mínimo inadequado colocar um filme sobre desastre aéreo na programação enquanto o país inteiro chorava as vítimas de uma tragédia semelhante. Registro aqui os meus sinceros parabéns ao responsável por essa decisão, que privilegiou o respeito aos sentimentos alheios em detrimento do lucro.

sully-o-heroi-do-rio-hudson-cenaNo mundo do tráfego aéreo, é comum fazermos uma analogia entre os acidentes aeronáuticos com a queda de dominós. Sabe quando enfileiramos várias peças de dominó e, no final, derrubamos tudo com um simples peteleco no da ponta? Um derruba o outro, que derruba o outro até que todos caem. Todas as peças tem importância para o processo, mas a remoção de uma delas poderia evitar a queda de todas as outras. A investigação do acidente da Lamia ainda está em curso, mas fatos como a falta de combustível, o recebimento de um plano de voo incorreto, a ausência de uma parada no trajeto e o fato do piloto não ter declarado emergência da forma correta (com o termo MAYDAY) parecem ter contribuído significativamente para o ocorrido. Se qualquer uma dessas “peças” fossem removidas da equação, é bem provável que o pior poderia ter sido evitado. No caso mostrado em Sully, o elemento sacado foi a inexperiência, visto que comandante Chesley ‘Sully’ Sullenberger (Tom Hanks) valeu-se do aprendizado conquistado em 29 anos de carreira para decidir em segundos que, melhor do que tentar retornar para o aeroporto após sofrer um birdstrike (colisão com pássaro) na decolagem, ele deveria tentar um pouso de emergência no Rio Hudson.

sully-o-heroi-do-rio-hudson-cena-3Sully, auxiliado por Jeff Skiles (Aaron Eckhart), seu copiloto, tomou a decisão certa, visto que ele estava a baixa altitude e sem a potência dos dois motores, que foram avariados na colisão com um bando de gansos-do-canadá. Num primeiro momento, a imprensa e a população exaltaram a ação heroica do comandante, mas logo em seguida a investigação conduzida pela NTSB (National Transportation Safety Board, o equivalente americano ao nacional CENIPA, Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) colocou em dúvida a decisão tomada por Sully, alegando que ele, ao contrário do que parecera inicialmente, tinha sim condições de retornar com segurança para o aeroporto, salvando tanto os passageiros quanto a aeronave. Neste filme, além de prestar uma homenagem ao piloto, Clint Eastwood posiciona-se contra a impessoalidade da lei, cuja aplicação fria e cega, muitas vezes, destoa do calor humano indissociável de nossas ações.

Em um espaço de tempo relativamente curto (1h35min), o diretor reconstitui o pouso forçado no Hudson, suas consequências psicológicas para os envolvidos e a investigação conduzida pela NTSB, que culmina no julgamento de Sully e Skiles no final do filme. Sinceramente, achei os efeitos especiais bastante ruins (o avião parece um brinquedo), mas a força da trama não está na “ação” proveniente do voo malogrado, mas sim na argumentação de Sully contra seus detratores. Para provar seu ponto, Eastwood não deixa de ser maniqueísta, dando à NTSB o papel declarado de vilão da história (quando, na verdade, eles estão apenas cumprindo seu papel, que é investigar), mas nem por isso deixa de ser prazeroso ver o poder da experiência humana triunfar sobre a burocracia dos manuais e simuladores.

sully-o-heroi-do-rio-hudson-cena-4Quando escrevi sobre o A Chegada, estranhei o fato de Sully: O Herói do Rio Hudson ter sido ignorado pelo Globo de Ouro. Agora eu entendo o porquê: tal qual o último trabalho do Eastwood (Sniper Americano), este filme é redondinho, mas ele simplifica questões complexas em nome da fluidez da narrativa e, assim, torna-se mais um produto voltado para o entretenimento fácil do que uma produção problematizadora da realidade do tipo que as premiações costumam consagrar. Todo caso, gostei bastante do filme e, pessoalmente, me sinto inspirado pelo profissionalismo do comandante Chesley Sullenberger para continuar melhorando no desempenho da minha função como controlador de voo, de modo que, caso necessário, eu também possa retirar o dominó da equação.

Força, Chape!

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