Sing Street (2016)

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sing-streetUma das diferenças mais interessantes do Globo de Ouro em relação ao Oscar é a existência da categoria “Melhor Filme – Comédia/Musical”. A divisão confere personalidade para a premiação e até dá para entender que filmes leves e menos pretensiosos concorram separadamente daquelas produções mais sérias e politicamente engajadas, mas ao mesmo tempo não deixar de ser estranho que a qualidade de um longa seja julgada por gênero, como se um drama, por exemplo, fosse necessariamente “superior” a uma comédia. Outro ponto questionável dessa divisão é o critério utilizado para determinar em qual categoria os filmes concorrerão. Em 2015, o Birdman, que é um drama, concorreu como “Comédia/Musical”, mesma coisa que aconteceu na última edição com o Joy e o A Grande Aposta. Mais do que simples erros, essas trocas de categorias são frequentemente atribuídas à politicagem que envolve as premiações, com alguns filmes “trocando” de gênero para terem mais chances de vencerem.

Levando isso em consideração e analisando o histórico das edições do Globo de Ouro que acompanhei, não consigo levar a sério a categoria Melhor Filme – Comédia/Musical. Fora o aspecto político, sempre há um ou dois candidatos que estão bem abaixo dos outros em termos de qualidade e que, posteriormente, são ignorados pelo Oscar. Foi assim em 2015 com o Pride (Orgulho e Esperança) e o Um Santo Vizinho, já este ano os esquecidos foram o A Espiã que Sabia de Menos e o Descompensada, produções que eu nem me dei ao trabalho de ver. Eu não tenho a menor dúvida de que este Sing Street, concorrente a Melhor Comédia/Musical, seguirá o mesmo caminho do “esquecimento”, mas decidi assisti-lo tanto porque os outros indicados ainda não estão disponíveis quanto porque a sinopse é uma das coisas mais maluquetes que li nos últimos tempos. Observem só.

sing-street-cena-3É 1985 na Irlanda e uma crise econômica obrigou os pais de Conor (Ferdia Walsh-Peelo) a tirá-lo de um colégio particular e colocá-lo na rede pública. Enquanto lida com as costumeiras dificuldades de um novato (valentões e diretor autoritário), o personagem conhece e apaixona-se por Raphina (Lucy Boynton), uma garota descolada e independente. Para impressioná-la, ele monta uma banda de rock.

É isso aí mesmo. Como está bem resumido ali no pôster, “Garoto conhece garota, a garota não fica impressionada, o garoto monta uma banda”. É simples, funcional e gostoso de assistir, daqueles filmes que ficariam muitíssimo bem na grade de programas como Sessão da Tarde, mas não é uma produção para concorrer a Melhor Filme do ano. Todo caso, chega de questionar os critérios do Globo de Ouro: deixem-me contar pra vocês porque Sing Street (ainda sem título nacional) merece uma chance.

sing-street-cena-2Quem gosta e conhece um pouco da história do rock sabe que a década de 80 foi no mínimo especial para o estilo. O visual glam, a bateria eletrônica e os teclados onipresentes marcaram os principais grupos e hits do período, e esse filme capta com perfeição a essência dessa época ao mesmo tempo mágica e trash. A trilha sonora está repleta de clássicos de bandas como Motorhead , Genesis e Duran Duran, e tanto o visual quanto o estilo do som da banda de Conor (a Sing Street, daí o nome do filme) remetem diretamente ao que estava sendo produzido na época. As cenas que homenageiam o David Bowie e o A-ha devem agradar geral.

John Carney, o diretor e roteirista de Sing Street, também foi feliz em escolher o videoclipe como elemento importante de sua narrativa. A década de 80 produziu uma porção de pérolas audiovisuais (esse é DE LONGE o meu favorito) e, ciente disso, o diretor faz com que os personagens passem a maior parte do filme gravando clipes para as músicas dançantes da banda. É impossível não rir: Raphina, a musa de Conor, aparece em TODOS os clipes enquanto os garotos, vestidos com roupas engraçadíssimas, fingem que tocam seus instrumentos e fazem caras e bocas.

singstreetimage3-1024x576Sing Street concentra praticamente todas suas forças na parte musical (as músicas da banda são muito boas, do tipo de que dá vontade de ouvir em casa) e nas citações à outras obras (há um baile com referências ao De Volta Para o Futuro e ao Juventude Transviada). Como dito, isso torna o filme simpático e fácil de ser assistido, mas há pouco para ser absorvido além da diversão pura e simples. Atores veteranos como Aidan Gillen (do Game of Thrones) e Maria Doyle Kennedy até tentam dar alguma profundidade ao roteiro com uma trama sobre traição e divórcio e Brendan (Jack Reynor), irmão de Conor, tem uma ótima cena de desabafo, porém não há desenvolvimento dos outros membros da banda e conflitos sociais (preconceito, bullying, abuso de autoridade) são apenas sugeridos, de modo que fica patente que a mecânica aqui é realmente a do videoclipe: som, imagem e uma história de amor, rápido e direto ao ponto. É um ótimo filme para tu assistir depois de um dia exaustivo de trabalho, mas não é o tipo de produção que mereça ser consagrada em uma premiação.

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