A Chegada (2016)

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a-chegadaSaiu a lista oficial dos indicados ao Globo de Ouro de 2017. Novamente, a maioria das apostas do Indiewire confirmaram-se e filmes como Manchester À Beira-Mar, Moonlight e La La Land despontaram como favoritos, recebendo indicações nas principais categorias. Estou bastante empolgado para procurar, ver e resenhar os concorrentes e, por ora, faço os seguintes comentários sobre a lista:

  • Fiquei bastante surpreso com a indicação do Deadpool à Melhor Filme – Musical ou Comédia. A produção da Fox quebrou vários recordes de bilheteria e tornou-se uma das sensações do ano, mas há uma conhecida implicância da crítica especializada de Hollywood com os filmes de super herói. Não deve ganhar (é provável que o La La Land leve), mas trata-se de um passo importante no reconhecimento de um gênero que, fora o apelo popular, está numa crescente de qualidade e criatividade.
  • Estranhei a ausência do Sully, versão do veterano Clint Eastwood para o incidente do Rio Hudson. Acredito, porém, que o filme terá mais sorte no Oscar, tal qual aconteceu em 2015 com o Whiplash.
  • Julieta, filme que estava cotado para Melhor Filme Estrangeiro, acabou ficando de fora. Outro que também não chegou lá foi o brasileiro Pequeno Segredo, que não deve ter melhor desempenho no Oscar.

a-chegada-cena-2A Chegada, filme do canadense Denis Villeneuve, chegou a ser cotado pelo Indiewire como provável indicado à Melhor Filme, mas acabou sendo lembrado apenas para Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz (Amy Adams). Assisti-o semana passada (a resenha está atrasada devido à correria de final de ano no meu trabalho) e tenho plena convicção de que, não fosse a resistência dos críticos com a ficção científica, ele poderia destacar-se mais no Globo de Ouro. Sabe quando saímos da sala de cinema com a certeza de que o filme valeu cada centavo pago para vê-lo? A Chegada é assim, um clássico instantâneo de seu gênero que vale-se de uma alegoria envolvendo alienígenas para nos fazer pensar sobre um problema bastante atual da humanidade: a comunicação.

Num dia qualquer, 12 espaçonaves de origem desconhecida adentram nossa atmosfera e posicionam-se em diferentes locais do planeta. Como elas adotam uma atitude pacífica, os governantes entendem que os alienígenas desejam fazer contato e montam equipes para iniciar uma aproximação. Encarregado de conduzir a operação nos Estados Unidos, o Coronel Weber (Forest Whitaker) escolhe Louise Banks (Amy Adams) e Ian Donnely (Jeremy Renner), dois dos melhores especialistas em línguas e cálculo do país, para tentar decodificar a linguagem dos visitantes.

a-chegada-cena-3Antes de ser convocada, porém, Louise nos é apresentada pelo diretor na abertura do filme como uma mulher solitária que perdeu uma filha para uma doença rara. Melancólica, ela teoriza sobre a relatividade do tempo enquanto flashbacks de sua curta experiência como mãe são exibidos. Dentre as muitas coisas que ela fala, algo que revelaria-se de grande importância para o roteiro me chamou a atenção. Balbuciando, Louise diz não ter mais certeza quando tudo aquilo começou. Num monólogo que relativiza o tempo, não dá para deixar uma informação dessas passar despercebida.

Sobre a invasão, Villeneuve oferece um feijão com arroz bem feito. A histeria coletiva inicial é seguida pela corrida em massa do povão até os supermercados para estocar alimentos. Na TV, notícias sobre seitas religiosas com interpretações bizarras sobre o acontecimento são transmitidas e, como não poderia deixar de ser, milhares de vídeos amadores mostrando as espaçonaves são postados nas redes sociais. Preparado o terreno, o diretor nos coloca em contato com os alienígenas, e quando eu digo “nos coloca”, eu realmente estou querendo dizer que ele põe a gente pra dentro do filme.

a-chegada-cena-4A espaçonave visitada pelos personagens é uma estrutura gigantesca de formato oval que permanece suspensa alguns metros sobre o solo. Elevados por uma máquina, Louise, Ian e Weber entram na mesma numa cena absurdamente claustrofóbica a agoniante. Esqueçam qualquer tipo de maravilhamento infantil diante do desconhecido. Dentro de um macacão, Louise está ofegante, suando e com medo, muito medo. Eu achei esta cena absolutamente sensacional. É lógico que os personagens, pessoas ligadas à ciência e ao mundo acadêmico, estão curiosos para conhecerem os alienígenas, mas o que transborda nessa cena é o cagaço de alguém que está desafiando as leis da gravidade dentro de um trambolho de outro mundo. Pessoalmente, eu consegui sentir cada uma das sensações de medo e ansiedade demonstradas pela Amy Adams e é exatamente esse tipo de experiência que eu quero viver quando assisto um filme. Achei do caralho mesmo.

a-chegada-cena-5A técnica do Villeneuve para criar suspense e apreensão faz sentir-se em outros momentos da trama, como na correria que marca as cenas finais, mas A Chegada também destaca-se por sua parte mais fria e cerebral, que envolve a discussão referente à linguagem e comunicação proposta pelo roteiro. O que os alienígenas vieram fazer aqui? Tão logo Louise e Ian acostumam-se com a ideia de estarem frente a frente com seres de outro planeta, eles precisam decifrar a língua extremamente complexa de seus interlocutores, que comunicam-se usando símbolos que meio que são pintados no ar com uma fumaça que sai da mão deles. O trabalho árduo e metódico da dupla revela uma mensagem envolvendo uma arma, o que levanta uma série de questões (eles querem uma arma ou estão oferecendo uma?) e estimula outros países a optarem por uma postura agressiva contra os visitantes.

Baseado no conto The Story of your Life do escritor Ted Chiang, A Chegada é um filme pacifista que associa os conflitos humanos, sejam eles militares ou não, a nossa dificuldade de nos fazermos entender e de ouvirmos uns aos outros. A conclusão, que está diretamente ligada ao monólogo do início, é surpreendente (daquelas que a gente diz AH, ENTENDI!) e os muitos detalhes do roteiro, como os apelidos dados por Ian aos alienígenas (Abbott e Costello, referência a dupla de comediantes cuja principal piada era justamente sobre um mal entendido), tornam a sessão prazerosa para quem gosta de pensar um pouquinho sobre o que está vendo. Depois de realizar um filme deveras verborrágico, o diretor Denis Villeneuve volta a produzir uma narrativa atraente com um visual poderoso e será bastante justo caso ele consiga arrematar algum prêmio por com esta pepita.

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