Julieta (2016)

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julietaOs indicados ao Globo de Ouro serão anunciados daqui há uma semana, no dia 12/12, e o concorrente oficial da Espanha para a categoria Melhor Filme Estrangeiro é este Julieta, produção do badalado diretor Pedro Almodóvar. Mesmo sem valer-se de temas polêmicos e provocativos (como o fez o Elle, um de seus possíveis concorrentes), Julieta demonstra força na técnica apurada do Almodóvar e na infinidade de “se’s” que o roteiro nos induz a avaliar após a sessão, que é deveras melancólica.

Julieta (Emma Suàrez) está prestes a mudar-se para Portugal com o namorado, Lorenzo (Darío Grandinetti). Na cena que abre o filme, a personagem pode ser vista no quarto de um luxuoso apartamento em Madrid empacotando livros e uma curiosa estátua, que ela observa com visível saudosismo. É justamente o apego ao passado, aliás, que fará com que Julieta desista da mudança e permaneça na Espanha. Num passeio matinal antes da viagem, ela encontra uma velha conhecida que, entre outras coisas, diz ter tido contato recente com Antía (Blanca Parés), sua filha. Esta notícia tem um efeito devastador na personagem: passaram-se mais de 12 anos desde que Julieta viu a filha pela última vez.

Após este encontro inesperado, Julieta dispensa Lorenzo, desiste da viagem e muda-se para um velho apartamento na esperança de que sua filha faça contato. Isolada, ela começa a escrever uma espécie de carta/desabafo contando como sua relação com Antía azedou. A partir daí, inicia-se um longo flashback onde um passado cheio de mágoas e tragédias é resgatado de dentro do coração de uma mulher marcada pela vida.

julieta-cena-4Julieta é, portanto, estruturado ao redor do mistério que envolve o rompimento da protagonista com sua filha. Ver esta questão ser respondida já é bastante satisfatório, visto que o Almodóvar sabe ir entregando as informações aos poucos antes de nos surpreender com o desfecho (impossível não lembrar aqui do final do A Pele que Habito), mas há mais para ser visto e apreciado no longa, principalmente na parte visual.

Não é preciso conhecimento técnico de cinema para notar a beleza da fotografia e da edição de Julieta. Eu sei que muita gente não dá bola para esse tipo de coisa, mas acho meio improvável que alguém passe pelo filme sem maravilhar-se com as belas imagens de paisagens espanholas que são cuidadosamente inseridas entre uma cena e outra e, principalmente, com a paleta de cores fortes que o diretor escolheu para mostrar personagens e cenários. Notem, por exemplo, o uso recorrente do vermelho vivo, que está presente no vestido da Julieta naquela cena memorável que abre o filme e numa infinidade de detalhes espalhados pelos cenários. É bonito mesmo, de falar UAU e tudo mais.

julieta-cena-2A história, que como já foi dito é contada em flashback, me lembrou bastante dos filmes do Hitchcock. Fora o fato da protagonista ser uma bela loira (na juventude, Julieta é interpretada pela estonteante Adriana Ugarte), a morte é um elemento importante dentro do drama/suspense contado por Almodóvar. O diretor não faz uso de conteúdo gráfico, mas em 2 oportunidades a vida de Julieta é transformada pelo fim violento de homens que ela conheceu, primeiro em uma viagem de trem e depois numa terrível tempestade no mar. É sobre o relacionamento dela com estes homens, em tempo, que incidem os tais “se’s” que citei no início do texto.

julieta-cenaApós o término da sessão, fiquei me perguntando o quão diferente (e mais leve e feliz) poderia ter sido a vida de Julieta caso ela tivesse topado conversar com aquele senhor durante a viagem no trem. Não que ela tenha tomado a decisão errada (na boa que o cara tinha todo o jeito de ser meio tarado), mas o simples fato da personagem negar companhia para um velho carente (e optado por conversar com um homem casado) acabou desencadeando uma série de eventos negativos na vida dela e das pessoas com as quais ela conviveu nos próximos anos. Não que o filme sentencie que as desilusões amorosas e familiares de Julieta são punições por atos pregressos, mas não dá para deixar de enxergar uma certa relação de causa e consequência na trama. Essa espécie de moralismo, aliás, é outro traço bastante comum que Julieta divide com os trabalhos hitchcockianos.

Julieta é um filme muitíssimo bem dirigido e tranquilo de assistir. Com apenas 1h40min e com a constante mudança no elenco, que é renovado a medida que os anos vão passando dentro das memórias da protagonista (a ‘transformação’ da Adriana Ugarte na Emma Suárez foi uma sacada de mestre), a história, ainda que triste e calcada em diálogos, torna-se dinâmica e de fácil acesso. Apesar de ser um produto bem acabado, porém, não acredito que Julieta tenha força para levar alguma premiação: o nome do Almodóvar sem dúvidas é forte, mas o roteiro do filme não contempla os tradicionais temas politicamente engajados que costumeiramente são consagrados pela crítica hollywoodiana.

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