A Qualquer Custo (2016)

Padrão

a-qualquer-custoA Qualquer Custo, produção do diretor David Mackenzie cotada para figurar entre os concorrentes ao Globo de Ouro/Oscar de 2017, retrata sentimentos e problemas contemporâneos dos norte americanos que nós, brasileiros, não deveremos ter muitas dificuldades para identificar e estabelecer paralelos com nossa própria realidade.

Vive-se no país um período de desilusão política provocado por denúncias diárias de corrupção. Tanto os partidos de esquerda quanto os de direita tiveram alguns de seus principais líderes presos e/ou denunciados em esquemas de recebimento de propina e de desvio de verba, de modo que a desconfiança da população nas instituições públicas está cada vez maior. Nesse cenário de apatia onde reina a sensação de que “todos políticos são iguais (ladõres)”, a tendência é que líderes com discursos extremos e nacionalistas despontem como opção à democracia fragilizada. Salvas as devidas proporções, foi isso que aconteceu na Itália e na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e é isso que tanto explica o resultado da última eleição presidencial dos Estados Unidos quanto desenha um futuro sombrio para o Brasil em 2018.

No caso específico dos EUA, o desencantamento político ainda vem acompanhado pela crise do liberalismo enquanto sistema econômico. Entre outras coisas, Donald Trump ganhou porque conseguiu falar direto no coração daqueles americanos que, desde 2008, amargam a recessão econômica provocada pelas especulações no mercado imobiliário (tema que é trabalhado neste filme aqui). Trump propôs medidas protecionistas e nacionalistas (rever acordos internacionais, taxar importações, expulsar imigrantes ilegais do país) e mostrou-se disposto a enfrentar o poderio de Wall Street para proteger os trabalhadores. Trump falou o que os americanos desiludidos com o governo democrata queriam ouvir, e nisso o fato de ele ser um bilionário xenófobo, misógino e homofóbico acabou não importando muito. Para salvarem seus próprios pescoços, os eleitores mostraram-se dispostos a pagar qualquer preço, e é sobre esse tipo de guinada radical que A Qualquer Custo trata.

a-qualquer-custo-cena-4Os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) estão assaltando bancos em cidadezinhas do interior do estado do Texas. O esquema é simples: eles entram nas agências armados e usando capuzes, anunciam o assalto, rendem os funcionários, limpam os caixas e os cofres e depois fogem em um carro levando o dinheiro. Para prendê-los, a polícia designa os oficiais Marcus (Jeff Bridges) e Alberto (Gil Birmingham). Marcus está prestes a aposentar-se e quer levar os assaltantes à justiça para coroar sua longa carreira, mas de alguma forma ele não consegue deixar de ficar intrigado pelo padrão dos crimes que está investigando: além das ações de Toby e Tanner restringem-se a apenas uma rede bancária, eles não saem das agências levando quantias significativas de dinheiro. Por que alguém arriscaria a ser preso por tão pouco?

Essencialmente, o filme do diretor David Mackenzie fala de um cidadão que decidiu chutar o pau da barraca e usar o sistema contra o próprio sistema para resolver os problemas provocados pela crise econômica. Toby está na merda. Sem estudo e profissão, ele separou-se da mulher e perdeu a mãe, da qual ele herdou apenas um rancho no meio do nada. O terreno pode até ser explorado (há jazidas de petróleo no subsolo), mas o banco ameaça tomá-lo caso o pagamento de uma hipoteca não seja executado. Sem muito o que fazer, Toby convence seu irmão a ajudá-lo em alguns assaltos para levantar o dinheiro necessário para quitar a dívida. Tanner, que acabou de sair da prisão e não demonstra nenhum receio em voltar para lá, topa a ideia na hora.

a-qualquer-custo-cenaEscrevi ali no último parágrafo que Toby “não tinha muito o que fazer”, mas é claro que ele poderia utilizar outros meios que não fossem o do crime para resolver seus problemas. A grande questão de A Qualquer Custo é que Toby, conscientemente, não quer trilhar o caminho mais longo e difícil. Quando olha ao redor, o personagem só vê pobreza e morte (a edição mostra muitos locais sucateados e cidades desertas, dando um ar desesperador para as terras áridas do Texas), e ele não quer que seus filhos amarguem o mesmo tipo de vida miserável que ele levou. Toby não quer um emprego em uma lanchonete (como uma funcionária lhe sugere) e não quer fazer um empréstimo (como as várias placas na estrada oferecem): ele quer uma solução imediata e eficaz, e se isso significa ir contra a lei, então que assim seja. Toby votaria em Trump sem pestanejar.

A Qualquer Custo trata das consequências diretas da falta de credibilidade do governo para resolver os problemas dos cidadãos, mas não vi uma tentativa deliberada de legitimar atos extremos e/ou criminosos. O discurso de Toby sobre acabar definitivamente com a pobreza impregnada em sua família é tocante e convincente, mas ele não vê-se como um herói e o filme não tenta mostrá-lo como tal. A decisão do personagem de reivindicar seu “espaço vital”, aliás, tem consequências diretas e negativas na vida de muitas pessoas. A lei, que não por acaso é personificada em um Jeff Bridges velho e cansado, pode até estar enfraquecida e desacreditada em um cenário onde as instituições defendidas por ela não passam confiança, mas ainda assim é a ordem que prevalece no final.

a-qualquer-custo-cena-2Além de tratar de temas atuais, A Qualquer Custo é relevante por trazer mais de um ponto de vista sobre o papel do cidadão comum nos tempos de crise, apontando o caráter pernicioso das instituições financeiras e políticas mas também condenando os rampantes de violência individual, e funciona como uma atualização do gênero western, visto que os assaltos a banco e o confronto entre bandidos e mocinhos são os elementos ao redor dos quais a trama é construída. Gostei bastante da condução do Mackenzie, que valoriza os pequenos momentos (é muito bacana ver o Jeff Bridges bater o chapéu naquela luminária do motel) sem abrir mão da dramaticidade e da emoção das grandes sequências de ação (como o inevitável acerto de contras entre os irmãos Howard e a polícia), e da atuação tresloucada do Ben Foster, que ficou legalzão atirando na galera enquanto reivindica para si o título de “Senhor das Planícies”. De fato, este filme tem tudo para ser indicado e destacar-se na próxima temporada de premiações.

a-qualquer-custo-cena-3

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s