Elle (2016)

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elleHá 8 longas na lista do Indiewire de possíveis indicados ao Globo de Ouro/Oscar de 2017 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Dentre eles, escolhi o francês Elle para assistir primeiro tanto por acreditar que ele tem chances reais de figurar entre os cinco títulos que serão selecionados para as premiações (ele concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes) quanto porque o filme foi dirigido pelo Paul Verhoeven, um sujeito que fez deste mundo um lugar melhor quando colocou a Sharon Stone para cruzar as pernas naquela cena icônica do Instinto Selvagem.

O diretor holandês é um desses caras de quem tu pode esperar sempre algo desconcertante relacionado a temas polêmicos como violência e sexualidade. Pessoalmente, nunca esqueci os banhos de sangue que ele promoveu em longas distópicos de ficção científica como Tropas Estelares e o primeiro RoboCop e sempre fui perturbado pela atração quase doentia que emanava da perigosíssima Catherine Tramell e seu picador de gelo no Instinto Selvagem, filme que transformou muita criança em adolescente na década de 90.

Mesmo sabendo onde estava pisando, devo dizer que fiquei bastante chocado com o que vi em Elle. A história que o Verhoeven conta aqui, adaptação de um romance do escritor Philippe Dijan, ofende o espectador o tempo todo pela forma banal com que atos de violência são praticados e absorvidos pelos personagens e também pela ausência quase total de amor nas muitas cenas de sexo do filme.

elle-cena-3Logo de cara, a personagem principal, Michèle (Isabelle Huppert), é estuprada em casa por um homem mascarado. A cena, como não poderia deixar de ser, é revoltante e cruel: Michèle luta e grita, mas o esforço dela, que já é uma mulher velha, não é páreo para a brutalidade do estuprador, que além de tudo espanca-a com violentos socos e tapas no rosto. Depois de uma cena dessas, o “normal” seria que, na sequência, o filme trabalhasse o dia a dia de uma mulher traumatizada pelo ocorrido, certo?

No primeiro dos muitos reveses de Michèle em Elle, a personagem toma um banho, compra um spray de pimenta, manda trocar as fechaduras das portas de sua casa, realiza um teste de DST e pronto, segue a vida. Num primeiro momento, até pensei que o fato de ela não desmoronar psicologicamente devia-se há um estado de choque ou algo do tipo, mas a explicação para o pragmatismo da personagem frente à situação revela-se um pouco mais sombria. Quando era criança, Michèle viu o pai, um católico convicto, assassinar um bocado de gente na rua em que eles moravam. Ele foi preso e os anos passaram, mas este evento parece ter contribuído significativamente para transformá-la em uma adulta amoral e apática.

elle-cena-4Na sequência, Verhoeven nos apresenta cada uma das pessoas que compõe a bizarra rede de relações da personagem. Há a mãe (Judith Magre, uma senhora que pretende casar-se com um garoto de programa), o filho (Jonas Bloque, um adolescente bobão, ex-usuário de drogas, que envolveu-se com uma trambiqueira), o ex-marido (Charles Berling, um intelectual vaidoso), um casal de amigos (Anne Consigny e Chistian Berkel, sendo ela a melhor amiga e ele o amante) e um vizinho (Laurent Lafitte, um homem misterioso e charmoso). O cenário onde esta estranha história desenrola-se conta ainda com a equipe de funcionários de Michèle, que é dona de uma empresa que produz jogos de videogame.

A aparente indiferença de Michèle para com o estupro, diagnóstico que parece ganhar força após uma cena na qual ela revela o ocorrido para os amigos com a mesma tranquilidade de alguém que relata um passeio no parque, parece diminuir quando ela começa a receber mensagens provocativas e obscenas no celular. Inicia-se então uma espécie de jogo de gato e rato entre a personagem e o estuprador, com ela tentando descobrir a identidade de seu algoz ao mesmo tempo em que fantasia com a situação. O toque bizarro do Verhoeven dá-se quando, a medida que o filme passa, a gente vai ficando cada vez mais convencido de que Michèle não será a vítima da história.

elle-cenaO diretor não relativiza o ato do estupro. Isso seria absurdo. Michèle foi abusada e, mesmo que a reação dela seja branda, trata-se de um ato monstruoso. O ponto polêmico da história é que vemos que a personagem consegue ser tão ou mais malévola do que o homem que violentou-a na abertura do filme. Em Elle, Michèle pode ser vista fazendo coisas horríveis como torturar psicologicamente a mãe e o próprio filho, transar com o marido de sua melhor amiga, humilhar um de seus funcionários, pedindo que ele mostre-lhe o pênis caso não queira ser demitido, e seduzir o vizinho na frente de sua esposa durante um jantar. Seja por traumas do passado, seja pelo abuso sofrido no presente, Michèle tornou-se uma sociopata e é impressionante a virada de jogo que ela promove nas cenas finais pra cima do estuprador. Também é perturbador, visto que a gente fica com aquela sensação incômoda de que a vida é bem mais desgraçada do que gostaríamos de acreditar.

Além de possuir uma história bastante original, que ignora qualquer noção de moralidade e de politicamente correto para explorar aspectos de nossa personalidade que muitas vezes preferimos ignorar (é difícil, por exemplo, admitir fetiches que envolvem violência), Elle conta ainda com a atuação estupenda da atriz francesa Isabelle Huppert (eu não estranharia se ela recebesse uma indicação individual pelo papel) e com a condução precisa e corajosa do Verhoeven, que consegue deixar a gente tenso durante 2 horas antes de nos entregar um final que dificilmente vemos nas produções de Hollywood. De fato, mesmo sem conhecer os outros concorrentes, não é difícil perceber o porque do Indiewire dizer que o Elle tem tudo para consagrar-se em 2017 como Melhor Filme Estrangeiro.

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