Um Homem Entre Gigantes (2015)

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um-homem-entre-gigantesEm tempos onde as últimas decisões políticas do país tem apontado para a valorização e manutenção do status quo, é sempre bom e inspirador ver histórias de pessoas que ousaram enfrentar o sistema, as grandes corporações e a opinião pública para defenderem seus ideais.

Um Homem Entre Gigantes, filme do diretor Peter Landesman que rendeu uma indicação ao Globo de Ouro para o Will Smith, é baseado na história real do Dr. Bennet Omalu, um patologista da cidade de Pittsburgh que ficou conhecido por diagnosticar ex-jogadores de NFL (a Liga Nacional de Futebol dos EUA) com uma doença chamada ETC (Encefalopatia Traumática Crônica). Responsável pela autópsia de Mike Webster (David Morse), jogador que outrora fora um astro do time da cidade, o Pittsburgh Steelers, Dr. Bennet identifica uma série de lesões no cérebro do atleta que ele atribui à violência da prática do futebol americano. Após publicar sua tese sobre o assunto, Dr. Bennet é vítima de uma campanha de desmoralização pública, visto que a NFL teme que os resultados da pesquisa possam lhes trazer problemas judiciais e financeiros.

Façamos um exercício de empatia. Imagine-se na pele de um cidadão negro e estrangeiro (Omalu é nigeriano) residindo nos EUA. Agora pense que você descobriu algo que pode colocar em risco a existência do esporte mais popular daquele país. Você iria em frente e revelaria sua descoberta, mesmo sabendo que isso poderia colocar em risco sua família e sua carreira, ou você simplesmente deixaria pra lá? Difícil né? É fácil confeccionar um cartaz e ir pra rua num domingo protestar contra alguma injustiça quando a mídia e a polícia estão do seu lado. O risco é praticamente zero (no máximo, tu verá alguém na internet lhe comparando com um salgado). Dar a cara a tapa (literalmente, em alguns casos) e resistir a provocações e ao poder do governo, por outro lado, é para poucos, e é por isso que Um Homem Entre Gigantes emociona e nos faz pensar sobre nosso posicionamento frente as questões que estão colocadas atualmente.

um-homem-entre-gigantes-cena-2Dr. Bennet Omalu é um herói de armadura montado num cavalo branco lutando contra a malvadona NFL? Não mesmo. O filme começa, aliás, com uma cena que é toda dedicada a nos apresentar uma característica bastante peculiar da personalidade dele: a vaidade. Convocado para depor num julgamento de assassinato, Dr. Bennet abre sua fala listando uma infinidade de cursos e especializações que ele fez. Ainda que esta atitude vise garantir autoridade sobre o que será falado, não dá para desconsiderar o exibicionismo do personagem (ele cita até um mestrado em Teoria da Música, algo completamente irrelevante para o caso). Este lado pouco atrativo de Omalu, que é desenvolvido ao longo da trama através de outros elementos (ele faz questão de ser chamado de Doutor e não gosta quando sua pesquisa precisa ser apresentada por outra pessoa), é fundamental para que vejamos que grandes atos podem ser realizados por pessoas comuns, que possuem defeitos e qualidades, tal qual eu e você. O que inspira na história de Omalu não é necessariamente sua retidão moral, mas a competência e a coragem que ele demonstra para nadar contra a correnteza.

um-homem-entre-gigantes-cena-3Tão logo identifica a doença que levou o pobre Mike Webster à loucura antes de uma morte trágica, Dr. Bennet começa a enfrentar uma série de dificuldades para apresentar sua tese sobre o assunto. É bem verdade que seu superior, o Dr. Cyril Wetcht (Albert Brooks), ajuda-o e encoraja-o durante o processo, mas nem seus colegas de trabalho, nem os cidadãos de Pittsburgh e nem os representantes da NFL aprovam o que ele está fazendo. Omalu ouve mais de uma vez sobre o impacto desastroso que sua pesquisa sobre o ETC poderia ter para o esporte e para a economia americana. Ele é acusado de charlatanismo e ameaçado de morte. Se persiste, é porque sua convicção de que a causa é justa (convicção esta que é reforçada pela morte de outros jogadores em situações semelhantes a de Webster) é maior do que o medo de enfrentar a fúria da sociedade.

1286100 - ConcussionEventualmente, Omalu fraqueja e questiona a si mesmo sobre a validade de todos os sacrifícios que ele precisa fazer para provar sua teoria. Ele, que é humano, curva-se diante dos mecanismos de coerção da parceria público/privada, que são utilizados para perseguirem sua mulher (Gugu Mbatha-Raw), ameaçarem seu chefe com uma infinidade de processos e tirarem-lhe o emprego. A força da verdade contida em seus estudos, porém, não tarda a aparecer para redimir a trajetória do personagem, dando-lhe o devido reconhecimento no cenário médico americano e mostrando o quão tênue é o limite entre os heróis e vilões criados pela mídia.

Um Homem Entre Gigantes é uma celebração do poder da resiliência. Dr. Bennet Omalu não é um mártir, mas sim um cidadão comum que, desejoso ser a melhor versão de si mesmo, firmou o pé e enfrentou a tempestade enquanto conseguiu. Eis algo que, diante de algum problema, todos podem fazer sem precisar carregar o mundo nas costas: não trata-se de sacrifícios físicos e/ou materiais, mas de persistir naquilo que se acredita (Omalu não nega sua pesquisa para evitar um processo) sem prejudicar outrem (Omalu nega-se a depor contra seu chefe). No filme, senti falta de mais discursos inflamados, como aquele que o Will Smith faz durante um jantar com o personagem do Alec Baldwin, mas no geral a produção é bem boa e equilibra satisfatoriamente o drama com o discurso científico inerente a medicina (a explicação do pica-pau é de uma praticidade absurda para entender a tal ETC). Isto posto, devo dizer que compartilho da indiferença do Dr. Bennet para com o futebol americano: fora os shows do intervalo, que são espetaculares, nunca tive curiosidade de assistir.

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