O Grande Motim (1935)

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o-grande-motimPor definição, um motim é uma “insurreição, organizada ou não, contra qualquer autoridade civil ou militar instituída, caracterizada por atos explícitos de desobediência, de não cumprimento de deveres, de desordem, acompanhada de levante de armas e de grande tumulto”. Em muitos casos, o rompimento do pacto social e o desrespeito à hierarquia dá-se quando os governantes e/ou comandantes deixam de defender e representar os direitos de seus subordinados, de modo que o enfrentamento deixa de ser um simples ato de rebeldia para tornar-se uma luta legítima por justiça. O Grande Motim, produção vencedora do Oscar de Melhor Filme de 1936, adaptou para o cinema os eventos de um dos maiores motins de que se tem registro na história, a tomada do HMS Bounty da Marinha Real Britânica.

Em 1787, o Bounty, embarcação comandada pelo capitão William Bligh (Charles Laughton) partiu do porto britânico rumo ao Taiti com a missão de adquirir e transportar mudas de fruta-pão para as colônias da coroa inglesa. Homem frio e severo, Bligh conduz o Bounty com mão de ferro, determinando pesados castigos físicos para todo e qualquer deslize da tripulação. Esse autoritarismo do capitão é motivo de discussões constantes entre ele e seu primeiro oficial, Fletcher Christian (Clark Gable), um sujeito que não vê lá muito problema nos homens divertirem-se e pisarem na bola de vez em quando. Os diferentes métodos de trabalho dos personagens dividem a tripulação e um motim estoura à bordo do Bounty em alto-mar.

Todo mundo tem uma história para contar sobre um chefe ruim. Eu mesmo já tive meus problemas com um sujeito que, diante dos constantes atrasos de salário da empresa, tolhia nossas críticas à situação com ameaças veladas de demissão. Não é a toa que, vira e mexe, vejo um texto sobre o assunto ser compartilhado no Facebook. Acho que é por isso que a trama de O Grande Motim inspira tamanha empatia: quando Fletcher dá um basto na vilania de capitão, é como se todos nós estivéssemos mostrando o dedo do meio para algum carrasco que já nos atormentou em algum ponto de nossa vida profissional.

o-grande-motim-cenaInicialmente, até tentei entender Bligh fora do antagonismo clássico em que o roteiro comandado pelo diretor Frank Lloyd lhe encaixa. É preciso reconhecer a necessidade de pulso firme para conduzir um barco em uma viagem de 2 anos no mar em que grande parte da tripulação é composta por ex-delinquentes e homens inexperientes. Vista desta forma, a rigidez do capitão passa a ser um “mal necessário”, o “meio que justifica o fim” que é concluir a difícil missão que lhe foi dada, certo? Depois de um tempo, porém, fica difícil manter esta complacência para com as atitudes do personagem.

É compreensível que Bligh queira manter o moral da tripulação alto, mas os recursos que ele utiliza para isso são completamente inaceitáveis. Não contente em mandar açoitar os seus ao menor sinal de desobediência, Bligh recorre a atos de pura barbárie pelo menos 2 vezes para incitar o medo nas pessoas. Num primeiro momento ele ordena que um homem, mesmo depois de morto, seja chicoteado na frente de todos. Em seguida, ele faz com que o aspirante Byam (Franchot Tone) escale e permaneça sentado no mastro mais alto do navio durante uma tempestade. A figura quase corcunda e de feições monstruosas do Charles Laughton, ator que eu conheci no ótimo Testemunha de Acusação, complementam o aspecto detestável do personagem e contribuem para que a gente torça por sua desgraça no final.

o-grande-motim-cena-4Responsável por fazer Bligh encontrar o que merece, o galanteador Clark Gable raspou seu famoso bigode para dar vida ao homem que inicia o motim a bordo do Bounty. Fletcher é o segundo em comando, mas ele demonstra compreender mais sobre liderança do que seu superior quando participa de brincadeiras com a tripulação e acalenta o coração dos homens com palavras de estímulo. Quando a atitude tosca de Bligh mostra-se irreversível, ele não hesita em deixar a ponderação de lado e usurpar o comando da embarcação mesmo consciente de que isso o tornará um criminoso aos olhos da coroa inglesa. A consciência de estar defendendo uma causa justa: eis tudo que Fletcher precisou para romper com a hierarquia e levantar-se contra a tirania de seu comandante.

o-grande-motim-cena-2Encarregado de conduzir o longa mais caro realizado pela MGM até então (cerca de 2 milhões de dólares), o diretor Frank Lloyd valeu-se de uma estrutura grandiosa para criar as cenas de O Grande Motim. O Bounty é incrível e realista e as locações utilizadas para rodar as sequências no Taiti, repletas de figurantes e paisagens paradisíacas, são nada menos do que fantásticas. É nesse paraíso, aliás, que o filme dá uma pausa em seus dilemas morais para atender a demanda de romance bastante característica das produções da época: Fletcher e Byam encontram no calor dos braços das nativas todo o amor e compreensão que Bligh lhes negou 😀 Também chama atenção o humor que o diretor consegue introduzir entre uma e outra cena dramática, como quando um personagem conta repetidamente como ele perdeu uma das pernas e, vez após vez, a história vai ficando mais e mais absurda.

O Grande Motim é um desses longas redondinhos que a gente associa imediatamente ao padrão valorizado pelo Oscar. Vi um bom roteiro baseado em fatos reais, atuações memoráveis (detalhe engraçado: no início do filme, tive a impressão de que todos os atores, principalmente o Laughton, estavam segurando para não rir) e uma produção épica que contem cenas bastante variadas como a emocionante sobrevivência no bote e a sequência de tribunal que fecha a trama.

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