Inferno (2016)

Padrão

infernoSempre quando penso em filmes que me dão vontade de estudar e aprender mais, lembro do ótimo O Homem da Terra e das adaptações cinematográficas do diretor Ron Howard para a obra do Dan Brown, O Código Da Vinci e Anjos e Demônios.

O primeiro, uma produção obscura que pouquíssima gente viu, tem um roteiro malucão no qual um professor de História declara ser Jesus Cristo. Rola uma série de debates entre o personagem e seus amigos, todos doutores em diferentes áreas do conhecimento, que utilizam os mais variados argumentos para provar que ele está mentindo. Acho inspirador ver o domínio que eles tem do conteúdo e o quanto a disciplina de História, não raramente maçante devido a nossa distância temporal dos fatos e de seus viés excessivamente teórico, pode ser transmitida de forma chamativa e empolgante.

Os blockbusters do Ron Howard estrelados pelo Tom Hanks, por sua vez, misturam o conhecimento factual com teorias da conspiração e uma boa pitada de ação. Saber decifrar símbolos antigos, conhecer nomes de igrejas e santos, dominar os textos do Galileu e a obra do Da Vinci: eis tudo o que o professor Robert Langdon (Hanks) precisa para salvar o mundo das perigosas seitas religiosas que tentam domina-lo! É legal ver um intelectual que usa um relógio do Mickey como herói, mas o que inspira mesmo é acompanhar o raciocínio rápido do professor e pensar que as únicas coisas que nos separam daquele tipo de “poder” são a dedicação e o estudo.

Foi assim, querendo aprender/rever uma ou outra coisa sobre história e sobre como torna-la mais interessante para os alunos (ministro aulas da disciplina para 6 turmas do colegial) que entrei na sala de cinema para assistir Inferno. Saí de lá bastante entediado e decepcionado. Explico-lhes o porque depois da sinopse.

inferno-cena-4Inferno começa no melhor estilo “OQ TA CONTESENO”. Langdon está ferido em um hospital. Antes que tenhamos tempo de formularmos perguntas básicas (‘Quem o feriu?’, ‘Como ele foi parar naquele local?’), uma mulher entra no quarto atirando e Langdon, completamente atordoado e apresentando perda de memória, só consegue escapar vivo graças a ajuda de Sienna Brooks (Felicity Jones), a doutora que estava cuidando dele. Após a correria, o professor descobre no bolso de seu casaco um dispositivo que contém uma pista para um plano de extermínio global. Enquanto tentam decifrar a tal pista, que é baseada na pintura O Inferno de Dante, de Botticelli, Langdon e a doutora ainda precisam fugir de agentes da Organização Mundial de Saúde e de uma assassina que foi contratada especificamente para eliminar o professor.

No início, como eu não li o livro e não sabia como a história terminaria, pensei que esse seria um daqueles filmes em que o protagonista tem que se virar sem seus poderes/habilidades, mais ou menos a mesma coisa que acontece com o Bond no Operação Skyfall e com o Tony Stark no Homem de Ferro 3. Esse tipo de abordagem, que parece querer aproximar o público da figura do herói argumentando que ações grandiosas dependem mais de força de vontade do que de talento, não é lá uma das minhas favoritas. Robert Langdon sem memória e com dificuldades para lembrar-se de nomes e datas? Melhor não. Felizmente esse artifício do roteiro não dura muito e logo o personagem volta ao normal e começa a disparar sua metralhadora de referências, mas nem por isso o filme consegue engrenar após esse começo capenga.

inferno-cenaA história de Inferno é baseada na ideia de que o crescimento exponencial da população mundial provocará a ruína da espécie humana em aproximadamente 100 anos. Para resolver esse problema, o bilionário Bertrand Zobrist (Ben Foster) quer espalhar um vírus que dizimará metade da população do planeta. Até mesmo pelo caráter punitivo dessa medida drástica, Zorbrist “esconde” a localização de seu vírus na tela de Botticelli que retrata a visão de Dante do inferno mostrada no A Divina Comédia. A obra do poeta florentino é, de longe, um dos livros mais difíceis que eu já li. Além da linguagem ser bastante complicada, o texto é repleto de referências à personalidades e eventos da época de seu lançamento (século XIV) que são praticamente impossíveis de serem absorvidas pelo leitor sem um desgastante trabalho de pesquisa. A descrição dos círculos do inferno e dos sofrimentos que podem serem encontrados em cada um deles, no entanto, é bastante visual e fácil de ser assimilado.

inferno-cena-3Um dos grandes problemas de Inferno é que, ao contrário do que fez com a Opus Dei no O Código Da Vinci e com os Illuminati no Anjos e Demônios, o diretor Ron Howard não conseguiu transformar a obra do Dante em algo divertido e interessante para o público. A bela pintura do Botticelli, os trechos da Divina Comédia e até mesmo uma máscara do poeta que aparece em um segundo momento ocupam pouquíssimo espaço no roteiro e não vem acompanhadas daquelas explicações divertidas e elucidativas vistas nos longas anteriores. É o que eu mais gostava na franquia 😦

Talvez para tentar inovar o formato, talvez apenas seguindo o que o Dan Brown escreveu (repetindo: não li o livro), desta vez o Ron Howard apostou mais na ação e numa trama repleta de reviravoltas para entreter o público. Os ótimos Omar Sy e Irrfan Khan interpretam homens misteriosos que vão revelando suas intenções aos poucos, Langdon reencontra um amor do passado (Sidse Babett Knudsen), viaja pra lá e pra cá e acaba tendo sua confiança traída novamente por uma pessoa próxima. É tudo muito bem executado (a música continua ótima, as visões infernais do professor são bacanas) e o filme tem lá seus bons momentos (o final, que eu li por aqui que ficou diferente do livro, é bastante tenso), mas no geral Inferno decepciona por afastar-se da fórmula mais “cerebral” que colocou a franquia no mapa em nome de um ritmo mais próximo (e genérico) dos milhares de filmes de suspense esquecíveis que estreiam todos os anos. Desta vez, não saí do cinema com vontade de ler mais sobre o que vi/ouvi, só quis ir embora pra casa dormir mesmo.

inferno-cena-2

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s