Aquarius (2016)

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aquariusAquarius virou manchete em alguns portais de internet e foi bastante comentado nas redes sociais neste ano devido ao contexto político no qual ele foi concebido e lançado. No meio do processo de impeachment da hoje ex-presidente Dilma Rousseff, o diretor Kleber Mendonça Filho e seu elenco foram até o tradicional Festival de Cannes não só para apresentar um filme que traz uma metáfora para o atualíssimo debate nacional entre esquerda e direita (posicionando-se claramente à favor de uma vertente) quanto aproveitaram a oportunidade para denunciar o suposto “golpe de estado” em curso no nosso Congresso. Li muitos comentários sobre o protesto político do diretor e de sua equipe, alguns criticando, outros apoiando, mas li pouquíssimo sobre o filme em si. Salvo engano, apenas uma pessoa da minha timeline afirmou ter assistido Aquarius.

E porque o público não viu o filme? Podemos citar aqui o posicionamento ideológico (não vou financiar esses esquerdopatas, como li por aí), a falta de interesse (seja pelo cinema nacional, seja de conhecer o ‘filme do momento’) a falta de oportunidade (na minha cidade, Uberlândia-MG, o título não entrou na grade de programação) ou até mesmo o boicote. O artigo 55 da Medida Provisória nº 2228-1/2001 determina a obrigatoriedade da exibição de produções nacionais pelas redes de cinema e fixa porcentagens de títulos e quantidade de dias que os mesmos devem permanecer em cartaz, mas deixa nas mãos dos proprietários das salas a seleção dos filmes que serão ofertados ao público. Assim sendo, é difícil imaginar um empresário “de direita” exibindo em sua rede um longa “de esquerda”. Outro ponto que podemos relacionar a questão do boicote é a classificação indicativa dada à produção pelo Ministério da Justiça. Inicialmente, devido a presença de cenas de “nudez agravadas por composição de cena”, os técnicos da Secretaria Nacional de Justiça proibiram o filme para menores de 18 anos. Tal classificação, que diminui consideravelmente o público que o filme poderia obter, foi criticada pelo diretor e pela atriz Sonia Braga, que consideraram a censura como uma represália por seus posicionamentos políticos em Cannes. No fim, Aquarius saiu com censura 16 anos.

aquarius-cenaColocado os fatos que cercaram o polêmico lançamento de Aquarius (eu não poderia escrever esta resenha sem mencioná-los), vamos agora ao filme. Como dito anteriormente, eu ainda não havia assistido-o porque, com ou sem boicote, ele não foi lançado por aqui. Como também não obtive sucesso na minha busca online, amaldiçoei-me por morar em um local com tão poucas salas de cinema e segui a vida. Esta semana, porém, consegui tirar uns dias de férias e fui passear em Porto Alegre-RS, cidade que exala cultura a cada esquina e cuja ótima Cinemateca Paulo Amorim estava exibindo o filme. Comprei meu ingresso com alguma dificuldade (num dia a sessão estava lotada, no outro a funcionária não quis aceitar minha carteirinha de estudante por ela ser de outro estado :S ) e, finalmente, consegui assistir Aquarius numa sessão em que uma mulher tossiu até quase colocar os pulmões para fora. Ninguém disse que seria fácil, certo? 😀

aquarius-cena-2Divido em 3 capítulos, o filme conta a história de Clara (Sonia Braga), uma crítica musical que venceu um câncer na juventude e que atualmente, já na terceira idade, viúva e aposentada, mora com a empregada no Aquarius, um prédio na zona litorânea de Recife-PE. Eis o que vemos em cada um dos capítulos:

  • O cabelo de Clara: Na década de 80, Clara era um espírito livre fã da batida mágica do Queen que divertia-se com os amigos dando cavalo de pau em um carro na praia. O sorriso enorme e fácil que ela levava no rosto, no entanto, escondia o sofrimento de quem lutava para vencer o câncer. Com o cabelo curto devido ao tratamento da doença, Clara recepciona os parentes em sua casa para comemorar o aniversário de uma tia e, entre um discurso e outro, ganha uma tocante e apaixonada declaração de amor de seu marido. O tempo passa e a personagem, já velha e sem seu companheiro, pode ser vista em sua rotina de aposentada. O sorriso e a simpatia permanecem iguais, mas clara precisou retirar uma mama e seu cabelo cresceu.
  • O amor de Clara: Clara é a ultima moradora do Aquarius. Seu marido faleceu, seus filhos cresceram e casaram e seus vizinhos venderam seus apartamentos para uma construtora, a Bonfim, que planeja demolir o prédio para construir um moderno condomínio de luxo no local. Entre uma e outra discussão com os funcionários da empresa, que insistem em perturbá-la para vender a propriedade, Clara sai com as amigas, conhece alguns homens e discute com os filhos, que acham que ela deve mudar-se do Aquarius.
  • O câncer de Clara: Pressionada por Diego (Humberto Carrão), engenheiro da Bonfim, Clara resiste a uma série de provocações para não vender o apartamento. Quando ele deixa claro que está disposto a jogar sujo para concretizar o negócio, ela recorre aos amigos para organizar um contra-ataque.

Aquarius não decepciona se visto assim, como uma trama linear que fala da luta de um cidadão comum contra o poderio econômico de uma grande empresa, mas me parece claro que o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho quis mesmo foi produzir uma metáfora bastante provocativa da história recente do nosso país, opondo na tela os valores morais, sociais e culturais que estão em jogo no momento.

18/08/2016. Credito: Victor Juca/Divulgacao. Filme Aquarius.

A construção da mensagem do filme pode ser percebida já no primeiro capítulo, no qual o crescimento do cabelo da personagem está diretamente ligado ao seu amadurecimento enquanto mulher e cidadã. O passar dos anos fez com que Clara tornasse-se dona de si mesma e, tal qual a tia para a qual ela oferece uma festa, ela demonstra carregar dentro de si todo um mundo e uma história que não podem ser resumidos ou encaixados dentro de discursos de aniversário ou entrevistas de repórteres amadores.

A permanência de Clara no apartamento e o amor que ela sente pelo local, temas que são desenvolvidos principalmente no segundo capítulo, não é algo que seus filhos ou alguém ganancioso como Diego possam compreender. A Bonfim oferece uma quantia exorbitante pelo imóvel e mesmo assim Clara recusa-se a vender o local. Esse desapego dos bens materiais e a consequente valorização de coisas mais abstratas e subjetivas como memórias de família e patrimônio histórico não deixam de ser uma crítica direta a uma sociedade cujos valores são baseados na busca incessante pelo lucro. A língua de Clara, afiadíssima, dispara um ou dois sermões memoráveis contra a padronização dos comportamentos, o desrespeito às diferenças e a noção de que a felicidade está ligado ao dinheiro ou ao romance. “O amor de Clara”, como a gente julga erroneamente em um determinado momento, não é algo que poder ser resumido simploriamente em beijar um homem charmoso de cabelos brancos em uma festinha.

aquarius-cena-3Por fim, há o enfrentamento da última cena, acerto de contas de Clara com a construtora que funciona como um basta tanto da personagem quanto do diretor contra tudo aquilo que os milhares de Diegos representam socialmente. No embate atual entre esquerda e direita, não há dúvidas que Aquarius posiciona-se ao lado da esquerda para denunciar as mazelas provocadas pelos abusos oriundos do capitalismo. Não nego que isto seja feito através da exploração de estereótipos. Diego é homem, empresário, branco, novo, arrogante, machista e preconceituoso enquanto Clara é mulher, crítica de música, morena, velha, calma e mãe de um homossexual. Clara venceu um câncer, perdeu um seio e o marido enquanto Diego é só um playboy que estudou nos EUA e que promove orgias onde pessoas cagam nas escadas (acreditem, isso acontece 😀 ). A intenção do diretor de romantizar um lado e escrachar o outro é evidente, mas dá mesmo para negar que o que é mostrado não representa sim uma parte do embate de classes que vivemos atualmente no país, com pessoas odiando-se e desrespeitando-se mutuamente por fatores como origem social, cor, opção sexual e orientação ideológica?

Concordando ou não com o conteúdo político do filme, é inegável que não dá mais para correr das discussões que Aquarius levanta. Clara diz em um momento chave da trama que ela já venceu um câncer e, por isso, agora ela prefere dar um câncer para os outros. É um grito de resistência que, ao meu ver, sintetiza bastante esse momento de enfrentamento e de tomada de posicionamento que estamos vivendo no país. Ainda que seja possível ignorar ou boicotar o filme, as questões que ele trata são urgentes e indissociáveis do nosso dia a dia. Não dá para escapar. Por isso tudo, Aquarius é sim um filme que todo mundo deveria assistir e é uma pena que, pelas causas políticas que ele abraça, tenham-no preterido na disputa pelo Oscar.

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