O Abraço da Serpente (2015)

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o-abraco-da-serpenteComo já estamos próximos da data em que os indicados ao Globo de Ouro/Oscar de 2017 serão conhecidos e começarão a serem disponibilizados na internet e nas salas de cinema do país (considero que isso acontece no final de outubro/início de novembro), trago agora este texto do longa colombiano O Abraço da Serpente para encerrar de vez minha cobertura da temporada de premiações de 2016 e começar a focar no que está por vir (clicando aqui, vocês verão a lista de apostas do sempre confiável IndieWire).

Indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (perdeu para o burocrático O Filho de Saul), O Abraço da Serpente traz uma história dividida em duas linhas temporais que mostra como dois antropólogos embrenharam-se pela densa floresta amazônica no início do século passado em busca de uma rara planta medicinal. Em ambas jornadas, o índio Karamakate (Nilbio Torres/Antonio Bolivar)  acompanha e guia os exploradores floresta adentro, a qual mostra-se cheia de belezas, mistérios e perigos.

Tentei de todas as formas assistir esse filme antes da cerimônia do Oscar, que ocorreu no final de fevereiro, mas as minhas buscas diárias pelo título foram infrutíferas. O que aconteceu uma semana depois? Sim, isso mesmo , lá estava o bendito pra baixar 😀 Cansado que eu estava do Oscar, deixei ele de lado para priorizar outros filmes que eu já havia separado para assistir, o que foi até bom porque a distância da premiação me permitiu vê-lo como um longa qualquer, o que sempre é mais tranquilo do que analisar um “oscarizável”.

o-abraco-da-serpente-cena-2Deixando então de lado o respeito cerimonioso que muitas vezes é atribuído aos títulos que recebem a atenção da Academia, digo-lhes que o valor documental do trabalho realizado aqui pelo diretor Ciro Guerra é inversamente proporcional a sua capacidade de entretenimento. Isso, é claro, se você também não for um antropólogo, porque não duvido que os olhos deles brilharão com o material.

Tive duas matérias de Antropologia no curso de História e, mesmo que o professor fosse um posso de soberba (falei um pouco sobre isso neste texto), acredito que aprendi o básico sobre o assunto, que é reconhecer, respeitar e valorizar as diferenças entre povos em seus diversos estágios de desenvolvimento cívico, moral, religioso e científico. Não lembro de praticamente nada dos muitos costumes de determinadas tribos que vimos com uma riqueza impressionante de detalhes (coisas como rotatividade de culturas, métodos de plantar mandioca, etc 😀 ), mas aprendi o suficiente sobre o difícil método de pesquisa e catalogação dos antropólogos e vi muito desse conhecimento fielmente reproduzido em O Abraço da Serpente.

o-abraco-da-serpente-cena-4Como dito, o filme conta duas histórias em tempos diferentes que se entrelaçam e completam-se no final. Numa linha, Theo (Jan Bijvoet) está doente e precisa da ajuda de Karamakate para encontrar uma planta milagrosa. Na outra, Evan (Brionne Davis) refaz a trilha descrita por Theo em um livro e, com a ajuda do agora envelhecido Karamakate, realiza sua própria busca pela planta. É sobretudo na história de Theo, ao meu ver, que as dificuldades do difícil trabalho do antropólogo podem ser melhor compreendidas. Como interagir com outros povos sem influenciar o rumo que a vida deles tomará à partir de então? Cabe ao antropólogo repassar seu conhecimento científico e tecnológico para essas pessoas ou isso fará com que eles pulem etapas, criem necessidades que eles não tinham até então e percam seus próprios conhecimentos? Todo esse dilema de intervenção/preservação pode ser sentido na cena da bússola, momento em que Theo percebe que o seu aparelho, que os índios roubaram, pode mudar o sistema de orientação dos nativos, que até então era baseado nos ventos e nas estrelas. Ao ver Theo lamentar o ocorrido, no entanto, Karamakate faz-lhe uma pergunta que fica sem resposta: não estaria o “homem branco” sendo arrogante em sua proposta de querer aprender com os índios mas considerar errado ensinar-lhes?

o-abraco-da-serpente-cena-3A preservação dessas contradições, bem como o respeito e dedicação do Ciro Guerra na condução de seu trabalho, fizeram não só com que o filme fosse indicado ao Oscar como renderam-lhe condecorações de entidades ligadas a proteção e preservação da vida indígena na Colômbia. A qualidade de O Abraço da Serpente é inquestionável e eu consigo vê-lo sendo usado com sucesso dentro de uma sala de aula para falar sobre antropologia, mas ainda assim ele não é o tipo de filme legal para ver após um dia cansativo de serviço.

A fotografia em preto e branco é útil para o tom documental da trama e casa bem com a proposta de contar uma história ocorrida no início do século passado, mas não tenho certeza se gostei de ver toda a riqueza de cores da floresta reduzida àquela dualidade. Composto majoritariamente por diálogos que fazem referência a termos e lugares que nos são estranhos, o longa tem poucas cenas capazes de cativar o espectador que for avesso à abstrações envolvendo metáforas de onças e borboletas. Num de seus momentos mais “diretos”, por assim dizer, O Abraço da Serpente mostra os personagens lidando com as crueldades impostas aos nativos pelas missões catequizadoras em uma cena que mexe de verdade com a gente, mas logo em seguida as divagações voltam a ditar o ritmo da película. Me deu um pouco de sono.

Texto encerrado, começarei agora a procurar pelos potenciais indicados às premiações de 2017 e postarei sobre eles tão logo eles estejam disponíveis na internet ou sejam lançados no cinema.

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