Garota, Interrompida (1999)

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garota-interrompidaExcluindo o post de apresentação que fiz quando comecei o Já viu esse?, este é o texto de número 800 do blog. Não é lá um número muito tradicional para comemorações (tal qual o são o 100, o 500, o 1000, etc), mas faço questão de iniciar esta resenha celebrando a marca pois sei o quão difícil foi chegar até aqui. Pensei em desistir várias vezes. Senti-me cansado, sem criatividade e não raramente perguntei-me o porque de eu continuar investindo em um projeto que não me traz retorno financeiro e que consome boa parte do pouco tempo livre que tenho entre uma e outra jornada de trabalho.

Nesses momentos, sempre pude contar com o apoio da minha esposa, que tem um jeito todo especial de me dizer que “esse blog é a minha cara, a minha forma de me expressar artisticamente” e que eu não devo parar. De fato, o cinema e a escrita tornaram-se parte do que sou ao longo desses últimos anos. Hoje, por exemplo, reli o meu texto do O Pequeno Príncipe e confesso que fiquei emocionado e inspirado com o que escrevi. Caso eu não tivesse feito o registro, boa parte de todo aquele turbilhão de emoções que senti quando vi o filme teria perdido-se em algum canto da minha memória. É desta forma que, atualmente, analiso a crítica cinematográfica: o registro escrito torna momentos mágicos eternamente acessíveis. Não dá para abrir mão de algo assim, que nos define e que nos faz feliz.

Pensei em muitos títulos para resenhar e comemorar o momento. Há vários filmes que amo e que foram importantes para a minha vida de cinéfilo (como as trilogias O Poderoso Chefão, O Senhor dos Anéis e Matrix) e que ainda não apareceram por aqui. Seria muito legal escrever um texto extremamente nostálgico sobre um clássico que contribuiu para a minha formação, mas decidi deixar isso para outro momento. Optei por esse Garota, Interrompida porque tudo que eu havia lido sobre ele até hoje dava a entender que tratava-se de um filme extremamente sensível sobre temas como a vida e a loucura. Escolhi este porque quis compartilhar esse momento tão importante da minha vida contigo, Renata, te mostrar que penso em ti, que sou grato por toda sua ajuda e que me importo com nossas pequenas loucuras diárias 🙂

garota-interrompida-cena-4Garota, Interrompida é a adaptação cinematográfica do diretor James Mangold para o livro autobiográfico da escritora Susanna Kaysen. Na obra, Kaysen relata sua experiência internada em um hospital psiquiátrico durante a década de 60. Vivida no filme pela atriz Winona Ryder, a escritora é diagnosticada com Transtorno de Personalidade Limítrofe (Borderline) e interna-se para tratamento. No hospital, ela conhece um grupo de mulheres bastante heterogêneo, cada uma perdida em sua própria loucura, e passa por um difícil processo de autoconhecimento e recuperação.

Para quem gosta de comparações, Garota, Interrompida me lembrou bastante o Um Estranho no Ninho, longa vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1976 que mostrava o dia a dia ao mesmo tempo cômico e depressivo de um hospício. Aqui a gente também ri e fica triste com a história das internas. Georgina (Clea DuVall) é uma mentirosa compulsiva que vive inventando histórias mirabolantes sobre suas colegas, mas que também parece querer falsear a realidade e sua própria condição para não sair daquele lugar. Polly (Elisabeth Moss) é uma romântica de coração mole que sofre pelo estrago irreversível que uma queimadura fez em seu rosto. Daisy (Brittany Murphy) é uma viciada em laxantes e em frango frito (!!!) que esconde um terrível segredo familiar. Finalmente, há Lisa (Angelina Jolie), uma sociopata que merece um parágrafo só para ela.

garota-interrompida-cena-2Lisa é capaz de ser aquela amiga que todo mundo precisa. Ela enrola as enfermeiras para que suas colegas consigam namorar em paz, ela tem chaves que dão acesso a lugares divertidos do hospital e ela vive elaborando planos para fugir e alcançar a liberdade. Lisa também é capaz de transformar-se em um monstro desprovido de sentimentos que enfia o dedo na ferida das pessoas com frases fulminantes e maldosas que são ditas sem nenhum remorso. A personagem, que é interpretada por uma Angelina Jolie nova, linda e infernal, acaba transformando-se no contraponto perfeito para entendermos a protagonista, visto que Susanna só passa a acreditar em si mesma e a caminhar em direção a recuperação quando vê o quão destrutivo pode ser sufocar sentimentos e emoções e entregar-se inadvertidamente aos vícios, ao vitimismo e a malvadeza (o ataque racista dela contra a enfermeira é o tipo de coisa que acaba com o dia da gente). Na segunda metade da trama, Lisa presencia um ato macabro e não dá a mínima. É exatamente ali, experimentando o exemplo da frieza da amiga, que Susanna encontra forças para mudar.

garota-interrompida-cena-3Garota, Interrompida tem essa parte pesada e séria capaz de nos fazer repensar conceitos como “normalidade” (no meio das mulheres do hospital, Susanna, que no mundo exterior era tida como louca, passa a sentir-se ‘normal’) e é muitíssimo bem contextualizado pelo diretor, que inclui nos cenários objetos (placa do Kennedy), vídeos (Jeannie é um Gênio), áudios (discurso do Luther King e notícia de sua morte) e citações da Guerra do Vietnã e do movimento hippie que remetem diretamente à década de 60. Isso não impede, porém, que o humor brilhe em cenas hilariantes como a visita das internas à sorveteria (pênis de menta! clitóris de menta!) e nas pequenas loucuras de cada uma delas (bingo! bingo! bingo!). Ri bastante vendo o filme, que é um drama, e considero isso positivo: seriedade demais também deixa a gente um pouco louco.

Eu não poderia ter ficado mais satisfeito em escolher Garota, Interrompida para assistir nesse momento tão importante da história do meu blog. Além de ser um desses filmes densos, com bons diálogos e um ótimo time de atores (Jared Leto e Whoopi Goldberg também aparecem), ele é exemplar no sentido de mostrar que a medicina, a família e os amigos são fundamentais para o processo de recuperação psicológico de qualquer um, mas também é taxativo em dizer que é preciso força de vontade e determinação diárias para escapar do inferno. Assumir responsabilidades, não entregar-se à depressão, não render-se a sentimentos negativos, não fraquejar diante do vício, não desistir: eis tudo o que pode ser extraído de Garota, Interrompida, eis tudo que eu estava precisando de ver e compartilhar com os leitores e com quem eu amo nesse momento da minha vida. Obrigado a todos que me ajudaram a chegar até aqui: vida longa ao cinema, ao poder da escrita e dos bons exemplos e ao blog! ♥

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