Os Implacáveis (1972)

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os-implacaveisAcho difícil que o leitor já tenha ouvido falar desse Os Implacáveis. Eu mesmo só tomei conhecimento da existência dele quando, há alguns dias, procurei um filme do Sam Peckinpah para assistir. Fiquei fã do trabalho do diretor depois de ver títulos como Cruz de Ferro e Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia e, aos poucos, estou tentando ver todos os longas da filmografia dele. O fato aqui é que, se fosse lançado hoje, você certamente ouviria algo sobre Os Implacáveis e formaria uma opinião sobre a abordagem polêmica do Peckinpah para temas como relacionamento e violência física e sexual. Explico o porque logo após a sinopse.

Doc McCoy (Steve McQueen) está preso há 4 anos pelos crimes de assalto à mão armada e agressão. Após ter o seu pedido de liberdade condicional negado, ele sente que já passou da hora de deixar o local e pede para que sua namorada, Carol (Ali MacGraw), entre em contato com uma influente figura do crime para tirá-lo de lá. Doc é libertado, mas em troca ele tem que liderar uma equipe de desconhecidos escolhida por seu benfeitor em um arriscado assalto a banco.

Peckinpah sugere algumas coisas quando Carol encontra-se com o figurão do crime para interceder por seu namorado. Vestindo uma blusa que deixa pouco para a imaginação, ela é convidada pelo cara para “beber e ouvir uma música na jukebox”, convite que ela aceita prontamente com um sorriso no rosto. Nesse momento, lembro-me de pensar: estou sendo muito malicioso ou eles transaram? A cena termina abruptamente, sem mostrar o desenrolar do encontro, mas fica a impressão de que Carol precisou pagar um preço alto demais pela liberdade de seu amante.

os-implacaveis-cena-4Doc, que até então não sabia de nada, sai da prisão e começa a preparar-se para o assalto. Os detalhes do passado do personagem não são revelados, mas o respeito com que os bandidos tratam-no e a forma como ele elabora o plano para invadir o banco dão a entender que ele é realmente muito bom naquilo que faz. O crime transcorre dentro do esperado até o momento em que Rudy (Al Lettieri), um dos capangas, revela suas intenções de eliminar seus companheiros e fugir com todo o dinheiro do assalto. Após uma perseguição de carro e uma troca de tiros, Rudy leva a pior e é atingido por Doc, que foge ao lado de Carol.

Esse início de Os Implacáveis lembra muito o clássico Bonnie e Clyde, que na época completava apenas 5 anos de seu lançamento. Temos aqui um casal de jovens bonitos e apaixonados infringindo a lei e fugindo da polícia num rampante de violência e sangue. Peckinpah, no entanto, interpretou essa “fórmula de sucesso” à sua própria maneira, introduzindo na história alguns elementos sexuais que já haviam causado barulho em outro filme seu, o polêmico Sob o Domínio do Medo (que ganhou esse remake aqui). Responde aí, caro leitor: é possível que uma mulher sinta prazer e goste de ser estuprada?

os-implacaveis-cena-2Pergunta complicada, né? Recentemente, uma pesquisa mostrou que 1 em cada 3 brasileiros culpam a mulher em caso de estupro, seja pela roupa que ela estava usando no momento ou por falácias ainda maiores como “comportamento promíscuo”, etc. Essa visão de mundo misógina e mesquinha parece ganhar vida em Os Implacáveis quando Rudy, ferido pelo revolver de Doc, sequestra um casal e obriga a mulher a manter relações sexuais com ele na frente do marido dela. O elemento absurdo da cena é que a tal mulher parece GOSTAR do que acontece. Síndrome de Estocolmo? Fetiche? Libertinagem?

Tal qual havia sugerido no Sob o Domínio do Medo quando mostrou uma personagem que provocava um grupo de homens até o momento em que eles violentavam-na (sendo que ela SORRIA durante a cena), Peckinpah joga esse problemão envolvendo culpa e responsabilidades no colo do espectador e parece perguntar: e aí, o que você pensa dessa merda toda? Agora que já conheço a linha do trabalho dele, acho que a questão aqui é que o diretor, mais do que querer debater, era bem machista mesmo: essa figura da mulher “promíscua” que ele coloca sempre vem acompanhada de um homem meio “banana” que não consegue protegê-la e/ou satisfazê-la sexualmente, ou seja, cá está a velha visão “falocêntrica” do mundo que hoje está no meio de debates envolvendo temas como feminismo e cultura de estupro. É por isso que eu disse que, se fosse lançado hoje, Os Implacáveis não passaria despercebido e fomentaria discussões acaloradas nas redes sociais.

os-implacaveis-cena-3As polêmicas não param por aí. A reação de Doc ao descobrir que Carol transou com outro homem (para ajudá-lo a sair da prisão, é bom lembrar) é horrorosa. Sentindo-se frustrado e traído, o personagem dá um  bofetão na cara da parceira no meio da rua. Doc fica sem resposta quando ela pergunta se ele não faria o mesmo para ajudá-la e parece compreender a complexidade da situação, mas o ressentimento corrói o coração dele até não poder mais. Após passarem por poucas e boas juntos, incluindo serem enterrados vivos no meio do lixo e escaparem de um segundo tiroteio nos corredores de um hotel sujo e velho do México, a cumplicidade do casal parece renascer, mas é difícil acreditar no amor após ver Os Implacáveis rs

Feito com uma técnica afinada, que abusa da câmera lenta para mostrar detalhes de objetos sendo destruídos e pessoas sendo mortas, Os Implacáveis conta ainda com uma boa trilha sonora e com uma história que, seja por suas polêmicas, seja pela habilidade do diretor de conduzir a trama, nos tira da nossa zona de conforto e nos faz querer chegar no final para ver o que acontecerá. É preciso ter estômago para ver os filmes do Peckinpah, mas há muito o que aprender com eles principalmente quando você não concorda e fica ofendido com o que é mostrado.

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Uma resposta »

  1. Gostei do suspense em seu texto, e gostei mais ainda da sua resposta para o mundo machista em que vivemos .
    A expressão “mundo misógina e mesquinha ” reflete bem a cultura do estupro .

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