A Possessão do Mal (2014)

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a-possessao-do-malA morte do ator global Domingos Montagner no último dia 15/09 tocou o coração das pessoas de formas diferentes. Houve quem lamentasse a tragédia, houve quem criticasse a superexposição dada ao assunto pela mídia, houve quem tratasse com ironia e soberba os sentimentos alheios e houve até mesmo a galera da teoria da conspiração dizendo que o ator foi assassinado (!!!) por motivos políticos. No geral, nós (sociedade) somos muito ruins e imaturos para lidar com sentimentos negativos. Todo caso, há sempre aqueles que conseguem ir um pouco além nessa ruindade e realizar comentários que desprezam qualquer noção de bom senso e dignidade. Segue abaixo a transcrição exata (preservei os erros de português) de uma mensagem que li no Facebook:

“A morte do ator Domingos mostra mais uma vez que *com Deus não se Brinca* a globo exibi uma novela espirita que exalta a yeshu, e em toda historia coloca satanas como Deus destorcendo palavras. No caso desse ator, cujo nome era SANTO,em varias cenas eram feitos rituais de magia negra, enclusive ouve um momento na novela em que *ele desapareceu* no rio SAO FANCISCO e foi dado como morto, *exatamente como como aconteceu na vida real* afogado pelo msm rio ,chamado na novela como VELHO CHICO conhecidencia? no mesmo rio que em uma cena ele disse *_no rio eu nasci, no rio eu me criei, e no eu vou morrer!_*.COM DEUS NÃO SE BRINCA, e vc que assiste ta participando dando audiencia a algo que não exalta o Deus que servimos ,e dando brechas para que satanas faça o msm que fez com ator, por isso divulguem esse texto e alerte seu irmão que pode nem saber disso assim como vc não sabia!”

Resumindo, o Domingos faleceu porque “brincou com Deus” ao interpretar um personagem que, segundo o autor da mensagem, enganava a audiência com uma alegoria do diabo. CUIDADO: Você pode ter o mesmo destino do Montagner caso continue vendo a novela e dando brecha para o tinhoso agir na sua vida!

a-possessao-do-mal-cena-3Sinto minhas entranhas contorcerem quando leio este tipo de mensagem. Por trás deste tipo de discurso rasteiro, alarmista e maldoso não existe um coração verdadeiramente interessado em viver segundo os ensinamentos de alguma religião, existe apenas um(a) babaca querendo aproveitar-se de uma tragédia para engrossar o chorume diário das redes sociais. Essa ideia absurda de que deus e o diabo estão travando uma batalha por nossas almas, de modo que cada um encontrará aquilo que procurar, só serve mesmo para inspirar roteiros de filmes de terror ruins para adolescentes, como é o caso desse A Possessão do Mal.

Escrito e dirigido pelo cineasta David Jung, o longa conta a história de Michael King (Shane Johnson), um sujeito que vivia uma vida pacata e feliz ao lado da filha e da esposa, Ellie King (Ella Anderson), até o dia em que um acidente de carro deixa-o viúvo. Desesperado, Michael atribui a culpa da tragédia à uma cartomante que havia convencido Ellie a cancelar uma viagem. Segundo ele, se eles tivessem viajado, o acidente não teria ocorrido e sua mulher ainda estaria viva. Para lidar com sua dor, Michael, que é um homem cético e aparentemente ateu, decide gravar um documentário para provar para o mundo que o misticismo ligado ao trabalho das cartomantes, bem como à rituais de magia negra e similares, não passa de uma grande bobagem.

a-possessao-do-mal-cena-2O título original da produção (A Possessão de Michael King), bem como sua tradução infeliz para o mercado nacional, já entregam que Michael “encontra aquilo que ele estava procurando”, ou seja, ele acaba possuído pelas forças obscuras com as quais ele “brincou”. Imaginem a felicidade do autor da mensagem citada acima caso ele assista esse filme e veja confirmadas na tela todas suas teorias espirituais sobre ação e reação rs O fato, porém, é que os eventos mostrados em A Possessão do Mal são pouco conclusivos e dependem bastante das crenças pessoais do espectador para funcionarem ou não.

Sim, Michael acaba “possuído” e faz todas as coisas que Hollywood nos ensinou que pessoas tocadas pelo Belza fazem, como conversar em linguagens desconhecidas, movimentar-se de forma estranha (spider walk!), usar moletom com capuz e automutilar-se. A questão é que ele só faz isso tudo após ingerir uma droga retirada das vísceras de um sapo. Na primeira parte do filme, TODOS os métodos que o personagem testa para comunicar-se com o além acabam falhando e o tom cômico e irônico dessas cenas não deixam de demonstrar um certo desprezo do diretor por coisas como invocações demoníacas, rituais de exorcismo, etc. Para vocês terem uma ideia, Michael paga para um casal de satanistas para que eles mostrem para ele como a doutrina funciona e tudo que ele consegue é ser abusado por dois velhos tarados.

a-possessao-do-mal-cena-4Num segundo momento, o protagonista procura um necromante e é aí que o festival de horrores começa. Além de consumir a tal droga retirada do sapo, Michael tem uns dentes costurados na sua barriga e participa de um ritual de invocação no meio de um cemitério. A polícia invade o local e acaba com a brincadeira, mas aí Michael começa a pirar. Atormentado por um “barulho dentro de sua cabeça”, o personagem vai definhando psicologicamente até o ponto de atentar contra a vida da própria filha. Cenas fortíssimas como uma agulha sendo enfiada debaixo de uma unha e um pentagrama que é desenhado no peito com um pedaço de vidro quebrado completam o pacote podreira de A Possessão do Mal.

Aqui, o diretor David Jung faz dois movimentos. Primeiro ele sugere que forças espirituais (não necessariamente só as demoníacas) não existem, que é tudo bobagem. Depois ele nos mostra que o preço desse ceticismo absoluto pode ser caro demais, mas em momento algum ele é CONCLUSIVO em afirmar que essas forças existem ou não. TUDO que Michael faz na segunda metade do filme pode ser resultado de uma possessão mas também pode ser consequência direta do uso da droga e do estado emocional deplorável em que ele se encontra. O filme em si não é dos melhores: a câmera em primeira pessoa e o tom documental são interessantes, mas a trasheira demoníaca tende a tornar-se cansativa no final.

Pessoalmente, continuo duvidando da existência de um deus vingativo e de um diabo coletor de almas. A única certeza que tenho após ver A Possessão do Mal é que eu nunca deixarei de pagar o parquímetro (quem viu ou for ver o filme entenderá o motivo) rs

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  1. Ei Lucian, quando tiver tempo da uma conferida em Sala Verde (Green Room) com Patrick Stewart e o Anton Yelchin, vale a pena. Abraço!

  2. Que você tenha inspiração para resenhar milhões de flmes. A autenticidade e a emoção livre de sua ‘escrita’ são unicas.

    Bem, por óbvio, era necessário abordar a morte de um ator global. Confesso, sem qualquer pedantismo, que só soube de sua existência porque ele deixou de existir.

    Deve ser o mal dos que não assistem televisão. A minha, nem antena tem. Nem a de cabo. Que bom!

    Perdi alguma coisa? Duvido!

    Muito sucesso nesta rara e mais do que original empreitada.

    • Obrigado pela gentileza!
      Sobre o Domingos, tô na mesma situação que você, conhecio-o no meio de todo o espetáculo fúnebre abraaonesco da internet rs

      Abraço!

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