Barry Lyndon (1975)

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Barry LyndonVocês conhecem a série The Works? Editada pelo Joel Walden, ela reúne momentos antológicos de filmes de grandes diretores como Stanley Kubrick, Steven Spielberg e Martin Scorsese. Acreditem, vale muito a pena clicar ali e gastar alguns minutos da sua vida com as compilações espetaculares do cara.

Foi através dessa série que eu vi as primeiras imagens desse Barry Lyndon. Lá, no meio de cenas memoráveis do Laranja Mecânica e 2001, estava um sujeito bem vestido caminhando através de cenários bucólicos. Posteriormente, o mesmo personagem aparecia participando de uma batalha campal e trocando sopapos com um soldado. Confesso que, com base nessas cenas, não tive muita vontade de assistir Barry Lyndon: mesmo sendo fã do Kubrick, não consegui me enxergar divertindo com um filme que parecia explorar aspectos do quase sempre enfadonho mundo da aristocracia. Assim sendo, coloquei o longa para rodar mais para explorar a filmografia do diretor do que porque eu estava com vontade de vê-lo. Como quase sempre acontece nessas situações, as expectativas baixas (ou até mesmo negativas) ajudaram-me a apreciar o material, que realmente é ambientado em uma época longínqua da nossa mas que trata de assuntos atuais, trágicos e até mesmo engraçados.

As mais de 3 horas de Barry Lyndon são divididas em duas partes. Na primeira, vemos como o jovem Redmond Barry (Ryan O’Neal) adquiriu o nome que dá título ao filme e depois acompanhamos os infortúnios e desastres que caem sobre o personagem após ele ingressar no mundo da nobreza. É uma história de ascensão e queda contada com uma narração irônica que casa perfeitamente com o tom tragicômico do roteiro.

barry-lyndon-cenaTal qual todo jovem, Redmond Barry quer garantir seu espaço nesse mundão velho sem fronteira. Inexperiente, ele apaixona-se por sua prima, uma mulher fogosa que troca de amantes com a mesma frequência que eu e você trocamos de roupa. Quando a tal prima resolve abandonar Barry para casar-se com um militar velho e rico, o personagem decide que chegou o momento de firmar-se como homem e desafia o sujeito para um duelo. Ao vencedor, o amor da sirigaita, o orgulho e a glória. Ao perdedor, o gosto do chumbo, o sangue e a morte. Barry ganha, mas o crime cometido contra um oficial do exército obriga-o a abandonar o conforto não tão confortável de seu pobre lar e fugir.

A primeira parte de Barry Lyndon pode ser resumida em “como um filho da puta mentiroso e arrogante conseguiu vencer na vida”. Papo muito sério que não dá para sentir empatia pelo personagem. Se já é horroroso ver o cara comportar-se igual uma criança birrenta quando perde um amor que nunca foi dele (Barry joga uma taça de vinho na cara de seu rival no meio de um jantar rs), é pior ainda ver todos os artifícios ardilosos que ele utiliza durante a fuga para driblar a justiça, tornar-se uma pessoa importante e, finalmente, alcançar a glória com um casamento promissor. Todo mundo conhece, seja no trabalho, na escola ou na família, um sujeito mentiroso e puxa saco que não mede esforços para conseguir o que quer. Redmond Barry é assim e é dessa forma que ele encontra seu lugar ao sol.

barry-lyndon-cena-2O conhecido perfeccionismo do Kubrick com elementos como enquadramento e iluminação dão beleza à trajetória desse crápula, que enfrenta uma série de aventuras (assalto na estrada, guerras, deserção do exército e uma tour ao lado de um libertino pelos salões de jogos europeus) antes de conhecer a bela e melancólica Lady Honoria Lyndon (Marisa Berenson), aristocrata rica com a qual ele casa e da qual ele empresta o nome, tornando-se Barry Lyndon e dando início a segunda parte do filme.

Independente de qualquer coisa, é preciso reconhecer que Barry Lyndon é um vencedor. Além de ganhar o duelo no começo do filme e de arrebentar um bufão do exército na pancada em uma luta brutal, Barry, que nasceu pobre e sem pai, consegue utilizar sua lábia e força de vontade para transcender sua condição social em uma sociedade extremamente hierarquizada. Palmas pra ele. O “porém” que faz de Barry Lyndon uma história extremamente irônica é que o personagem vence apenas para transformar-se em tudo aquilo que ele menosprezava, sendo destruído moralmente no processo.

barry-lyndon-cena-3Os benefícios sociais e financeiros que Barry adquire após o casamento fazem ele comportar-se como o próprio capiroto. Além de bater no enteado e trair a esposa abertamente, o personagem consome quase toda a fortuna da família para tentar adquirir um cargo junto à nobreza, o que garantiria-lhe estabilidade até o resta da vida. Como um câncer, Barry destrói tudo e todos ao seu redor para satisfazer suas próprias vontades e, nesse processo, acaba sofrendo uma perda irreparável que torna inúteis todos os seus esforços que ele fizera para alcançar a felicidade. No ápice do filme e de sua decadência, o personagem encara um novo duelo e é aí que a situação inverte-se deliciosamente: Barry, agora um velho defensor do status quo, precisa defender a vida contra um jovem impetuoso que deseja tomar o seu lugar. Parece que o jogo virou, não é mesmo, Barry Lyndon?

Barry Lyndon não é tão chato quanto eu havia pensado, mas é um filme que exige paciência para ser assistido devido à sua duração e também à sua proposta, que é desenvolver um personagem e uma ideia pouco acalentadora (todo o mal que tu fizer retornará para você). Todo caso, é um filme do Kubrick, o que torna-o uma obra cinematográfica obrigatória para os fãs de cinema e que garante beleza visual e poética até mesmo em coisas bizarras como um menino sendo atropelado por um cavalo.

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