Um Dia Perfeito (2015)

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Um Dia PerfeitoEm 2010, quando fui para São Paulo participar do 5° Festival de Cinema Latino-Americano, fiquei hospedado em um hotel próximo da Av. Paulista. Sempre que eu saía do local para ir ao metrô ou para pegar o ônibus, eu passava em frente ao Cine Belas Artes e invejava profundamente os paulistas por terem um lugar tão bacana como aquele disponível na cidade deles. Até onde pude entender naquela ocasião, o Belas Artes exibia apenas filmes fora do circuito comercial. Gosto de blockbusters, mas também gosto dos chamados “filmes alternativos”, produções que raramente entram na grande de programação das redes de cinema tradicionais (como o Cinépolis e o Cinemark) por conta de seus temas ou gêneros de pouco apelo junto ao público ocasional.

Na ocasião, absorvido pela programação do Festival, não consegui converter a minha admiração pelo cinema em tempo para comprar um ingresso e conhecer o local, mas mentalmente prometi pra mim mesmo que um dia eu ainda voltaria lá para viver aquela experiência. Foi com um grande pesar, portanto, que recebi a notícia, em 2011, de que o Belas Artes havia fechado as portas por falta de patrocínio. Além de desenvolver uma atividade que não visa exclusivamente o lucro, o terreno do cinema, que está localizado em uma região nobre de São Paulo (cruzamento da Rua Consolação com a Av. Paulista), era alvo constante de especulação imobiliária e mantê-lo funcionando sem patrocínio tornou-se impraticável.

Gosto de acreditar que, no fim, o bem sempre triunfa (essa mensagem, aliás, é o que dita o ritmo deste divertido Um Dia Perfeito, filme que, prometo, já já eu vou comentar rs), e foi com uma sensação pessoal de vitória que, no último dia 30/07, eu finalmente consegui ver um filme no Belas Artes. Ué, mas ele não foi fechado? Foi sim, mas, graças à mobilização dos fãs, de empresários e do poder público, o local foi reaberto em 2014, desta vez patrocinado pela Caixa Econômica Federal. Foi assim que, ao lado das melhores companhias (minha esposa e o amigo Antônio Carlos, que é formado em cinema e me ensinou muito do que sei sobre o assunto), eu encerrei as minhas férias com chave de ouro realizando um sonho antigo de cinéfilo.

Um Dia Pefeito - Cena 4Não foi fácil escolher algo para ver, mas até essa “dificuldade” foi gostosa. Em cartaz, estavam pelo menos uns 5 filmes dos quais eu não havia ouvido falar absolutamente nada, ou seja, todos eles ofereciam infinitas possibilidades de novas descobertas. Eu estava bastante disposto a assistir um lá que, ao que tudo indicava, falava sobre o relacionamento entre duas jovens, tema importante e atual, mas acabei optando por esse Um Dia Perfeito devido a presença do Tim Robbins no elenco, ator que sempre foi meu “porto seguro”, cinematograficamente falando, desde que vi-o no Um Sonho de Liberdade.

O filme traz um recorte temporal de aproximadamente um dia na vida de um grupo de trabalhadores humanitários numa zona de conflito nos Bálcãs durante da década de 90. Liderados por Mambrú (Benicio Del Toro), os personagens precisam lidar com uma série de problemas cotidianos para garantir a manutenção dos acordos de paz que órgãos internacionais como a ONU estão negociando para a região.

O contexto político e social da guerra é deixado em segundo plano pelo diretor e roteirista espanhol Fernando León de Aranoa, que prefere focar nas relações humanas entre os personagens, explorando seus medos, sonhos, discordâncias e amores numa situação de exceção. Quando o grupo encontra o corpo de um homem morto jogado dentro de um poço, eles precisam agir rapidamente para que o cadáver não contamine a água e prejudique a população do local. O que parecia ser uma operação rotineira, no entanto, acaba tornando-se uma verdadeira epopeia quando a única corda que eles tinham para retirar o corpo arrebenta devido ao peso do morto.

Um Dia Pefeito - CenaMambrú e B (Tim Robbins), veteranos naquele tipo de serviço, sugerem uma solução pragmática para o problema: ir até um mercado próximo, comprar uma corda nova, retornar ao local e retirar o corpo. Fim da história. Acontece, porém, que eles estão subordinados aos militares em exercício na região, e os militares, temendo que a retirada do corpo possa provocar mais conflitos entre a população local, ordenam que eles deixem o poço exatamente como ele estava. Mambrú e B acatam as ordens, mas o mesmo não acontece com Sophie (Mélanie Thierry). Jovem e sonhadora, ela discute com os soldados e convence o restante do grupo a prosseguir com a procura pela corda. Completando o time, há ainda o caladão Damir (Fedja Stukan), um homem que trabalha como tradutor e que prefere não envolver-se mais do que o necessário naquele conflito, e Katya (Olga Kurylenko), ex-namorada de Mambrú que é enviada até o local para determinar a necessidade do grupo continuar trabalhando por lá.

Um Dia Pefeito - Cena 3Aranoa contrapõe o idealismo ao comodismo para nos fazer pensar (eu, que sempre fui partidário de tomar iniciativa o tempo todo, ultimamente tenho percebido que, ás vezes, é bastante válido simplesmente não fazer nada e deixar as coisas seguirem seu curso natural), mas o faz de forma bem leve, tanto que Um Dia Perfeito, apesar de seu tema envolvendo conflitos de guerra, está mais para uma comédia do que para um drama. A tensão entre Mambrú e Katya, bem como a seriedade de Damir, garante umas boas risadas, mas o humor que sobressai é mesmo o do Tim Robbins. Sei que sou suspeito para falar, visto que já declarei abertamente o meu amor pelo trabalho dele, mas o cara está simplesmente sensacional no papel de tiozão porra louca. Robbins, com um sorrisão no rosto, faz coisas insanas como acelerar com o jipe rumo a uma vaca que pode esconder uma mina terrestre e, cena após cena, faz piadas pontuais com todos os personagens, das quais a melhor talvez seja aquela em que ele brinca com o fato de Damir carregar fotos da namorada pelada na carteira.

Um Dia Perfeito, que conta ainda com um trilha sonora cheia de músicas de rock e com uma fotografia acima da média, foi perfeito para coroar o término das minhas férias, para eu conhecer o Belas Artes e também para que eu pudesse repensar uma ou duas coisas sobre responsabilidades e esforços desproporcionais. Regresso agora para a rotina do dia a dia feliz por tudo que vi e vivi nas últimas semanas, ansioso para continuar descobrindo e compartilhando com vocês dicas de filmes como este, que nos tornam pessoas melhores e mais leves.

Parabéns, Cine Belas Artes: que o poder da beleza e do exemplo advindo da arte continue dando-lhe forças para existir e encantar o público!

Um Dia Pefeito - Cena 2

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