O Filho de Saul (2015)

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O Filho de SaulE, finalmente, consegui assistir O Filho de Saul, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016. Para que vocês deem o devido peso nesse “finalmente”, segue uma pequena recapitulação do meu “sofrimento”:

  • Dia 02/02/16, na resenha do O Lobo do Deserto, escrevi: (…) tanto O Abraço da Serpente quanto o Filho de Saul (sendo este último o favorito ao Oscar) continuam indisponíveis. 
  • Dia 25/02/16, na resenha do 45 Anos, escrevi: Mesmo frustrado por não conseguir ver O Filho de Saul, longa favorito à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, considero cumprido o meu objetivo de fazer desse o meu melhor trabalho relacionado à premiação promovida pela Academia.
  • Dia 27/02/16, na resenha do What Happened, Miss Simone?, escrevi: Acabou! Acabou! Acabou! A não ser que O Filho de Saul ou O Abraço da Serpente vazem de hoje para amanhã (e eu duvido muito que isso aconteça) (…)

Todo ano, dentre as produções indicadas ao Oscar, tem um ou dois títulos que não são lançados nos cinemas e nem ficam disponíveis na internet antes da premiação. Em 2015, por exemplo, não consegui ver a animação A Canção do Oceano, já este ano o longa que deu trabalho foi este O Filho de Saul. Do começo de janeiro até o fim de fevereiro, procurei o arquivo todo santo dia nos sites de busca que utilizo. Nada. No fim, fiquei satisfeito com a cobertura que realizei do Oscar, mas também fiquei um pouco frustrado por, dentre os filmes que resenhei, ter faltado justamente o vencedor de uma categoria tão importante quanto a de Melhor Filme Estrangeiro. Ironia do destino, o que aconteceu uma semana depois da premiação? Isso mesmo, O Filho de Saul ficou disponível para download rs

Mas e aí, valeu a pena esperar esse tempo todo para ver o filme? O Filho de Saul é, de fato, merecedor do Oscar que ganhou? Sinceramente? Não e não. Por mais difícil que seja ir contra a opinião especializada da Academia, permitirei-me dizer que não fiquei nenhum pouco empolgado com o que vi: além de ter concorrido com filmes mais interessantes, como o Guerra, o trabalho intimista do diretor László Nemes fala para um público muito restrito e tende a tornar-se cansativo e confuso.

O Filho de Saul - CenaSaul Ausländer (Géza Röhrig) é um sonderkommando. Segundo a explicação que abre o filme, sonderkommando, que é uma expressão alemã, era um termo utilizado nos campos de concentração nazistas para designar prisioneiros com status especial. Eles ficavam separados dos outros prisioneiros e eram mortos após alguns meses de trabalho.

Para estender sua permanência nesse mundo, portanto, Saul precisa trabalhar para os nazistas dentro dos campos de concentração. E não trata-se de um serviço qualquer: Saul e os outros sonderkommandos são responsáveis por tarefas como despir e encaminhar os judeus até as câmaras de gás, recolher os corpos dos mortos, colocá-los no incinerador e, por fim, jogar as cinzas deles no rio. Cego pelo horror e pelo instinto de sobrevivência, Saul cumpre automaticamente essas atividades macabras até o dia em que ele presencia um acontecimento inesperado: contra todas as possibilidades possíveis, um menino continua vivo após ser submetido ao gás.

O Filho de Saul - Cena 4O Filho de Saul mostra então a mudança de perspectiva de Saul (lê-se chaú) em relação ao mundo e a si mesmo após tal acontecimento. Mesmo que o menino, completamente intoxicado, morra logo em seguida, Saul sente a necessidade de garantir-lhe um enterro digno e preservar a integridade de seu corpo. A cabeça baixa e o comportamento submisso dão lugar a uma atitude desafiadora e ele passa a arriscar a própria vida para cumprir os seus propósitos em relação ao menino, o qual ele diz ser seu filho. Paralelamente, Saul e os outros sonderkommandos planejam fugir do campo de concentração.

Na sessão do IMDB de “curiosidades” sobre o filme, lê-se uma porção de elogios de cineastas e estudiosos do holocausto para o trabalho do László Nemes. Dentre outras coisas, destacam o “fator realidade” alcançado pelo diretor que, segundo eles, conseguiu recriar com maestria os cenários e sentimentos daqueles dias terríveis. Não ousarei dizer o contrário. De fato, o trabalho técnico de O Filho de Saul é primoroso em vários sentidos: a reconstituição de época é impecável, os horrores do holocausto não são suavizados (corpos nus empilhados, bem como cenas de violência explícita, são mostrados constantemente) e a câmera posicionada em um ângulo incomum, próximo ao rosto de Saul, faz com que a gente veja a história da perspectiva dele, que varia da indiferença até a coragem e o desespero.

O Filho de Saul - Cena 3O que não agrada no filme é o ritmo da narrativa. Para obter o tal “fator realidade”, o diretor pouco explica e não faz concessões para facilitar a compreensão do que ele está mostrando. Nisso, não temos acesso aos pensamentos de Saul através de monólogos em off, não há flashbacks para contar o passado do personagem e só vemos aquilo que ele também vê, ou seja, também não temos a oportunidade de compreender o contexto da história através da opinião/visão de outros personagens. A necessidade de Saul enterrar aquele menino, algo que transforma-se em uma verdadeira obsessão ao longo da trama, é algo que faz sentido pra ele, mas não necessariamente também o faz para o espectador. Ele tentou resgatar a inocência e a bondade que existiam dentro dele? Não sei. Saul diz que o menino é filho dele. Isso é verdade ou não? Não ficamos sabendo. No período obscuro da história recriado pelo diretor, o público acaba ficando perdido na escuridão.

O Filho de Saul é um recorte fidedigno da vida de um prisioneiro em um campo de concentração. Palmas para o diretor pela seriedade e fidelidade do projeto. No que me diz respeito, porém, fiquei mais feliz por finalmente ter conseguido assistir o filme do que pela experiência de entretenimento propriamente dita que ele ofereceu, a qual achei bastante tediosa.

O Filho de Saul - Cena 2

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