O Cemitério Maldito (1989)

Padrão

O Cemitério MalditoTerminei há umas duas semanas as 395 páginas do O Cemitério, livro do escritor Stephen King que ganhei de aniversário de um amigo que prezo muito. Já vi muitas adaptações cinematográficas da obra do King (Um Sonho de Liberdade, Tempestade do Século, Carrie, etc), mas esse foi o primeiro romance dele que li (também conheço o Dança Macabra, mas esse é um estudo sobre gêneros literários, então não conta). O cara é mesmo muito bom naquilo que ele faz. King descreve ambientes sem tornar-se enfadonho, faz-nos constantemente ouvir a voz interna de seus personagens (o que sempre rende divertidos comentários sarcásticos), demonstra um bom conhecimento da cultura pop e narra uma trama de mortes, maldições indígenas e blasfêmias com a naturalidade de alguém que está sentado em uma mesa de bar tomando uma cerveja e contando uma história. De fato, ele merece o posto de “Mestre do Horror e da Fantasia” que consta na capa da edição que ganhei.

Movimento natural, terminei o livro e procurei o filme baseado nele para assistir. O Cemitério Maldito, produção que inspirou o clássico Pet Sematary dos Ramones, foi dirigido pela diretora Mary Lambert e contou com um roteiro adaptado pelo próprio Stephen King, que ainda supervisionou as filmagens e interpretou um personagem na trama. O que conclui-se a priori à partir dessas informações é que esta versão cinematográfica é o produto mais próximo do livro que o leitor poderia esperar, certo? Ainda que, no geral, o filme seja competente em recriar os cenários e acontecimentos descritos pelo escritor, devo dizer que não fiquei muito empolgado com o que vi. Abaixo, colocarei os meus motivos sem preocupar-me em soar pedante, visto que senti falta no filme justamente de alguns detalhes que, ao meu ver, fazem o livro brilhar. Texto com SPOILERS.

O Cemitério Maldito - CenaLouis Creed (Dale Midkiff) é um médico que muda-se de Chicago para Ludlow, uma cidadezinha no interior do Maine, para assumir a vaga no hospital da universidade local. Junto com ele, vai a esposa, Rachel (Denise Crosby), os dois filhos, Ellie (Blaze Berdahl) e Gage (Miko Hughes), e o gato da família, Church. Logo em seu primeiro dia em Ludlow, Louis conhece Jud Crandall (Fred Gwynne), um velhinho simpático e um tanto quanto misterioso que aconselha-o a manter os filhos longe da estrada que passa nas proximidades de sua nova casa. Ali, Jud diz, muitos animais já morreram atropelados pelos carros e caminhões que sempre trafegam em alta velocidade. Para comprovar o que disse, o velho conduz Louis e sua família por um caminho que adentra uma floresta próxima até o “Simitério de Bichos”, (assim, com a grafia errada mesmo), local onde as crianças de Ludlow habituaram-se a enterrar seus animaizinhos de estimação mortos na estrada.

No livro, o simples fato de Louis levar sua família até o Simitério de Bichos já torna-se motivo de discussão entre ele e a esposa, que tem dificuldade e resistência para lidar com o tema da morte. No filme, essa tensão entre o casal é deixada de lado para que a história siga com o primeiro dia de serviço do médio na universidade, no qual ele presencia a morte violenta do jovem Victor Pascow (Brad Greensquist). Essa abordagem mais “direta ao ponto” do filme, na minha opinião, deixa de lado um dos melhores aspectos do livro, que é o desenvolvimento do personagem principal, Louis Creed.

O Cemitério Maldito - Cena 3Nas páginas de O Cemitério, Louis é um cara normal, com defeitos e qualidades (ele, por exemplo, xinga mentalmente os filhos e a esposa quando eles lhe dão trabalho mas nem por isso deixa de tratar-lhes com carinho), que acaba experimentando o gosto amargo da hipocrisia quando abandona seu discurso racional de médico para ceder ao misticismo frente à morte. A ladeira emocional que o personagem percorre no livro, passando de um homem seguro de si para uma figura histérica e paranoica, é praticamente toda ignorada pelo roteiro do filme, que concentra seus esforços em mostrar os principais momentos da história sem levar em consideração seus aspectos psicológicos. A reconstrução do Simitério de Bichos, bem como a maioria dos cenários (a casa dos Creed, a estrada, o cemitério MicMac), ficou perfeita, mas a ausência da voz interna de Louis para exemplificar sua caminhada rumo à loucura realmente fez falta. O Louis do livro é um cara que xinga os filhos (rs), o do filme é só um almofadinha de topete sem nenhuma personalidade.

O Cemitério Maldito - Cena 2Sem a parte da trama em que o Stephen King valia-se da mente perturbada de Louis para destilar sarcasmo e humor negro, resta uma história regular de suspense/terror em que uma família é acometida por acontecimentos fantásticos. Tal qual Jud havia avisado, era bom evitar a estrada que ficava próxima da casa, e o descumprimento desse aviso mata, em momentos alternados, Church e Gage. Dilacerado pela dor, Louis enterra o filho e o gato no Cemitério Micmac, um antigo cemitério indígena escondido no coração da mesma floresta onde estava o Simitério de Bichos. Os poderes do local fazem com que os mortos retornem à vida, mas também os transforma em criaturas malignas capazes de matar e de falar palavrões. A cena mais importante da história, o confronto final entre Louis e suas seringas mortais e Gage, ficou bem legal, mas momentos igualmente bacanas como a briga no velório e a incursão noturna no cemitério de Ludlow ficaram muito apagadas.

O Cemitério é um desses livros que fazem a gente apaixonar-se por um escritor e querer ler mais e mais de suas obras (em breve começarei a série A Torre Negra), já O Cemitério Maldito, mesmo perdoando-se as perdas necessárias para adaptar-se um livro para o cinema, é só um desses filmes de terror comum com crianças falando coisas esquisitas.

O Cemitério Maldito - Cena 4

Anúncios

»

  1. Quanto ao Cemitério Maldito, não li o livro, mas pra mim é inesquecível o final do menino Gage (no fair! no fair!).

    Se não me engano, em algum texto antigo você disse que lia a Torre Negra pra pegar no sono, e agora vai começar a ler a série! Boa sorte. Sei que vc só fala sobre filmes, mas um dia gostaria de saber sua opinião sobre a Torre, e como teremos filme sobre ela em breve, acho que vou ter esse desejo realizado.

    Abraço!

    • Fiquei com inveja da sua memória, Marcus! rs
      De fato, li O Pistoleiro, mas o fiz em uma condição tão trash (antes de dormir, lia até cair no sono) que nem considero que o fiz. Relerei e, oportunamente, comento por aqui o que achei, ok?

      Abraço

  2. Pingback: Stalker (1979) | Já viu esse?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s