O Escaravelho do Diabo (2016)

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O Escaravelho do DiaboNão lembro qual foi o primeiro livro que li na vida (gosto de pensar que foi o Expedição aos Martírios, do Francisco Marins), mas recordo-me bem de ter adquirido o hábito da leitura por volta dos 12-13 anos quando conheci a Coleção Vaga-Lume, série de literatura infantojuvenil lançada pela Editora Ática. Semanalmente, eu ia até a biblioteca da escola e pegava um livro emprestado com a Dona Marta, a bibliotecária acolhedora que cuidava muitíssimo bem do local, para ler durante o final de semana. Nas páginas da Coleção, aprendi um pouco sobre história do Brasil (Coração de Onça) e preconceito (Menino de Asas), diverti-me com tramas variadas de aventura (A Ilha Perdida) e drama (Éramos Seis) e tomei gosto pela literatura de suspense/crime. Muito antes de conhecer os trabalhos mestre do gênero como Stephen King e Agatha Christie, deixei-me impressionar pelos contos cheios de mistérios e reviravoltas do Marcos Rey (Um Cadáver Ouve Rádio e O Mistério do Cinco Estrelas) e por livros  como O Escaravelho do Diabo, que falava de um assassino em série com uma curiosa obsessão por ruivos.

Pelo exposto, fiquei bem feliz e saudosistas quando anunciaram que adaptariam alguns títulos da Coleção Vaga-Lume para o cinema, começando justamente pelo O Escaravelho do Diabo. É claro que tive receio de que, agora adulto, eu ficasse indiferente à trama voltada para os mais jovens, mas a nostalgia e a vontade de revisitar aquelas tardes em que eu chegava da escola, sentava no sofá e abria o livro (sempre acompanhado de um copo de leite e um pacote de bolachas, o lanche dos campeões rs) substituíram a preocupação, de modo que coloquei o filme para rodar (infelizmente, não consegui vê-lo no cinema) com as expectativas lá em cima.

O Escaravelho do Diabo - CenaO cargo de adaptar o texto rápido e divertido da escritora Lucia Machado de Almeida para o formato cinematográfico ficou com o Carlo Milani, um diretor que até então havia trabalhado apenas com novelas e mini-séries. Milani não realiza aqui nada muito fantástico e, em alguns momentos, até escorrega na condução do elenco infantil, mas a direção dele merece ser elogiada por conseguir preservar a “aura” do livro, que cumpria o papel espinhoso de falar de vingança, morte e sangue para crianças e adolescentes.

Ambientada na cidade de Vista Alegre, interior de São Paulo, a história de O Escaravelho do Diabo é protagonizada por Alberto (Thiago Rosseti), um garoto de 13 anos que passa pela experiência traumatizante de encontrar o irmão mais velho assassinado dentro de casa. Desconfiado de que o suspeito preso pela polícia não é o verdadeiro culpado, Alberto pressiona o inspetor Pimentel (Marcos Caruso) para que as investigações sejam retomadas e, juntos, eles descobrem pistas que indicam a presença de um assassino em série na cidade.

O Escaravelho do Diabo - Cena 2Mesmo quando eu ainda ansiava para dar os meus primeiros beijos, nunca dei muita bola para a parte da história em que Alberto apaixonava-se pela ruiva Raquel (Bruna Cavalieri) e tentava protegê-la do assassino. O legal mesmo de O Escaravelho do Diabo era tentar descobrir quem seria a próxima vítima do vilão e acompanhar as engenhosas explicações das mortes. Felizmente, o diretor parece ter entendido e apreciado o livro da mesma forma que eu, visto que ele reserva pouco tempo para o conteúdo teen e capricha nas cenas em que o modus operandi do assassino é apresentado. Mesmo considerando as “suavizações” necessárias ao formato (coisas como não focar diretamente as mortes), Carlos Milani mostra bastante sangue e utiliza uma edição perturbadora, com cortes rápidos, câmera tremida e uma música sombria (Brisa Fria, do Black Alien, Paulo Miklos e Don L) para ilustrar o divertido esquema dos escaravelhos (que eu aprendi com o livro que são o mesmo que besouros), aspecto mais memorável da trama.

O Escaravelho do Diabo - Cena 3Isso quer dizer que estamos diante uma versão brasileira de O Silêncio dos Inocentes? Não mesmo. No geral, fiquei satisfeito com o que vi e acho que o diretor realizou um bom trabalho, mas ainda assim trata-se de um filme que foi feito para um público do qual eu não faço mais parte. O Escaravelho do Diabo me fez reviver muitas boas memórias da minha adolescência e, no embalo da sessão, acabei até comprando alguns livros da Coleção Vaga-Lume pela internet, mas ele não é o tipo de filme de crime/suspense que me interessa atualmente: fora o trabalho do Caruso, as atuações são ruins, a fotografia excessivamente clara destoa da história sombria e a forma como a identidade do vilão é revelada lembra aquelas explicações mastigadas do final dos episódios do Scooby Doo.

Resumindo, acredito que esse filme é competente em resgatar e homenagear um clássico da literatura nacional, mas não acho que ele seja suficientemente bom para agradar um fã adulto de suspense que não tenha laços emocionais com o livro. Todo caso, fica o agradecimento aos produtores pelo o esforço e o desejo sincero de que o projeto de levar a Coleção para o cinema seja bem sucedido.

O Escaravelho do Diabo - Cena 4

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