Love (2015)

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LoveAno passado, um burburinho nas redes sociais disse que um filme “praticamente pornô” estrearia nos cinemas nacionais. Matérias, como esta que pode ser lida clicando aqui, diziam que a produção chamaria-se Transa 3D e, entre outras coisas, traria uma polêmica cena onde um pênis ejacularia em direção ao público. Cinematograficamente falando, o sexo pelo sexo não me interessa: há milhares de sites na internet onde é possível encontrar pornografia em suas mais variadas e bizarras formas (há vídeos com pôneis, caras!), de modo que eu não assistiria Love (felizmente, o título original foi mantido) apenas para ver alguns peitinhos. Uma informação da matéria citada, porém, me fez ficar imediatamente interessado na produção:

“Com cenas quentes, o vídeo contém vários flashes de vários momentos da trama, que é dirigida pelo francês (sic) Gaspar Noé.”

Deixando de lado o erro do colunista (o diretor é argentino, e não francês), encontrei nesse trecho tudo o que eu precisava saber sobre o filme para decidir assisti-lo. A obra do Gaspar Noé (Sozinho Contra Todos, Irreversível, Viagem Alucinante) é marcada por cenas polêmicas de incesto, estupro e abuso de drogas, temas repulsivos e desagradáveis aos olhos, mas ainda assim temas que precisam ser discutidos e que o diretor explora sem preocupar-se com as amarras do politicamente correto. Assim sendo, no que diz respeito ao sexo, desconfiei que o Noé faria mais do que simplesmente mostrar closes das genitálias dos atores e, tal qual o Lars von Trier fez no Ninfomaníaca, discutiria o assunto de forma adulta e sem evitar as polêmicas inerentes ao tema. Felizmente, é exatamente isso que acontece aqui, ou seja, Love não é indicado para quem tem o Cinquenta Tons de Cinza como referência de sexo e relacionamento.

Love - Cena 3A primeira cena do longa é o tipo de material capaz de fazer com que o público desavisado desista do filme. Deitados em uma cama, Murphy (Karl Glusman) e Electra (Aomi Muyock) masturbam apaixonadamente um ao outro. Ao contrário do que geralmente acontece, a câmera do diretor não está posicionada para que você tenha apenas uma visão parcial do ato: lá está o pênis ereto do Murphy e a vagina cabeluda da Electra (rs). Na sequência, toda a química e felicidade do casal cede espaço para uma cena que acontece em outro local e num outro momento. Murphy acorda drogado e melancólico ao lado de Omi (Klara Kristin). No quarto ao lado, o bebê deles chora. O diretor então nos faz ouvir os pensamentos de Murphy e tudo o que ele faz é amaldiçoar a si mesmo e a vida que ele está levando.

O Gaspar Noé declarou que, com Love, a intenção dele era contar uma história de amor do ponto de vista sexual. Casais se conhecem, apaixonam-se, casam e separam-se pelos motivos mais variados, e aqui ele queria contar uma história em que o sexo fosse fator preponderante para os sucessos e insucessos da relação. Devido a uma gravidez indesejada, Murphy precisou casar-se com Omi, mas ele nunca superou os dias intensos vividos ao lado de Electra. Quando o telefone toca e a mãe de sua ex-namorada pede ajuda para localizá-la, visto que ela está desaparecida, o rapaz não pensa duas vezes antes de abandonar a esposa e o filho para procurar aquela que fora seu verdadeiro amor.

Love - CenaNoé ignora a ordem cronológica dos acontecimentos para nos mostrar o casal em várias etapas de uma relação que deteriorou-se ao longo do tempo pelo mesmo motivo que fizeram-na dar certo no início: a liberdade. Murphy e Electra retiram tudo o que podem um do outro, depois partem para uma ménage à trois com Omi, veem o ciúme frustrar a tentativa de levar uma relação aberta, entregam-se a curiosidade de interagir com um travesti e, por fim, procuram casas de swing para experimentarem o voyeurismo e o desprendimento de ver o parceiro transar com outra pessoa. Electra interessa-se pelo lado sonhador e artístico de Murphy, Murphy interessa-se pela inteligência e pelo espírito livre de Electra, mas a relação deles é baseada principalmente no sexo, e é sexo que vemos na maior parte do tempo de Love.

Há muitas cenas de masturbação, sexo vaginal, oral e homossexualidade no filme, tudo real, tudo filmado de forma que tu possa ver coisas como penetração e gozo. Essas cenas são “gratuitas”? Não mesmo. Além do filme possuir um roteiro sólido sobre obsessão sexual, que é filmado por Noé utilizando as mais diversas técnicas cinematográficas, como quebra da linha temporal e a inserção de textos explicativos na tela (um, por exemplo, associando o nome de Murphy com a Lei de Murphy, é bastante elucidativo), cada uma das cenas de sexo de Love tem uma razão para estarem lá e servem para reforçar a relação de dependência dos personagens com o ato sexual. Se a gente vê Murphy e Electra transando seguidamente em corredores de boate em uma determinada parte do filme, por exemplo, acredito que o diretor não está simplesmente querendo que a gente veja putaria, mas sim que entendamos que, ali, os dois estão tentando reaproximar-se depois de um período turbulento. Não dá para contar uma história de amor do ponto de vista sexual sem sexo, certo?

Love - Cena 2É claro que o diretor, depois de trabalhos como Irreversível (que traz uma longa cena onde a atriz Monica Bellucci é estuprada) sabe que está trabalhando com um tabu e que ele usa isso a seu favor, tanto para chocar o público quanto para atrair atenção do mesmo para o filme, mas não acredito que a intenção dele seja simplesmente fazer barulho. O Noé coloca-se muito em seus trabalhos (no Viagem Alucinante, por exemplo, ele fala da vida pós-morte, tema pelo qual ele sempre diz ter interesse) e aqui, além do diretor aparecer como o personagem Noe, ele ainda dá seu outro nome (Gaspar) para o bebê de Murphy e Omi, indícios de que muitas das angústias vividas na trama por seus protagonistas lhe são caras e, provavelmente, baseados em suas próprias experiências.

Love não é só um filme “praticamente pornô”. Se retirássemos dele todas as cenas de sexo, ainda assim ele chamaria a atenção por trazer uma história de amor cheia de elementos reais facilmente reconhecidos pelo público, coisas como a empolgação do início do relacionamento, as brigas (aquela do táxi me deixou bem pra baixo =/), o abuso de bebidas e drogas para mascarar uma realidade insatisfatória e o vazio que dá quando perdemos alguém que amamos devido aos nossos próprios excessos. As cenas de sexo poderiam ter ficado de fora, mas, cá entre nós, melhor com elas, não é mesmo? rs

Love - Cena 4

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