Alice Através do Espelho (2016)

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Alice Através do EspelhoÉ estranho que esse Alice Através do Espelho tenha demorado tanto para sair. Continuação direta do blockbuster Alice no País das Maravilhas, filme que ultrapassou a marca de 1 bilhão de dólares na bilheteria, essa nova adaptação do mundo concebido pelo doidão Lewis Carroll sai incríveis 6 anos depois do longa do Tim Burton.

Essa demora é curiosa porque, além de ter sido aprovado pelo público, o sucesso do primeiro Alice gerou uma espécie de “mini-gênero” em Hollywood que consiste em readaptar clássicos infantis em grandes produções repletas de efeitos especiais (Branca de Neve e o Caçador, Jack, o Caçador de Gigantes, Caminho da Floresta), ou seja, o cenário sempre foi favorável para que houvesse um segundo filme.

Estranho a demora, mas não posso dizer que eu estava ansioso por esse lançamento. Fiquei bastante decepcionado com o Alice no País das Maravilhas. Revi ele antes de ir ao cinema assistir esta sequência apenas para confirmar a impressão que tive na época: quando analisada atém do incrível e inquestionável espetáculo visual, a adaptação do Tim Burton é “certinha demais”, “Disney demais”, e o foco no Chapeleiro do Johnny Depp desagradou.

Comprei o ingresso esperando pouco e, até a metade da projeção, fiquei entediado por ver o diretor James Bobin (que sobrenome!) repetir cada um dos equívocos cometidos pelo Burton no filme anterior: novamente, os efeitos especiais sobrepõe a insanidade do conteúdo fantástico imaginado pelo Carroll. No fim, mesmo que Alice Através do Espelho termine de forma emocionante e bonitinha, a impressão que fica é que desperdiçaram outra chance de fazer algo realmente legal sobre o País das Maravilhas.

O filme anterior terminava mostrando Alice (Mia Wasikowska) decidindo navegar pelo mundo a bordo do barco do pai. Aqui, no início, vemos a personagem retornando dessa viagem. Atacada por navios inimigos, ela comanda a tripulação através de uma terrível tempestade e consegue chegar no porto inglês graças ao seu talento e capacidade de acreditar e realizar o impossível. Em terra firme, Alice descobre que seu antigo pretendente armou para tirar-lhe o barco e, enquanto pensa no que fazer a respeito, ela acaba retornando para o País das Maravilhas após atravessar um antigo espelho de uma mansão. Lá, ela encontra velhos conhecidos, como o Coelho Branco e o Gato de Cheshire, e descobre que o Chapeleiro (Depp) está deprimido devido a um episódio do passado envolvendo sua família. Para ajudá-lo, Alice precisará encontrar um artefato chamado Giro Esfera, retornar no tempo e tentar mudar o passado.

Antes de mais nada, vale uma observação: pesquisei um pouco antes de escrever a resenha e, pelo que li, essa história aí não tem praticamente nada a ver com a obra homônima escrita pelo Carroll. No livro, Alice precisa vencer uma série de desafios, que são apresentados em forma de um jogo de xadrez, para tornar-se rainha. Aqui, ela embrenha-se através dos corredores do passado para salvar a alegria do Chapeleiro. Pessoalmente, visto que não li o livro, essas alterações não me incomodaram tanto durante a sessão, mas não deixa de ser irritante pensar que, novamente, resolveram investir no Chapeleiro (que, pelo menos naquela animação da Disney de 1951, nem é lá um GRANDE personagem) em detrimento da história original.

Alice Através do Espelho - Cena 2Quando eu disse que o Bobin (rs) repete os mesmos erros do Burton, eu estava me referindo principalmente a estrutura e aos diálogos do filme. Alice Através do Espelho, tal qual o seu antecessor, começa mostrando Alice em um ambiente aristocrático pouco interessante (a pincelada sobre feminismo não é levada adiante), leva-a através de uma jornada visualmente estonteante (o 3D está muito bom) e termina em um final mega feliz onde a personagem aprende uma lição. Infelizmente, o nonsense não é valorizado. Aqueles diálogos loucos, rápidos e repletos de referências que escapam ao senso comum, grande trunfo do Carroll, aparecem aqui e ali, mas não são eles que ditam o ritmo da narrativa. Para contar uma história deveras convencional (aventurar-se no desconhecido para ajudar um amigo), Através do Espelho opta por simplificar o discurso e focar no visual. Bobin seguiu direitinho a cartilha timburtiana e, tal qual aconteceu no Alice no País das Maravilhas, entregou um daqueles filmes de “encher os olhos”, mas nem mesmo cenários esplendorosos como aquele do interior do relógio conseguem suprir a superficialidade do roteiro. Bobin, Bobin…

Alice Através do Espelho - CenaCom o Depp burocrático, fazendo as mesmas caras e bocas, e Anne Hathaway perdidíssima, sobra para a Helena Bonham Carter o papel de introduzir um pouco de loucura na trama com a sua Rainha de Copas. A gritaria e a imperatividade da personagem continuam bastante divertidas e é legal que o roteiro dedique espaço para contar o passado dela, revelando, por exemplo, como ela adquiriu aquela cabeçona ridícula. Outro que está bem é o Sacha Baron Cohen, que interpreta o Tempo, um cara para o qual a gente torce o nariz no começo mas que acaba sendo fundamental para que o conteúdo emocional do filme exploda no final.

Com um roteiro raso e uma tonelada de efeitos especiais, Alice Através do Espelho revelou-se apenas mais uma produção esquecível voltada para um público pouco exigente. A sessão, com seus altos e baixos, não chega a ser maçante, mas vislumbrar tudo o que poderia ter sido feito a partir de um material tão rico e inconvencional me fazem acreditar que, novamente, a Disney errou feio a mão.

Alice Através do Espelho - Cena 4

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