Corações de Ferro (2014)

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Corações de FerroO que faz com que alguém seja considerado um herói? Capacidade de liderança? Bravura? Auto controle? Coragem de sacrificar a própria vida em nome de uma causa maior? Muitas são as características e qualidades que podemos atribuir a essas pessoas que conseguem elevar-se acima da normalidade e realizar feitos espetaculares. Nesse Corações de Ferro,  o diretor David Ayer cria um violento espetáculo de lama e vísceras para relativizar o mito do herói e mostrar que, muitas vezes,  a empatia e a resiliência são tão importantes quanto os grandes atos na construção da história de homens excepcionais.

O ano é 1945 e o mundo está em guerra. Após perder uma série de batalhas e ver o seu exército ser dizimado pelas forças aliadas que avançam dentro do território alemão rumo à Berlim, Hitler lança mão de seu último recurso, a Guerra Total, solução desesperada que convoca mulheres e crianças a pegarem em armas e juntarem-se à defesa do país. Nesse cenário, o Sargento Don “Wardaddy” Collier (Brad Pitt) comanda um grupo de soldados que, a bordo do tanque Fury, tenta vencer o que restou da resistência alemã para agrupar-se com o restante das tropas americanas.

Corações de Ferro fala de uma guerra que está em seu último ato. Com as principais batalhas já lutadas e a derrota dos nazistas dada como certa, resta saber apenas como e onde será colocado o ponto final do conflito. Assim sendo, Wardaddy e sua equipe, que é formada pelos soldados Bible (Shia LaBeouf), Gordo (Michael Peña) e Coon-Ass (Jon Bernthal), deslocam-se sem maiores dificuldades por grandes áreas desoladas, eliminando sem pestanejar os remanescentes das tropas inimigas com os quais eles deparam-se esporadicamente. O longo e árduo caminho que eles percorreram até ali tornou-os endurecidos frente aos terrores da guerra, de modo que eles não veem mais problemas em ações cruéis como enfiar uma faca no olho de um homem, atirar em crianças e estuprar as mulheres alemãs que escondem-se nos escombros das cidades.

Corações de Ferro - Cena 4Tão logo o grupo reúne-se com o exército americano, no entanto, as coisas começam a mudar. Warddady e seus comandados recebem a missão de avançar até um território onde a resistência alemã ainda é forte e, de quebra, eles ainda tem que levar consigo o inexperiente soldado Lerman (Norman Ellison), ou seja, eles precisarão voltar a arriscar suas vidas no campo de batalha ao lado de um jovem que, até então, não havia matado um alemão sequer.

Em seu filme, o diretor David Ayer trata do conflito entre o pragmatismo frio (que é trazido pela experiência) com o idealismo simplório dos discursos baseados unicamente em teorias. Ficamos do lado de Lerman quando ele recusa-se a matar crianças e quanto ele defende uma garota da brutalidade de Coon-Ass (quem não ficaria?), mas em seguida vemos que os atos dele não só colocam a equipe em perigo como são diretamente responsáveis pela morte de vários soldados. Ayer então utiliza seus dois protagonistas, Lerman e Wardaddy, para mostrar que as duas visões (pragmatismo e idealismo) podem caminhar juntos em um ambiente de guerra. Os personagens influenciam-se mutuamente e, no fim, percebemos que a construção de um comportamento heroico, por assim dizer, demanda tanto a coragem de enfrentar o inimigo (quando isso é inevitável) quanto a sabedoria e a bondade de polpá-lo e tratá-lo decentemente (quando isso for possível).

Corações de Ferro - Cena 2Gostei do tom realista adotado pelo diretor, que evita discursos patrióticos e os tradicionais gritos de guerra inflamados para mostrar as preocupações sinceras de homens que estão sofrendo longe de suas casas lutando uma guerra que eles não começaram. Ayer também não preocupa-se em suavizar a reconstrução dos campos de batalha e faz com que a gente veja uma série de imagens macabras, coisas como soldados tendo seus membros dilacerados por tiros e granadas e cadáveres sendo destroçados pelas pesadas rodas dos tanques. Definitivamente, Corações de Ferro não é um daqueles filmes que a gente termina de assistir e coloca um sorriso no rosto.

Corações de Ferro - Cena 3Esse lado mais sombrio do roteiro, porém, não atrapalha aquela diversão mais simples que esperamos de um filme de ação ambientado na Segunda Guerra Mundial. Enquanto não está relativizando o mito do herói e dando voz aos lamentos dos soldados, Ayer nos dá pelo menos duas grandes cenas de combate. Na primeira, Wardaddy e os soldados manobram o Fury para tentar destruir um tanque maior e mais equipado do que o deles. A gritaria é geral, os atores interagem muito bem entre si e a conclusão do combate é aquele tipo de momento que faz a gente querer levantar do sofá e gritar algo tosco como “CHUPA HITLER!”. Na outra, a carnificina que fecha o filme, cada um dos personagens precisa realizar um sacrifício para conter o avanço do exército alemão.

Arrependi por ter perdido a oportunidade de assistir Corações de Ferro no cinema. Fora o conteúdo histórico que ele oferece, a abordagem “humanizada” do diretor é muito boa e tenho certeza que as cenas de ação ficariam ainda melhores com os recursos de uma sala de projeção. Bom filme.

Corações de Ferro - Cena

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