Água Suja (2016)

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Água SujaRomaria é uma cidadezinha do Triângulo Mineiro com uma população estimada de 3657 habitantes. Anualmente, entre os dias 06 e 15 de agosto, o município sedia uma festa em homenagem à Nossa Senhora da Abadia, ocasião em que suas ruas ficam lotadas dos chamados “romeiros”, peregrinos que deslocam-se de toda a região até lá para pedirem graças, agradecerem por conquistas alcançadas ou simplesmente para reforçarem sua fé e devoção pela santa.

Também conhecida como Água Suja, seu primeiro nome, Romaria está a cerca de 86km de Uberlândia, cidade onde moro e da qual já saí 3 vezes, a pé, para realizar a difícil peregrinação até o Santuário de Nossa Senhora da Abadia. Não sou religioso (ainda me defino como agnóstico), mas, como comentei no texto do Livre, topei a caminhada tanto pelo desafio físico que ela oferece quanto pela oportunidade de ficar sozinho com os meus próprios pensamentos. Na primeira vez, fiquei na metade do caminho. Na segunda, completei o trajeto mesmo quando dois amigos desistiram na metade. Na terceira e última vez, em 2010, também consegui chegar, mas algo que aconteceu alguns meses depois me marcou tão profundamente que, desde então, não encontrei mais ânimo para encarar a estrada.

Meu vovô, o saudoso José Ferreira, faleceu no dia 28 de outubro de 2010, dentro de um ônibus, vitima de um ataque cardíaco. Tendo fumado durante toda a vida e trabalhado majoritariamente com serviços braçais na zona rural, ele enfrentou muitas problemas de saúde em seus últimos dias, como tosse constante e dores no corpo. Como eu via que ele estava definhando dia após dia e ficava desesperado por não saber como ajudar, decidi deixar o ceticismo de lado e fazer a caminhada até Romaria para “pedir” que ele melhorasse. A viagem em si, apesar da costumeira dificuldade, foi bastante proveitosa, mas de certa forma eu sempre lembro dela com a frustração de alguém que, pouco tempo depois, chorou a morte de um pai. Mesmo que seja uma hipocrisia gigantesca acreditar que eu (que até então nunca havia tido fé) merecesse receber alguma graça superior, nunca mais tive vontade de ir até Romaria: corações cheios de mágoas, infelizmente, tendem a tornar-nos rancorosos e irracionais.

IMG_4382Caso eu tivesse encontrado forças para voltar a realizar a peregrinação no ano passado (a ideia passou pela minha cabeça), eu poderia ter esbarrado no caminho com o diretor Yuji Kodato, que estava com sua equipe na estrada registrando as imagens e depoimentos que depois seriam transformados nesse excelente documentário, o Água Suja. Kodato, que também é fotógrafo, realizou um excelente trabalho capturando cenas belíssimas que, de tão fortes e representativas, dispensam a tradicional narração presente na maioria das produções do formato:  não é necessário que o diretor nos fale sobre as dificuldades da caminhada quando ele nos mostra o sol escaldante, o tráfego intenso de veículos, as condições precárias de higiene e os corpos cansados e castigados dos romeiros.

Estruturalmente, Água Suja pode ser dividido em 3 momentos, sendo eles:

  • Caminho até Romaria: Kodato e sua equipe, entre eles o câmera Roberto Camargos, registram o trajeto feito pelos peregrinos, destacando pontos conhecidos do caminho, como o “primeiro posto”, a “antena” e o “atalho”, e dá voz aos fiéis, deixando que eles, tal qual eu fiz no começo desse texto, contem suas experiências ligadas à peregrinação. Aqui, independente das convicções religiosas de cada um, impressiona a força de vontade dos entrevistados e a boa vontade daquelas pessoas que saem de suas casas para ajudar os romeiros (o chamado ‘dar apoio’), seja fornecendo-lhes água e comida, seja lavando os seus pés.
  • Chegada no Santuário: Após um longo tempo na estrada (quando fui, gastei 36 horas), os romeiros chegam exaustos mas felizes em Romaria e então o diretor registra a ida deles até o Santuário. Valendo-se de uma música impactante (produzida, acredito, com um berimbau), Kodato mostra os fiéis subindo de joelhos as longas escadarias do Santuário para prestarem seus agradecimentos e homenagens à santa.
  • Festa de Nossa Senhora da Abadia: Na primeira vez que consegui completar o trajeto, entrei feliz nos limites da cidade e fui direto até um bar para pedir um copo d’água. Grande foi a minha surpresa e decepção quando o dono do local me cobrou 50 centavos pela água. A ganância dos comerciantes de Romaria no dia da festa é tão memorável quanto a solidariedade encontrada na estrada e o diretor registra muitas das bizarrices que podem ser encontradas na cidade, coisas como venda de lingeries e shows de músicas seculares. Ainda que seja compreensível a necessidade da cidade lucrar com o evento, essa lado da festa destoa completamente da espiritualidade do restante da peregrinação e é positivo que o diretor também tenha optado por mostrar esse lado polêmico do evento.

IMG_4383Escrever sobre Água Suja me deixa bastante feliz por 3 motivos. Primeiro, porque pude falar-lhes sobre o meu vovô, pessoa que foi embora e deixou um vazio em minha vida que só é superado em intensidade pela força dos exemplos e da educação que ele me deu em vida. Segundo, pela chance de relatar algo que eu mesmo vivi e que agora vejo convertido em um ótimo documentário. Por último, porque posso utilizar o blog para ajudar a divulgar o trabalho de um amigo. O Roberto Camargos, câmera citado anteriormente, foi meu colega de classe na faculdade e eu fico verdadeiramente orgulhoso de saber que ele está utilizando toda sua inteligência para registrar e interpretar o mundo e nossas realidade imediatas de forma tão bela e crítica. Parabéns, cara!

Água Suja foi financiado coletivamente e pode ser conferido, gratuitamente, clicando aqui. Assistam!

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