Uma Vida Por um Fio (1948)

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Uma Vida Por um Fio“Another Hitchcockian theme is ‘the woman in peril’ psychological thriller, as eptomized by (…) Anatole Litvak’s Sorry, Wrong Number (1948), in which an invalid (Barbara Stanwyck) overhears, on the phone, a plot to murder her.”

“Outro tema Hitchcockiano é o thriller psicológico ‘a mulher em perigo’, representado pelo Desculpe, Número Errado (1948) do Anatole Litvak, no qual uma inválida (Barbara Stanwick) ouve, no telefone, um plano para matá-la”.

No final do ano passado, li esse trecho no The Film Book do Ronald Bergan e fiquei bastante interessado em assistir o filme descrito, que por aqui recebeu o título de Uma Vida Por um Fio. Além da sinopse ser promissora, o escritor compara a história com aquelas que podem serem vistas nos trabalhos do Hitchcock, informação irresistível para qualquer um que esteja minimamente inteirado da história do cinema.

Conforme o livro descrevia, temos aqui a história da mimada e irritadiça Leona Stevenson (Barbara Stanwyck), uma mulher inválida que passa a maior parte do tempo deitada em uma cama. Certo dia, notando que o marido (Henry Stevenson, interpretado pelo Burt Lancaster) estava demorando para voltar para casa, Leona pega o telefone e solicita que a telefonista faça uma ligação para o escritório onde ele trabalha. Durante a chamada, a personagem ouve a voz de um homem revelando a intenção de assassinar uma mulher naquele mesmo dia, às 23h15min. Depois disso, Leona vai tornando-se mais e mais obcecada para desvendar o caso.

Uma Vida Por um Fio - Cena 3Nesse filme, o diretor Anatole Litvak adapta para o formato cinematográfico uma peça de sucesso das rádios criada pela escritora Lucille Fletcher. Para dar vida a algo que fora concebido não para ser visto, mas apenas imaginado, e manter o clima de suspense e tensão que o rádio proporciona, Litvak, além de construir um quarto claustrofóbico onde a ótima atriz Barbara Stanwyck definha psicologicamente ao longo da trama, valeu-se de uma série de flashbacks para contar a história da complicada relação entre Leona e Henry, arco do roteiro que revela-se intrinsecamente ligado àquela misteriosa ligação.

Leona é filha de James Cotterell (Ed Begley), um rico empresário do setor farmacêutico. Confiante no poder da fortuna do pai, ela seduz o belo mas pobre Henry, que era namorado de sua melhor amiga, Sally (Ann Richards), e convence-o a casar-se com ela. Esse começo de relacionamento pouco natural (ele interessado na fortuna dela, ela interessada em utilizar a fortuna para subjugar os outros e fazer sua vontade prevalecer) fundamenta as bases de um casamento infeliz e, poucos anos depois, o abismo entre eles é gritante. Irritada pelo desejo de independência de Henry, que sente-se humilhado por sua condição de gigolô, Leona desenvolve uma estranha doença que prejudica sua locomoção, a qual vai agravando-se a medida que a indiferença do marido por ela vai aumentando.

Uma Vida Por um Fio - Cena 4Na maior parte do tempo da 1h30min de Uma Vida Por um Fio, vemos Leona sentada/deitada na cama do quarto de seu apartamento. Aqui, faz-se necessário registrar a grandeza da atuação da atriz Barbara Stanwyck. Interagindo apenas com um aparelho de telefone, Barbara preenche a tela com suas caras e bocas e sua voz estridente e acaba conquistando nossa simpatia à força. Leona, por definição (mulher neurótica e mimada), é uma dessas personagens construídas para serem irritantes, mas a “chatice” dela, principalmente nas cenas em que ela dá bronca nas telefonistas, acaba revelando-se algo bastante engraçado.

O filme tende a cair um pouco nas cenas em que Leona não aparece. A estrutura em flashbacks proposta por Litvak varia entre ser excessivamente didática (a explicação da negociata de Henry, por exemplo) e desnecessariamente confusa (em um determinado momento, ele termina um longo flashback com… outro flashback! rs) e a longa volta que o filme dá antes de unir todas as pontas do roteiro em torno da ligação misteriosa é deveras cansativa.

Uma Vida Por um Fio - Cena 2O “ponto final” de Uma Vida Por um Fio, porém, é irrepreensível. Feitas todas as explicações necessárias e mostrado o quanto relacionamentos iniciados por interesses escusos podem ser mutuamente destrutivos, o diretor justifica o termo “hitchcockiano” dado ao seu trabalho pelo escritor Ronald Bergan: num plano sequência sensacional, digno de comparação com aqueles feitos pelo Mestre do Suspense, Livtak fecha Uma Vida Por um Fio com uma cena que transborda agonia e eleva a insanidade de Leona a um novo patamar.

Não posso dizer que o filme atendeu toda a expectativa que eu criei sobre ele quando li o trecho quotado do The Film Book, mas ainda assim é um título que vale a pena ser conferido pela boa ideia que move o roteiro, pela atuação da Stanwyck e pelo poderoso plano sequência do final.

Uma Vida Por um Fio - Cena

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