Victoria (2015)

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VictoriaDesde janeiro um amigo está insistindo para que eu assista esse Victoria. Expliquei várias vezes para ele que eu estava ocupado resenhando os concorrentes ao Oscar, mas nem assim o sujeito parou de me aporrinhar. Empolgado, ele descreveu o filme como “uma coisa linda” e e disse que tratava-se de um “absurdo” eu, cinéfilo que sou, ainda não ter dado a devida atenção para o longa. Mesmo o cara sendo conhecido por falar algumas asneiras ter opiniões polêmicas (ele não perde oportunidade de menosprezar o Iñárritu, diretor do Birdman e do O Regresso), devo dizer que, desta vez, ele estava certo: de fato, Victoria merece ser indicado como um título obrigatório do cinema contemporâneo e tem elementos capazes de deixar boquiaberto qualquer fã da sétima arte.

Começo elogiando os predicados do roteiro, que conta uma história relativamente simples mas que possui uma capacidade enorme de nos fazer refletir. Logo após os créditos iniciais, vemos a protagonista Victoria (Laia Costa) dançando na escuridão da pista de uma boate. Os flashes ocasionais provocados pelo jogo de luz do local revelam um rosto feliz e sereno, mas não é bem isso que aquela garota carrega no coração. Tão logo encerra-se a música, a personagem dirige-se até o bar e pede uma bebida. Sozinha e embriagada, ela tenta puxar assunto com o barman e até se oferece para pagar-lhe uma bebida mas, diante da recusa fria do funcionário, Victoria decide que é hora de voltar para casa. Na saída, porém, ela é abordada por quatro rapazes (Sonne, Boxer, Blinker e Fub) que convidam-na para passar a noite junto com eles.

Victoria - Cena 2Faço uma pequena pausa na discrição da história para destacar o ponto em que o roteiro me surpreendeu positivamente. Tentem visualizar tudo o que foi dito no parágrafo anterior: garota bêbada e solitária recebe um convite para terminar a noite com quatro homens. Sinceramente, qual é a primeira coisa que passa pela cabeça de qualquer um diante de um cenário desses? Abuso sexual, certo? Por mais que muita gente tente negar o óbvio, vivemos sim em uma sociedade machista e a quantidade absurda de notícias de violência contra a mulher que chegam até nós todos os dias fazem com que olhemos aqueles rapazes com medo e desconfiança. Liderados por Sonne (Frederick Lau), eles brincam com Victoria e cobrem-na de galanteios, nada muito obsceno ou impróprio, mas é praticamente impossível deixar de acreditar que o pior acontecerá. Nesse sentido, considerei extremamente positivo o caminho “menos óbvio” que o diretor e roteirista alemão Sebastian Schipper escolheu para desenvolver o drama de sua protagonista: de fato, os desdobramentos dos eventos que acontecem naquela noite provocarão danos psicológicos permanentes na vida de Victoria, mas não do jeito sombrio que nós havíamos imaginado inicialmente.

Sonne é sem vergonha e delinquente, Boxer (Franz Rogowski) é um ex-presidiário com tendências à violência e Blinker e Fub são bêbados inconsequentes, mas nenhum deles é um estuprador. Naquela noite, tal qual Victoria, tudo que eles queriam mesmo era divertirem-se até o sol raiar. Depois de um tempo, conseguimos deixar nossos medos e suspeitas de lado e passamos a achar graça das loucuras do grupo, que rouba cerveja de uma lojinha, anda de bicicleta pela cidade e conversa sobre temas variados no teto de um apartamento. É aí, no meio do que parece ser o início de uma história de amor entre Victoria e Sonne, que o diretor finalmente revela o “elemento complicador” de seu filme: o vazio existencial que leva as pessoas a confiarem em qualquer um, destruindo a si próprias durante o processo.

Victoria - Cena 4Victoria, como a cena da boate explicita, é uma pessoa sozinha. Posteriormente, ficamos sabendo que ela é uma imigrante sem amigos e sem contato com a família cujos sonhos profissionais não se realizaram. Levando tudo isso em consideração, conseguimos entender o porque da personagem aceitar sair com quatro desconhecidos: de certa forma, ela não tem nada a perder. Pelo mesmo motivo, ela aceita participar naquela mesma noite de um esquema arriscado para salvar a vida de Boxer, que é ameaçado por homens para os quais ele devia dinheiro. Roubar um banco, fugir da polícia, fazer reféns… tudo isso parece mais verdadeiro e emocionante do que a rotina maçante e sem perspectiva de futuro que ela vivia até então como atendente de uma cafeteria. Podemos até resumir a mensagem do filme com algo simplista do tipo “antes só do que mal acompanhado”, mas acho que a grande lição oferecida pelo diretor Sebastian Schipper é a de que nós somos os únicos responsáveis por nossas derrotas e vitórias, visto que a personagem cai e levanta-se durante a história devido a seus próprios defeitos e méritos. Ela vence (conforme o título do filme e seu nome sugerem), mas o preço pago pela inocência e indiferença que ela praticara até então acaba mostrando-se caro demais.

Victoria - CenaGostei muito da forma como o diretor reuniu elementos do drama e do filme de crime para criar uma história triste e tensa, mas apaixone-me mesmo foi pela forma como ele filmou essa história. Tudo isso que foi falado até agora (a boate, as loucuras na rua, a cafeteria, o assalto, a fuga, etc) foi capturado por Schipper em um único e impressionante plano sequência. Caso o leitor não tenha familiaridade com o termo técnico ou não tenha acreditado no que foi falado, colocarei de outra forma para reforçar a minha admiração: não há cortes em Victoria, o filme foi todo registrado em uma única tomada, ou seja, você vê aqui o resultado de 2h18min de filmagens ininterruptas onde os atores não puderam errar nem falas e nem posicionamento nos cenários. Sei que muita gente não liga para esse tipo de coisa, mas eu considero o plano sequência (tanto pela dificuldade da execução quanto pelo ritmo natural que ele imprime nas cenas) uma das técnicas mais lindas que um diretor pode aplicar em um filme. Entre outras coisas, o Birdman, por exemplo, conquistou a atenção dos críticos justamente por conta de suas engenhosas sequências de 20-30 minutos sem interrupção. Agora pensem em um filme inteiro gravado dessa forma e vocês, tal como eu, entenderão o porque de Victoria ser uma “coisa linda” e um filme obrigatório. Agradeço demais ao Sr. Lucas Couto pela indicação e pela insistência e fico feliz por poder ajudar a divulgar esse trabalho, verdadeira obra prima do sempre surpreendente cinema alemão.

Victoria - Cena 3

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