O Juiz (2014)

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O JuizFoi um advogado que me indicou esse O Juiz. Ele, que é fã do Robert Downey Jr., assistiu o filme no cinema e insistiu para que eu também o fizesse alegando que tratava-se de um dos melhores longas que ele já havia visto. Desconfiei da empolgação (o histórico dele é ruim) e não comprei o ingresso, mas o comentário foi bom o suficiente para que eu fizesse o download e guardasse o arquivo para apreciar no futuro.

Bem, já começarei dizendo que não achei O Juiz tão bom assim, pelo menos não tanto quanto o sujeito tentou fazê-lo parecer. O filme, que é assinado pelo diretor David Dobkin (um cara conhecido por trabalhos em comédias como Penetras Bons de Bico e Bater ou Correr em Londres) tem sim um forte apelo emocional, mas ele também dura mais do que o necessário e acaba sacrificando as sempre divertidas cenas de tribunal em nome de um drama familiar deveras simples.

Eis a sinopse: Hank Palmer (Downey Jr.), um advogado desses que não perdem o sono por defenderem criminosos, é informado do falecimento de sua mãe. Mesmo tendo distanciado-se de sua família, Hank interrompe seu trabalho e vai até sua cidade natal para acompanhar o funeral. Lá, ele precisa lidar com uma série de situações mal resolvidas do passado, como um relacionamento com uma ex-namorada (Vera Farmiga) e um acidente que pôs fim a promissora carreira esportiva do irmão (Vincent D’Onofrio).

O Juiz - Cena 2O maior problema de Hank, porém, é com o pai, o juiz Joseph Palmer (Robert Duvall). Desde que o advogado saiu de casa, os dois deixaram de conversar e passaram a desconsiderar a existência um do outro. Antes que possamos compreender o que azedou essa relação, no entanto, o juiz é acusado de atropelar e matar um ex-presidiário e Hank vê-se obrigado a defender o pai no tribunal.

Tal qual o Gravidade, que antes de ser uma ficção científica é um drama sobre a jornada de renascimento de uma mulher,  O Juiz, apesar do título sugestivo, não é uma produção dedicada aos pormenores do mundo jurídico, mas sim à história de uma relação familiar desgastada por erros e ressentimentos. Há sim algumas sequências acaloradas de tribunal, com Hank e o promotor interpretado pelo Billy Bob Thornton disparando um bocado de argumentos repletos de sarcasmo um contra o outro, mas não é um erro dizer que a maioria esmagadora das cenas são dedicadas a explicar o passado que levou pai e filho até aquele presente insatisfatório para ambos. Para vocês terem uma ideia, a primeira cena em que o juiz Palmer senta-se no banco dos réus acontece depois de quase 1 hora de projeção, momento da trama em que outras questões, como “quem não vai com a cara de quem e porque” dentro daquela família já estão bem encaminhadas.

O Juiz - Cena 3Reconheci acima que o diretor David Dobkin consegue dar apelo emocional para a história e acho que ninguém será capaz de discordar disso. O roteiro enfeita o passado conturbado da família de Hank com coisas bastante específicas, como um irmão deficiente que gosta de registrar tudo em vídeo (!), um irmão que poderia ter sido um jogador profissional de baseball (!!) e um show do Metallica (!!!), elementos com os quais nem todo mundo poderá estabelecer paralelos emocionais, mas a estrutura do relacionamento dele com o pai é bastante universal. Resumidamente, enquanto Hank foi um adolescente problemático e inconsequente que vivia causando problemas para a família, o juiz Palmer foi um desses pais distantes e linha dura. Um só queria impressionar, o outro só queria proteger e, ambos equivocando-se no meio do processo, contribuíram para o sofrimento de todos aqueles que os rodeavam. O que Dobkin nos mostra ao longo das quase 2h30min do filme é que, nesses casos, nenhum dos lados está completamente certo ou errado e que é o perdão e a empatia (e não coisas como orgulho e legado) que trarão paz para aqueles corações atormentados. Acredito que qualquer pessoa que guarde algum tipo de ressentimento pelo pai, parentes ou amigos será capaz de identificar-se com essa mensagem conciliadora e repensar os próprios atos.

O Juiz - CenaO roteiro, portanto, funciona e traz sacadas espertas, como colocar o veterano Robert Duvall como juiz (o que pode ser visto como uma extensão natural de seu papel mais famoso, o advogado Tom Hagen de O Poderoso Chefão), mas fiquei com a impressão de que a história poderia ter sido contada em menos tempo. É louvável a intenção do diretor de tentar dar importância para aspectos emocionais do passado e do presente de Hank, colocando-o dentro de um casamento que está prestes a terminar e fazendo-o reencontrar sua ex-namorada, mas esses arcos tornam o filme longo demais e, por vezes, as tentativas de fazer humor raso soam deslocadas e não acrescentam nada para trama pai/filho. Eu trocaria, por exemplo, todas aquelas piadas constrangedoras sobre um possível caso de incesto por mais cenas do personagem principal com seus irmãos: não dá para você escalar um ator bom como o Vincent D’Onofrio (do clássico Nascido Para Matar) para um filme e não aproveitar tudo aquilo que ele pode oferecer.

O Juiz - Cena 5O Robert Downey Jr, cuja imagem hoje está intrinsecamente ligada ao Homem de Ferro, não esforça-se nenhum pouco para distanciar-se de seu icônico Tony Stark. Ainda que Hank fique um pouco mais emocional e frágil na parte final da trama, o personagem ganhou do ator as mesmas falas rápidas e arrogantes que ele vem utilizando no Universo Cinematográfico Marvel, o que é uma pena, visto que talento para fazer coisas diferentes (como ele demonstrou no Trovão Tropical) definitivamente não é o que falta.

Entendi o foco do roteiro nas questões sentimentais e gostei da “moral da história”, mas senti falta de mais agressividade por parte dos advogados no tribunal (o potencial de cenas como aquela em que Hank urina na perna de um outro advogado, bem como daquela discussão no bar, perde-se no caminho), vi a maioria do elenco atuando no automático e não gostei da “resolução do crime”, ou seja, O Juiz é um filme bem regular e fico feliz por ter ignorado a indicação do tal advogado para vê-lo no cinema. Foi mal, cara, qualquer coisa tu me processa aí rs

O Juiz - Cena 4

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