Désirée, O Amor de Napoleão (1954)

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Désirée - O Amor de NapoleãoTenho dado aulas sobre Revolução Francesa e notado que sei pouco sobre o período napoleônico. Pela importância ideológica do levante popular que culminou na queda do Luís XVI, na faculdade estudamos bastante os anos anteriores a 1789 e seus desdobramentos imediatos, mas o fôlego utilizado na explicação do “liberdade, igualdade e fraternidade” não foi o mesmo para discutir a ascensão e queda do Napoleão Bonaparte. Ciente dessa falha, tenho procurado reforçar meu conhecimento com outras mídias. A leitura do monumental Guerra e Paz (que rendeu esse filme fraco), por exemplo, me ajudou bastante, visto que o Tolstói descreve com habilidade a derrota do exército francês em território russo. Continuando o processo, junto agora à minha bagagem esse Désirée, O Amor de Napoleão, adaptação do diretor Henry Koster para o romance da escritora Annemarie Selinko. Mesmo que valha-se de conteúdo ficcional para contar a história do romance de Napoleão (Marlon Brando) com Désirée (Jean Simmons), o filme é bastante ilustrativo sobre a personalidade e as ambições políticas e militares do imperador.

A trama começa em 1794, período marcado pela instabilidade política que marcou os anos pós-Revolução. Désirée, filha de um comerciante da cidade de Marselha, é apresentada ao jovem e ambicioso general francês Napoleão Bonaparte. O romance entre o casal esbarra em duas dificuldades. Em um primeiro momento, a família de Désirée é contrária a união devido à falta de posses de Napoleão. Posteriormente, visando sua carreira política, o general casa-se com a aristocrata Josefina de Beauharnais (Merle Oberon). O filme segue então com os encontros e desencontros entre o casal até o ano de 1815, quando Napoleão é derrotado na famosa Batalha de Waterloo e afasta-se definitivamente do poder.

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 4Ver Désirée agora foi importante do ponto de vista profissional, mas não foi esse o primeiro motivo que me levou até ele. Já tem um bom tempo que tenho tentado conhecer toda a filmografia do Marlon Brando (o último título que eu havia visto e resenhado por aqui foi o Julio César) e, devido a isso, eu acabaria assistindo-o de qualquer maneira, mas acabou sendo bastante proveitoso aliar as duas atividades nesse momento: sentei para ver o meu ator favorito atuando e, de quebra, enriqueci as minhas futuras aulas com algumas imagens e fatos que, salvas as devidas “licenças poéticas” adotadas pelo diretor e pela escritora, complementam satisfatoriamente o conteúdo do livro didático.

Antes de falar sobre o Brando, vou direto as ressalvas que faço enquanto historiador. Désirée traz uma relação pouco crível entre a personagem título e o imperador francês. Ainda que eu não conheça pormenores da vida amorosa do Napoleão (o pouco que sei desse assunto INTERESSANTÍSSIMO, li aqui e aqui), é difícil acreditar que Désirée, personagem histórica, tenha tido a mesma relevância do que a Désirée, personagem fictícia, mostrada no filme. Não falo dos encontros constantes entre os dois “amantes” ao longo dos anos nas mais variadas ocasiões (o que é completamente possível se considerarmos que Désirée foi cunhada de Napoleão), mas da participação política dela em momentos chaves da história, como na decisão de Napoleão de “entregar-se” após o período que ficou conhecido como “Governo dos Cem Dias”.

Désirée - O Amor de Napoleão - CenaEsses exercícios imaginativos servem ao propósito de enriquecer o viés dramático de eventos que conhecemos principalmente através da perspectiva política e bélica. Para contar a história de um homem que ficou conhecido por façanhas militares, o diretor Henry Koster não mostra nenhuma cena de batalha, optando apenas por sugerir os conflitos por meio de sequências de imagens que evocam as lutas, como quando Désirée sonha com a derrota de Napoleão na Rússia. O “grosso” do filme, por assim dizer, é composto por diálogos entre a personagem título, o imperador e Jean-Baptiste Bernadotte (Michael Rennie), general do exército francês que desposa Désirée após ela ser preterida por Bonaparte. Não é sempre que as frivolidades do mundo aristocrático soam prazerosas aos nossos ouvidos, mas aqui a interação entre o trio é fundamental para retratar a personalidade explosiva, ciumenta e dominadora de Napoleão.

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 2Descrito por Dostoiévski no livro Crime e Castigo como um homem que foi capaz de realizar feitos extraordinários devido a uma visão de mundo que nem sempre levava em conta os aspectos morais da sociedade, Napoleão é mostrado aqui como uma espécie de força transformadora que não poupou esforços para alcançar o poder e aplicar seus planos expansionistas e unificadores na Europa. Interpretado por um Marlon Brando furioso no auge da forma física e artística (ele receberia o Oscar de Melhor Ator no ano seguinte pelo Sindicato de Ladrões), o personagem exala a soberba e magnanimidade que são atribuídas ao seu correspondente histórico. Naquele que é sem nenhuma dúvida o melhor momento da trama, Napoleão toma a coroa das mãos do Papa Pio VII e coroa a si mesmo diante de uma plateia atônita, gesto de autoafirmação que o diretor valoriza em uma cena grandiosa e inesquecível.

Désirée investe pesado no romance, mas ele também atenta-se para as questões políticas da época, explicando parte das alianças que foram formadas por países europeus contra a França, e mostra satisfatoriamente a escalada de Napoleão rumo ao topo (general, cônsul, imperador). A seu favor, o filme conta ainda com o talento do Brando e com a cenografia irretocável (foi indicado ao Oscar nessa categoria), mas a impressão que tive é que o valor informativo da história é bem maior do que seu poder de entretenimento. De qualquer forma, aprendi mais um pouco e é isso que importa 🙂

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 3

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