Holocausto Canibal (1980)

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Holocausto CanibalCerta vez, recém saído de um namoro e ansioso para conhecer novas pessoas, fui até um bar encontrar uma garota. Conversa vai, conversa vem, descobrimos o gosto comum por filmes e logo o assunto transformou-se em uma sucessão interminável de comentários empolgados sobre cinema. Desconfiei, porém, quando ela disse que o filme favorita dela era o Holocausto Canibal. Ok, é perfeitamente normal utilizar frases de efeito no primeiro encontro para impressionar, mas quem em sã consciência declara ter como predileta uma das produções mais polêmicas já feitas? Que tipo de relacionamento eu poderia ter tido com uma menina que descreveu, com os olhos brilhando, uma cena onde uma pessoa aparece empalada nas margens de um rio? Lembro que, depois desse dia, saímos ainda umas 2 vezes, mas aí ela, que era vegetariana, tentou me convencer a parar de comer carne e eu desisti de vez rs

Dessa experiência bizarra, levei uma certa implicância do tal Holocausto Canibal, que classifiquei mentalmente como “filme cult que pessoas esquisitas mencionam para parecerem legais” e meio que acabei esquecendo dele. Outro dia, porém, encontrei o título numa dessas listas de “X filmes mais assustadores de todos os tempos” e decidi que havia chegado a hora de dar uma chance para ele. Não que a ideia de ver pessoas sendo empaladas seja algo exatamente animador, mas, como fã de cinema que sou, não posso ignorar para sempre uma produção tão controversa como essa.

Holocausto Canibal - Cena 3Holocausto Canibal é curto (tem cerca de 1h35min), mas achei bastante difícil chegar até o final dele. A já citada cena do empalamento, que pode ser vista ali no poster, não é nem de longe o momento mais perturbador do longa. Para contar o fim trágico de uma expedição de antropólogos americanos na floresta amazônica, o diretor italiano Ruggero Deodato explorou recursos variados, como maquiagens incrivelmente convincentes e mortes reais de animais, e obteve como resultado um filme em que o roteiro, que não é lá tão ruim, acaba ficando em segundo plano diante da quantidade absurda de cenas que ofendem constantemente cada um de nossos sentidos. Majoritariamente, não gostei do que vi, mas devo reconhecer que o diretor é bastante competente em sua proposta de chocar o público.

Deodato aproximou-se tanto da realidade com seu material que, segundo esta nota do IMDB, ele foi preso logo após o lançamento de Holocausto Canibal sob a acusação de ter gravado um filme snuff, uma dessas produções onde mortes reais acontecem diante das câmeras. Como ficou provado posteriormente, tudo não passou de uma jogada esperta do diretor, que fez com que os atores assinassem contratos que obrigavam-nos a “sumirem” durante um ano para reforçar a ideia que eles, de fato, haviam morrido no filme, mas não é difícil entender os motivos que na época levaram as cortes italianas a desconfiarem de que a história era real: pra mim, ainda hoje, o que vi é bastante assustador e realista.

Holocausto Canibal - CenaO “efeito de realidade” operado por Deodato começa com a escolha da linguagem narrativa. Holocausto Canibal é um desses filmes gravados para parecerem um documentário. Câmeras de mão, imagens da vida íntima dos personagens, entrevistas com personalidade fictícias e repórteres comentando as cenas, tudo é utilizado para criar a sensação de que o que estamos vendo realmente aconteceu. No começo, após falar que práticas abomináveis como o canibalismo ainda são praticadas em alguns lugares do mundo, o diretor nos mostra uma equipe de 4 jovens partindo para a floresta amazônica com o intuito de documentar o dia a dia de uma tribo onde as pessoas consomem carne humana. Como o grupo não retorna dentro do tempo esperado, seus membros são dados como desaparecidos e o antropólogo Harold Monroe (Robert Kerman) parte para encontrá-los.

Deodato não esconde muito tempo o fato de que os 4 jovens morreram. Harold contrata um guia, refaz o caminho trilhado anteriormente pelo grupo e, chegando na tribo, encontra os registros em vídeo que eles deixaram antes de serem mortos e comidos pelos indígenas. A grande “surpresa” de Holocausto Canibal é mostrar como foram os últimos momentos de desespero da equipe. O documentário que eles estavam gravando, que recebe o nome de Inferno Verde, vai sendo revelado aos poucos e o final dele é simplesmente aterrorizante.

Holocausto Canibal - Cena 4Quando eu disse ali em cima que o diretor consegue “ofender cada um de nossos sentidos”, eu não estava exagerando. A caminhada de Harold até a tribo é feita através de ambientes quentes, sujos e hostis que exalam o cheiro da própria morte. A dor e a repugnância que dá ver as cenas de estupro, morte de animas e de membros sendo decepados me deixaram enojado, com vontade de vomitar (experimentem comer QUALQUER coisa durante a cena da ‘dissecação’ da tartaruga). Por fim, ver os personagens sendo mortos brutalmente e ouvir os seus gritos de desespero não é o tipo de coisa que a gente consegue tirar fácil da cabeça depois.

Levando tudo isso em consideração, continuo acreditando que é difícil alguém escolher Holocausto Canibal como filme favorito. A relativização que Deodato faz de valores culturais, que é expressa no final quando um personagem pergunta-se quem são os verdadeiros canibais (os 4 jovens da história realizam coisas muito ‘piores’ do que consumir carne humana), é bastante válida e a maquiagem e os efeitos utilizados para simular as mortes, mais de 30 anos depois, continuam fantásticas, mas no geral esse filme é um espetáculo de horrores tão ou mais ofensivo e detestável do que tentar convencer alguém a parar de comer bacon.

Holocausto Canibal - Cena 2

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