What Happened, Miss Simone? (2015)

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What Happened, Miss SimoneAcabou! Acabou! Acabou! A não ser que O Filho de Saul ou O Abraço da Serpente vazem de hoje para amanhã (e eu duvido muito que isso aconteça), esse What Happened, Miss Simone?, produção original da Netflix, será o último indicado ao Oscar de 2016 que resenharei. Como quero utilizar esse texto para fazer alguns comentários sobre o trabalho que realizei, vou começar analisando o documentário e, no final, reservarei um espaço para finalizar a cobertura do Oscar. Fiquem a vontade para lerem apenas a parte do texto que lhes interessarem 🙂

No começo, quando coloquei What Happened, Miss Simone? pra rodar no Netflix, não liguei nem o nome e nem a voz à pessoa. Assim sendo, deixei que a diretora Liz Garbus me apresentasse uma cantora que começou a carreira ainda criança quando foi descoberta por uma professora de piano em uma igreja. Eunice Waymon, que mais tarde mudaria o nome para Nina Simone, ambicionava ser a primeira pianista clássica negra dos EUA e para isso ela dedicou os primeiros anos de sua vida estudando teoria musical e compositores como Bach. Nina alcançou o sucesso e transformou-se em uma das vozes mais marcantes de sua geração, mas isso não garantiu-lhe paz de espírito.

Para responder a pergunta que faz no título do documentário (O que aconteceu, Srta. Simone?), a diretora utiliza imagens de shows e de entrevistas gravadas por Nina (ela faleceu em 2003), bem como dá voz a pessoas que conviveram diretamente com ela, como sua filha e Andrew Stroud, seu esposo e empresário. Notei que, apesar de citar o diagnóstico de bipolaridade que teriam atribuído à cantora e mostrar que ela não mediu consequências na hora de participar da luta pelo fim da segregação racial durante a década de 60, Liz Garbus é excessivamente respeitosa ao apontar os motivos que comprometaram a carreira de Nina. O comportamento muitas vezes intransigente nos palcos e o discurso violento que ela parece ter adotado enquanto manifestava-se pelos direitos civis, ao meu ver, não são suficientemente problematizados pela diretora, que prefere concentrar-se mais nos aspectos da vida privada da cantora para buscar as respostas que ela procurava.

What Happened Miss Simone - Cena 2What Happened, Miss Simone?, conta-nos, por exemplo, que Nina desenvolveu uma personalidade mais reservada por ter crescido separada das outras crianças de sua idade. Enquanto todos corriam e brincavam, ela estava sentada e concentrada nos estudos musicais. Já na adolescência, Nina depara-se com a face preconceituosa da sociedade americana quando é rejeita de uma escola de música devido à cor de sua pele. Quando adulta, ela precisa conviver diariamente com a violência e a ganância do marido, que espanca-a constantemente e age como um parasita sobre a carreira e os lucros dela.

Tudo isso, a diretora Liz Garbus nos diz, contribuiu para que a cantora fosse acumulando uma série de tristezas e frustrações que tanto explodiram nas mensagens anti-sistema que ela converteu em música enquanto lutou ao lado de nomes como Martin Luther King e Malcolm X quanto foi preponderante para que, no auge do sucesso, ela abandonasse tudo e todos e se mudasse para a África. Não acho, porém, que Nina tenha sido uma vítima das cruéis circunstâncias que a vida lhe impôs: o que vi foi uma mulher forte que, quando atingiu o topo, não quis mais curvar-se nem para a sociedade e nem para a família. Durante esse processo, ela cometeu alguns erros de julgamento (os que eu disse que a diretora poderia ter explorado mais) e acabou pagando um preço altíssimo por isso (perder público, chegar a ser confundida com uma moradora de rua), mas ela parece ter chegado no final da vida consciente de que os altos e baixos enfrentados levaram-na até onde ela queria chegar.

What Happened Miss Simone - Cena 4Durante o filme, a diretora mostra algumas das canções mais conhecidas de Nina, como Don’t Let Me Be Misunderstood e My Babe Just Cares For Me, mas foi justamente por uma música que não foi executada que eu acabei lembrando que eu já conhecia a cantora. Como assim? A medida fui ouvindo aqueles movimentos rápidos no piano e ficando encantado com a voz marcante de Nina, recordei-me que a Feeling Good, música que o Muse resgatou no álbum Origin of Symmetry, é de autoria dela. Ao contrário do que eu disse na resenha do Amy, estou percebendo que gosto bastante de jazz, pois foi bom conhecer a história da Nina, mas foi melhor ainda ouvi-la cantar. A execução no final da música Stars, aliás, é o tipo de momento que merece ser chamado de “embasbacante”: tal qual alguém que resume a própria vida, Nina expõe a alma no palco enquanto fala de estrelas que vem e vão. É de arrepiar, de verdade.

What Happened Miss Simone - CenaBem, a resenha de What Happened, Miss Simone? acaba aqui. Sobre os últimos 3 meses e todo o trabalho que fiz para cobrir o Oscar, devo dizer que estou bastante feliz comigo mesmo. Lá em dezembro, quando iniciei o processo com o texto do Beasts of no Nation, eu estava bastante cansado e desanimado com o blog: era final de ano letivo na escola onde eu dou aula e duvidei de verdade que eu fosse conseguir tempo para ver todos os indicados. Foi então que filmes como O Despertar da Força e Os Oito Odiados foram estreando e me fazendo lembrar do porque o cinema ter convertido-se na grande paixão da minha vida: tive ótimas experiências cinematográficas na passagem de 2015 para 2016 e isso fez com que eu decidisse esforçar-me para realizar a minha melhor cobertura do Oscar até então. Não foi fácil. Esse ano, a Academia escolheu muitos títulos bons, como O Quarto de Jack, mas também selecionou títulos chatos e difíceis como A Grande Aposta. Se não tive as mesmas dificuldades que tive o ano passado para ver os indicados a Melhor Filme (só consegui ver o Selma, por exemplo, faltando 3 dias para a premiação) e a Melhor Animação (vi todos dessa vez, em 2015 faltou o A Canção do Oceano), não posso dizer o mesmo dos concorrentes a Melhor Filme Estrangeiro: sempre costuma faltar um ou outro, mas dessa vez faltaram dois e um deles, O Filho de Saul, é o franco favorito a levar a estatueta. Todo caso, o resultado é extremamente positivo: com esse documentário (e faço questão de pontuar que é a primeira vez que resenhei dois indicados nessa categoria), somam-se 28 textos de filmes que amanhã concorrerão entre si pelo prêmio máximo da indústria cinematográfica americana. Eu me propus a fazer algo e consegui: estou feliz e agora vou abrir uma cerveja para comemorar essa vitória enquanto revejo O Regresso, filme pelo qual torcerei amanhã com todas as minhas forças. Chegou a sua hora, Leo!

What Happened Miss Simone - Cena 3

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  1. Lendo sua resenha e relembrando o documentário, fiquei com os olhos marejados…eu também só conhecia a Nina por causa da gravação da banda Muse (❤️), e conhecer a história dela foi importante pra admirar uma estrela como ela foi. Adorei o post!
    Quero saber se viu ou pretende ver Spotlight.

  2. Pingback: O Filho de Saul (2015) | Já viu esse?

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