45 Anos (2015)

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45 AnosNo dia 02/02, no post do O Lobo do Deserto, escrevi:

“… pretendo publicar pelo menos mais 9 textos até o próximo dia 28, data em que a Academia anunciará os vencedores de 2016”.

Pois bem, eis aqui o nono texto! Antes de falar sobre o melancólico 45 Anos, devo dizer que estou bastante feliz com os resultados que alcancei na cobertura do Oscar desse ano. Mesmo frustrado por não conseguir ver O Filho de Saul, longa favorito à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro, considero cumprido o meu objetivo de fazer desse o meu melhor trabalho relacionado à premiação promovida pela Academia. Como ainda restam 3 dias até a cerimônia onde serão anunciados os vencedores, tentarei assistir mais um concorrente (provavelmente um documentário) até o final de semana e deixarei para a próxima resenha os meus últimos comentários sobre o Oscar 2016, ok? Por ora, vamos a esse trabalho que garantiu para a atriz Charlotte Rampling uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Kate (Rampling) e Geoff (Tom Courtenay) estão a uma semana de completarem 45 anos de casados. Enquanto ela preocupa-se com os preparativos da festa que celebrará a união, ele volta a cabeça para o passado após receber uma carta inesperada.

45 Anos é lento e minimalista, um desses filmes que exigem que o espectador tenha bastante paciência caso queira extrair algo dele. O diretor Andrew Haigh investe pesado em cenas do cotidiano e confia que o público será capaz de preencher os longos silêncios entre os protagonistas com as informações e sentimentos que ele, na maioria das vezes, apenas sugere. Como o que é visto não é exatamente um exemplo de história feliz, a tendência é que a sessão seja difícil e arrastada, mas ainda assim acho que valha a pena pagar o alto preço que o diretor cobra: qualquer pessoa que esteja vivendo ou tenha vivido um longo relacionamento poderá aprender algo com Kate e Geoff.

45 Anos - CenaA tal carta recebida por Geoff revela que o corpo de uma mulher foi encontrado sob o gelo de uma montanha. No passado, o personagem havia convivido e nutrido interesse amoroso pela falecida, Katya, que morreu tragicamente após cair em um desfiladeiro. A notícia desperta sentimentos nostálgicos em Geoff que, para a infelicidade de Kate, vai tornando-se cada vez mais obcecado pelo assunto. Enciumada e triste por perceber que um acontecimento pregresso é mais importante para o marido do que a festa onde eles comemorariam suas Bodas de Rubi, Kate tenta valer-se de sua maturidade para lidar com a situação, mas o que vemos é ela afundando-se cada vez mais na melancolia de ter passado a vida ao lado de um homem cujo coração nunca fora verdadeiramente seu.

Eu, que ainda estou entre as humildes Bodas de Algodão e Trigo (de 2 para 3 anos), aproveitei a visão desse relacionamento longevo que o diretor Andrew Haigh nos oferece para repensar o peso que as minhas ações tem sobre a vida da minha esposa. Acredito que, quando somos novos e escolhemos alguém para dividirmos a vida, nós ainda não temos a noção real do quanto influenciaremos mutuamente o crescimento pessoal e profissional um do outro. Assim sendo, não são raras as vezes que magoamos nossos companheiros, mesmo sem termos a intenção de o fazê-lo, para realizarmos nossos projetos pessoais e satisfazermos nossos egos. Pragmaticamente falando, o que é possível ser feito para não tornarmo-nos responsáveis pelo sofrimento alheio? Com base no que vi em 45 Anos e no que vivo diariamente, penso que a resposta não seja simplesmente suprimirmos nossas individualidades, até porque ninguém consegue fazer isso a longo prazo. O caminho, talvez, seja conscientizarmo-nos da importância de preservarmos a sintonia do casal mesmo que isso signifique, de vez em quando, abrirmos mão de algumas coisas e “engolirmos alguns sapos”.

45 Anos - Cena 3Como a história é contada sob o ponto de vista de Kate, é fácil que a gente fique do lado dela e culpe Geoff pelo climão criado antes da festa, mas não é bem isso que acontece. Entendo que, em um relacionamento, não iniciar um problema é tão importante quanto não alimentá-lo. É Geoff quem deixa-se levar por sentimentos do passado em um momento inconveniente, mas é Kate quem opta por fingir aceitar o inaceitável e entregar-se progressivamente à tristeza durante os dias que antecedem a festa. Nesse sentido, a divisão do diretor Andrew Haigh, que mostra separadamente cada um dos dias da semana, é ilustrativa. Na primeira cena, a personagem interpretada com sensibilidade pela Charlotte Rampling (que deve perder o Oscar para o talento da Brie Larson ou para os carismas da K. Winslet e da J. Lawrence) acorda cedo e sai animada para correr com o cachorro do casal nas proximidades de casa. A medida que a semana vai passando, porém, o desânimo vai tomando conta dela e, no dia da festa, ela fica na cama até tarde e só consegue acordar graças ao despertador.

45 Anos - Cena 4Geoff age errado ao demonstrar sentimentos por outra mulher, mas Kate também não fica atrás quando demonstra indiferença tanto pelo pedido de desculpas do marido quanto pelo discurso apaixonado que ele faz para ela durante a tal festa. Mais do que apontar culpados e de que tentar entender quem é mais responsável por aquela situação, prefiro reconhecer que, no final das contas, nenhuma explicação plausível para o que vi mudaria o fato de que os dois estão infelizes. Evitemos, portanto, repetir tais erros em nossos cotidianos.

Ver 45 Anos, pelo tema e pelo formato, é igual tomar um puxão de orelha de alguém mais experiente: ainda que seja difícil, o aprendizado que tira-se dele é inestimável.

45 Anos - Cena 2

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