Straight Outta Compton: A História do N.W.A. (2015)

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Straight Outta Compton - A História do NWASempre que preciso falar sobre meu gosto musical, digo que escuto um pouco de tudo, menos rap. Explico ainda que, apesar de eu gostar de rock e de heavy metal, não vejo problemas em frequentar ambientes onde tocam sertanejo e axé (até porque que só rola isso na maioria das festas da região rs), mas que não “consigo ficar feliz” em um local onde eu precise ouvir rap.

Esse comentário, obviamente, é muito mais um exagero típico dessas frases feitas que a gente passa a repetir no automático ao longo da vida do que um diagnóstico fiel do que eu penso. De fato, rap (e músicas ligadas ao movimento hip hop em geral) não é o tipo de som que você encontrará na minha casa, mas isso não quer dizer que eu não goste de nada do estilo: sou simpático ao trabalho do Gabriel, O Pensador e, recentemente, ouvi bastante a trilha sonora do Creed, que é composta basicamente pelas batidas e letras fortes típicas do estilo.

Começo o texto com essa reflexão para mostrar-lhes o quanto é importante mantermos a mente aberta para novas experiências. De qualquer forma, eu acabaria vendo Straight Outta Compton: A História do N.W.A porque, além de estar indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, ele está no centro da mais recente polêmica racial de Hollywood, mas eu nunca imaginei que fosse gostar tanto dele principalmente devido a trilha sonora. O filme do diretor F. Gary Gray é competente em recriar a tensão social que permitiu que o grupo de rap N.W.A. estourasse nos EUA no final da década de 80 com suas músicas que falavam de violência, sexo e drogas, mas o que eu achei mais bacana nele foi a parte biográfica que mostra como grandes artistas do gênero começaram suas carreiras e gravaram algumas de suas músicas mais famosas. Fiquei deveras surpreso com a quantidade de músicas de rap que eu conhecia mesmo não sendo um grande apreciador do estilo rs

O N.W.A., ou Niggaz Wit Attitudes (Negros com Atitudes), foi formado em 1986 quando os rappers Eazy-E (Jason Mitchell), Ice Cube (O’Shea Jackson Jr.) e MC Ren (Aldis Hodges) juntaram-se aos DJ’s Dr. Dre (Corey Hawkins) e DJ Yella (Neil Brown Jr.) para compor o Straight Outta Compton, álbum seminal do chamado gangsta rap que tornou conhecida nacionalmente a dura realidade dos subúrbios da californiana Compton. Em sua jornada rumo ao sucesso, o grupo precisa enfrentar todo o tipo de dificuldades, como egos inflados, repressão policial, preconceito da mídia e empresários gananciosos (Paul Giamatti em grande atuação).

Straight Outta Compton - A História do NWA - Cena 3Quem gosta de rap geralmente enaltece o estilo dizendo que ele “retrata a realidade tal qual ela realmente é”. Em um momento de Straight Outta Compton, inclusive, o Ice Cube utiliza esse mesmo argumento para defender a sua música diante de uma plateia de jornalistas arrogantes. Ainda que essa ideia de “realidade” seja bastante relativa (a MINHA realidade, por exemplo, não tem nada a ver com músicas sobre prisões e gangs), consigo entender o raciocínio que estrutura-a. Conectamo-nos verdadeiramente com a arte quando enxergamo-nos em seu conteúdo. Por tudo que vivi até hoje, filmes, livros e músicas que falam sobre relações familiares conturbadas e sobre a eterna luta do ser humano contra sua fraquezas  sempre despertam minha atenção e me emocionam. Assim sendo, é apenas natural que quem vive em ambientes violentos, misóginos e hedonistas identifique-se com esses valores e acabe produzindo um tipo de arte que reflita o que foi visto diariamente.

O diretor abraça sem medo esse determinismo e, focando principalmente em Eazy-E e Ice Cube, mostra como as suas trajetórias pessoais serviram de base para as letras provocativas e transgressoras que eles compuseram. Nesse sentido, Fuck the Police, um dos maiores sucessos do grupo, não é uma simples apologia ao crime como foi apontado na época pelo FBI, mas sim uma declaração de “basta” contra os abusos que os moradores do subúrbio de Compton, principalmente os negros e pobres, sofriam nas mãos da polícia.

Straight Outta Compton - A História do NWA - CenaO fato do filme ter sido financiado pela esposa de Eazy-E e pelo Ice Cube e o Dr. Dre não impede, no entanto, que os membros do N.W.A. sejam transformados em mártires incompreendidos. Durante os shows, festas e gravações dos álbuns, todo o comportamento promíscuo, violento e egoísta dos rappers é escancarado pelo diretor, mostrando que os músicos realmente viviam aquilo que podia ser ouvido em suas músicas. Ao longo das quase 2h30min de Straight Outta Compton, há uma boa quantidade de cenas que envolvem nudez, uso de drogas e misoginia (desprezo ou aversão pelo gênero feminino), e é bom que o diretor não tenha tentado amenizar o material (como acontece em muitas biografias) para preservar a imagem dos personagens. Choca e as vezes até revolta ver como o grupo lidava com os problemas que iam aparecendo (a cena da orgia no hotel é um bom exemplo), mas isso é fundamental para a construção da credibilidade do material.

Straight Outta Compton - A História do NWA - Cena 4Sobre a polêmica racial comentada anteriormente, houveram protestos contra a ausência quase total de atores e produções negras entre os concorrentes ao Oscar desse ano. Agora que já vi praticamente todos os indicados, digo que o Straight Outta Compton até poderia ter sido lembrado em mais categorias, entre elas a de Melhor Filme (por tudo que mostra, ele é mais completo, provocativo e interessante do que produções mais tradicionais como Ponte dos Espiões e Brooklyn), mas não acho que ele tenha atuações dignas de nota, pelo menos não se comparadas àquelas que estão concorrendo: nesse sentido, o grande injustiçado do ano realmente foi o Idris Elba e seu trabalho espetacular no Beasts of No Nation.

Mesmo não tendo grandes afinidades com o tema, gostei bastante do que vi e recomendo Straight Outta Compton: além do comentário social e de mostrar uma boa história de ascensão e queda, o filme traz vários momentos bacanas para fãs de música, como as menções ao Tupac, Snoop Dogg e Eminem, artistas que surgiram na esteira de sucesso do N.W.A., e pode, dependendo do quanto você estiver disposto a deixar-se levar, colocar uma ou duas músicas na sua playlist: no meu caso, lembrei de como sons como Boyz ‘N Tha Hood, Still D.R.E. e Gangsta Rap Made Me do It são legais. Ainda gosto de rock, mas de vez em quando é bom variar um pouco e aprender coisas novas, né?

Straight Outta Compton - A História do NWA - Cena 2

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