Guerra (2015)

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GuerraTenho dito que, por ter vencido o Globo de Ouro, o Filho de Saul é o favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas a verdade é que não é bem isso que a história recente da premiação nos mostra. Ano passado, por exemplo, o russo Leviatã não conseguiu repetir junto à Academia o desempenho do Globo e foi superado no Oscar pelo Ida e sua bela fotografia em preto e branco. Levando isso em consideração, o melhor a se fazer é ver a maior quantidade possível de indicados para não ser pego desprevenido com a vitória de algum título que não recebeu a devida atenção dos críticos. Guerra, filme do diretor e roteirista Tobias Lindholm (do polêmico A Caça), apesar de não estar sendo muito comentado, é uma produção que tem potencial para surpreender na cerimônia desse ano: com poucas mas boas cenas de ação e provocações éticas e morais, ele é o melhor dentre os concorrentes a Melhor Filme Estrangeiro que vi até agora (Cinco Graças e O Lobo do Deserto).

Lindholm começa o filme com uma cena tão impactante quanto aquela da abertura do O Resgate do Soldado Ryan. Soldados andam furtivamente através de um cenário desértico. Concentrados, eles utilizam o rádio para comunicar cada passo da missão para Claus (Pilou Asbaek), o capitão que orienta-os a partir de uma base remota. Não mais do que de repente, um deles pisa em uma mina terrestre e tem os membros inferiores completamente destroçados pela explosão. À distância, Claus tenta fazer com que todos acalmem-se e concentrem-se em ajudar o soldado ferido, mas logo ele percebe que não havia mais nada que pudesse ser feito nem para salvar o sujeito e nem para apagar da memória dos membros do pelotão o evento macabro que eles acabaram de presenciar.

Guerra - Cena 4Claus martiriza-se pelo ocorrido e decide que, dali em diante, ele liderará pessoalmente os soldados para garantir que mais nenhum homem perca a vida sob seu comando. Mesmo preocupado com o futuro da esposa (Tuva Novotny) e dos três filhos que deixou em casa, Claus abandona a segurança da base e assume a linha de frente do pelotão. Durante uma missão de reconhecimento, o capitão e seu grupo são cercados por rebeldes nas proximidades de um vilarejo e, vendo que mais um de seus homens está prestes a morrer devido a um ferimento de bala, Claus solicita apoio aéreo. O helicóptero é enviado, um míssil é lançado e Claus consegue retirar todos os soldados vivos do local, mas o preço da ação acaba sendo alto demais: o bombardeio autorizado pelo personagem atinge uma área civil e mata vários inocentes. No dia seguinte, o capitão é enviado para casa, na Dinamarca, para ser julgado pelo crime de guerra.

Como o filme é contado sob a perspectiva de Claus, nós sabemos o inferno ao qual ele estava submetido quando solicitou o bombardeio. Nós conhecemos a família dele (oh moleque chato!) e nós sabemos que ele é um homem bom que preocupa-se com o bem de seus comandados. Assim sendo, é perfeitamente natural que nós torçamos pela absolvição do personagem no julgamento que inicia-se na segunda metade do filme para definir se ele é culpado ou não pela morte dos civis afegãos. A intenção do diretor Tobias Lindholm, porém, não é criticar os burocratas que julgam ações de terceiros que eles não conhecem e nem entendem, mas sim mostrar o quão impessoais são os terrores que emanam da guerra.

Guerra - Cena 2Lindholm enche nossa cabeça de dúvidas e nos convida a relativizar  algo que, a princípio, nos foi vendido como se fossem ações e valores inquestionáveis e até mesmo admiráveis. Claus é um herói, certo? Ele assume a frente do pelotão em um momento complicado, acalma o desespero de um soldado, conduz uma missão bem sucedida onde um rebelde que ameaçava crianças é eliminado (a ótima e extremamente tensa cena do sniper) e, num momento crítico, toma uma decisão difícil que garante que vários soldados escapem com vida de uma emboscada. Além disso tudo, nas cenas familiares, vemos que ele é um ótimo pai. À medida que a promotora começa o processo de acusação, no entanto, percebemos que as coisas não são bem assim. Claus, além de autorizar um bombardeio desastroso em um local que ele não conhecia, também fora o responsável direto pela morte de toda uma família para a qual ele negou proteção no dia anterior ao ataque. E aí, o personagem é culpado ou inocente?

Guerra - Cena 3O dinamarquês Guerra cumpre aquele chato porém importante papel de nos mostrar que nem sempre as coisas são tão simples quanto nós gostaríamos que elas fossem. Quando assistimos a cena da emboscada e vemos os personagens prestes a serem massacrados por tiros que veem de todos os lugares, ficamos felizes pela intervenção do bombardeio e acreditamos que o capitão tomou a decisão correta, mas fica difícil sustentar essa certeza quando vemos as fotos de crianças mutiladas pela explosão que são apresentadas pela promotoria: vidas foram salvas, mas vidas também foram igualmente destruídas por conta da ordem do personagem. Condená-lo à prisão e privá-lo da convivência da família resolverá alguma coisa? Deixar tal crime impune, apesar do contexto difícil em que ele foi cometido, não seria abrir um perigoso precedente para ações semelhantes no futuro? Muitas são as perguntas, poucas são as respostas e, no final, independente da decisão do júri, só fica aquela sensação incômoda de que não basta ser uma pessoa séria e responsável para ser feliz nesse mundo caótico. Guerra, o filme, é muito bom. Guerra, o conflito, continua sendo uma das maiores atrocidades praticadas pelo ser humano.

Guerra - Cena

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