Ex-Machina: Instinto Artificial (2015)

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Ex Machina - Instinto ArtificialEm um dos muitos diálogos bons de Ex-Machina: Instinto Artificial, Caleb (Domhnall Gleeson) cita uma frase famosa atribuída ao físico Robert Oppenheimer. “Eu tornei-me a morte, o destruidor de mundos”, teria dito Oppenheimer após obter sucesso na criação da bomba atômica. Com essa citação, Caleb faz um paralelo entre a criação do físico e Ava (Alicia Vikander), robô dotado de inteligência artificial desenvolvido por Nathan (Oscar Isaac). Seria essa nova tecnologia tão perniciosa para o futuro da humanidade quanto o foi a descoberta da quebra do núcleo atômico?

Ex-Machina é o debut na direção do Alex Garland, sujeito que até então era conhecido principalmente por ter escrito o roteiro do ótimo Extermínio. O filme concorre aos Oscars de Melhor Roteiro Original e Melhores Efeitos Especiais e, tal qual o Perdido em Marte, vem para comprovar o bom momento vivido no cinema pela ficção científica enquanto gênero capaz de utilizar tecnologia de ponta para falar de temas e sentimentos essencialmente humanos. Acreditem, não há nada mais humano em Ex-Machina do que o robô interpretado com maestria pela bela Alicia Vikander.

Eis a história: O programador Caleb, que é funcionário da Blue Book, a maior companhia de internet do mundo, vence um concurso que lhe dá o direito de ir passar uma semana em uma mansão junto com o Diretor Executivo da empresa, o inteligentíssimo e recluso Nathan. Levado de helicóptero até um local isolado nas montanhas, Caleb conhece seu chefe e então descobre o verdadeiro motivo de ele estar ali: Nathan quer que o programador aplique o Teste de Turing em sua maior criação, a garota robô Ava.

Ex-Machina - Cena 2O nome Turing lhe soa familiar, caro leitor? Se sim, é bem provável que você também tenha assistido O Jogo da Imitação, cinebiografia do matemático e cientista da computação Alan Turing que concorreu ao Oscar de Melhor Filme no ano passado. Resumidamente, o Teste de Turing diz que, se um humano interage com uma máquina dotada de inteligência artificial e, no final, não consegue diferenciá-la de um ser humano, então a máquina passou no teste. Dentre as muitas qualidades do roteiro, que também é assinado por Garland, certamente destaca-se a facilidade com a qual ele aborda termos e teorias da matemática e da computação. Durante os diálogos entre Caleb e Nathan, que seguramente correspondem a mais da metade do tempo de projeção, o conteúdo científico inerente ao tema do filme (inteligência artificial) é explicado de forma que qualquer um que esteja disposto a pensar um pouco seja capaz de entender. Pessoalmente, considero esse didatismo preferível à avalanche de informações técnicas que muitas vezes é vista em produções do gênero.

Ex-Machina - Cena 4Caleb testa Ava em “sessões” onde eles conversam um com o outro em uma sala separados por uma parede de vidro. Se inicialmente o personagem espanta-se com a capacidade de Ava de formular perguntas e emular comportamentos humanos, posteriormente ele começa a ter dificuldades reais para enxergá-la apenas como um robô. Para o espanto de Caleb, Ava mostra-se capaz de fazer piadas, realizar escolhas conscientes e demonstrar sentimentos. Naquela que talvez seja uma das cenas mais importantes de Ex-Machina, ela demonstra estar apaixonando-se por Caleb e então pede para que ele ajude-a fugir do local, alegando que Nathan, além de mentiroso, é uma pessoa perigosa. Nesse ponto, o roteiro demonstra todo o seu potencial ao nos colocar em dúvida sobre o que realmente está acontecendo naquela casa na montanha. Quem está testando quem ali? Nathan está testando Caleb? Caleb está testando Ava? Ava está testando todo mundo?

Ex-Machina - Cena 5Optando por deixar as sequências de ação de lado e concentrar-se mais nos bons diálogos e no dilema moral inerente ao tema, Garland encheu a sua história de referências a outros clássicos da literatura e do cinema. A trama de Ex-Machina tem ecos do A Tempestade do Shakespeare (um homem e sua filha em um local isolado sendo visitados por outro homem), do “Mito do Prometeus”, que a escritora Mary Shelley utilizou para criar o Frankenstein (a criatura que volta-se contra o criador) e, tanto no visual claustrofóbico repleto de tons vermelhos quanto na agonia de um robô que não quer ser desligado, lembra o 2001 – Uma Odisseia no Espaço do Kubrick. Bebendo de tão rica fonte, o diretor conseguiu produzir momentos geniais, como a cena em que Caleb, após conversar exaustivamente com Ava e perceber o quanto ela realmente acredita em si mesma, corta o próprio braço em um impressionante acesso de paranoia. Kubrick, que desenvolveu o conceito de outro filme sobre inteligência artificial (o A.I: Inteligência Artificial, do Spielberg) certamente ficaria orgulhoso.

Ex-Machina - Cena 3Deus Ex-Machina, conforme explicado aqui, é um termo oriundo do teatro grego que define a intervenção divina em uma história, de modo que todos os problemas dos personagens sejam instantaneamente resolvidos. Não foi por acaso que Garland valeu-se desse termo para nomear sua produção: na impressionante sequência final de Ex-Machina, quando todos os personagens revelam suas intenções e entram em conflito entre si, alguém conseguirá sair daquela casa para viver uma vida jamais sonhada até então, algo tão impensável quanto um milagre feito pelo próprio deus.

Ex-Machina traz um discurso deveras conservador no que diz respeito à tecnologia, mas não há alarmismo da parte de Garland. O que o diretor está dizendo, quando compara a inteligência artificial com a bomba atômica e nos mostra um robô que utiliza todos os recursos disponíveis para salvar a própria “pele”, é que precisamos ser responsáveis quando criamos algo. Se quem pensa e teoriza demais acaba não criando nada (como Nathan diz na ótima cena do ‘quadro’), quem age pautado por vaidade e impulso pode acabar sendo destruído por aquilo que criou. Ex-Machina: Instinto Artificial tem um visual soberbo, uma atuação literalmente sinistra da Vikander (ela não pisca!) e uma história conduzida de forma que tu entenda o que está acontecendo, identifique-se com os dramas dos personagens (quem nunca teve medo de ser substituído por alguém ‘melhor’?) e surpreenda-se no final, ou seja, ele é um desses filmes que não dá para deixar de assistir.

Ex-Machina - Cena

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  1. O trailer desse filme me despertou uma imensa vontade de vê-lo . Adorei o filme, apesar de não acreditar que o ser humano é capaz de criar uma empatia tão grande com uma máquina como e sugerido. Outro ponto que me chamou a atenção é o fato de Ava entender os humanos através de suas feições e usar isso contra eles, até aí algo muito inteligente e possível, o que me incomodou é uma máquina ( Ava- que lembra Eva que lremete ao pecado na criação ) que trás o corpo de uma mulher, usar da sexualidade para conseguir o que quer, estou cansada de ver mulheres retratadas e reduzidas ao sexo e a conquista .

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