O Quarto de Jack (2015)

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O Quarto de JackAntes da resenha, faço algumas considerações sobre o Globo de Ouro de 2016:

  • Aparentemente, esse é mesmo o ano do DiCaprio. O ator conquistou o terceiro Globo de Ouro da carreira pela atuação em O Regresso e agora a expectativa é que ele finalmente leve um Oscar para casa. O novo filme do Iñarritu, aliás, parece ser muito bom é a produção que chega mais forte para o Oscar (venceu em três categorias importantes). Como faço questão de ir ao cinema assisti-lo, resta-me agora esperar pela boa vontade dos cinemas locais, nos quais a estreia está programada para o começo de fevereiro.
  • Como foi bom ver as vitórias do Stallone e do Ennio Morricone! O primeiro, como o Rubens Ewald Filho disse bem (milagre!), é um realizador, um cara que criou alguns dos personagens mais icônicos da história dos filmes de ação de Hollywood. Vê-lo citando o Rocky Balboa como o “melhor amigo que ele teve” foi de encher os olhos d’água. Já o Morricone, velho conhecido dos fãs de faroeste, não compareceu, mas foi muitíssimo bem representado no discurso empolgado do Tarantino, que comparou-o a compositores como Mozart e Beethoven.
  • Tal qual esperado, Divertida Mente venceu na categoria Melhor Animação. A grande surpresa da noite ficou por conta da ignorada dada ao Spotlight. Apontado inicialmente como um dos favoritos, tanto ao Globo de Ouro quanto ao Oscar, o filme que trata dos escândalos de pedofilia da igreja católica não venceu em nenhuma das 3 categorias em que estava indicado. Teremos um novo Boyhood?

O Quarto de Jack venceu na categoria Melhor Atriz – Drama, mas não é só para ver a atuação emocionante da até então desconhecida Brie Larson que você deve assisti-lo. Esse filme, que é baseado em um best seller da escritora Emma Donoghue, deve ser celebrado por conseguir transpor para a tela, através de um suspense emocionante e pouco convencional, o turbilhão de emoções que é o relacionamento entre mãe e filho.

O Quarto de Jack - CenaHá um quarto. Nesse quarto, há uma cama, um armário, uma privada, uma televisão e uma claraboia. A claraboia representa o único contato real da Mãe (Brie Larson) e de Jack (Jacob Tremblay) com o mundo exterior: através dela, eles recebem diariamente os raios do sol. “Por que eles não saem?” e “O que eles estão fazendo lá dentro?” são algumas das perguntas que começamos a nos fazer depois de algum tempo (e para as quais a trama oferece uma resposta deveras perturbadora), mas inicialmente fica difícil prestar atenção em outra coisa que não seja a relação do garoto com a mãe.

Garoto? Sim, permitam-me uma pausa no texto para falar sobre o “garoto Jack”. Por mais óbvio que isso pareça ser, demorei um pouco para conseguir definir o gênero do personagem 😀 Chamado de “menina” por um terceiro elemento que surge depois de algum tempo e com uma cabeleira enorme, Jack ainda veste roupas femininas e tem traços faciais e uma voz que podem facilmente serem atribuídos à uma garota. Essa “confusão”, aparentemente, foi planejada dentro do roteiro, visto que o desenvolvimento da história traz alguns momentos voltados para desfazê-la.

O Quarto de Jack - Cena 4Como eu ia dizendo, é o relacionamento maternal, e não a simples solução do mistério que envolve o quarto, o que há de mais especial nesse filme do diretor Lenny Abrahamson. Tal qual acontece na segunda metade do ótimo A Vida é Bela, a Mãe (o nome dela é citado apenas uma vez, então opto por manter a sugestão do IMDB) cria um mundo imaginário para tornar a vida de Jack menos miserável dentro do quarto. Assim sendo, ela faz com que o menino acredite que eles vivem em um micro-universo fora do qual existe apenas a perigosa imensidão do espaço. Apesar de tratar-se de uma mentira, é bonito ver o esforço e até mesmo a autonegação da personagem para deixar o filho feliz: Jack, assim como a maioria das crianças de sua idade (ele faz 5 anos na primeira cena do filme), é carinhoso e criativo (ele narra certas partes da história de um jeito muito divertido), mas ele também consegue ser irritante e malcriado quando não recebe o que quer. Se já é tocante ver a forma como ela lida com Jack antes de sabermos o motivo de eles estarem no quarto, fica realmente impossível não emocionar-se com toda a dedicação dela ao filho depois que o mistério é revelado.

O Quarto de Jack - Cena 2O Quarto de Jack divide-se claramente em dois momentos. Primeiro, temos esse início em que os personagens são apresentados e os laços entre eles são estabelecidos. Aqui, a mãe parece uma super-heroína que é capaz de suportar tudo e vencer todos para proteger o filho. A forma madura com que ela lida com o grito do menino que reclamava por não ter velas no bolo de aniversário, por exemplo, é sobre-humana. Depois disso, quando o tal “mistério” é revelado e uma reviravolta leva a história para um rumo verdadeiramente surpreendente, vemos que a relação entre mãe e filho inverte-se: agora é Jack que precisa ser maduro e transformar-se no porto seguro da mãe, cuja fortaleza finalmente desmorona após um período prolongado de sofrimentos e humilhações físicas e psicológicas. Sabe aqueles sacrifícios que toda mãe faz pelo filho mas que, algumas vezes, acabam passando despercebidos? Aqui eles são escancarados, comovem e nos fazem olhar nossas mães com outros olhos. Sabe aquele amor incondicional que todo filho sente pela mãe mas que, algumas vezes, não consegue demonstrar? Jack praticamente ilustra esse sentimento com uma frase simples (Mas você é a mãe). Obrigado, Jack.

O Quarto de Jack - Cena 5Apoiado por um time de atores experientes (William H. Macy e Joan Allen entregam boas performances), um roteiro instigante daqueles que nos fazem ficar agoniados, querendo saber logo o final, e uma dupla de protagonistas cuja interação é capaz de levar-nos às lágrimas, o diretor Lenny Abrahamson conseguiu fazer de O Quarto de Jack um desses filmes que mexem de verdade com a gente. Em pouco menos de 2 horas, Abrahamson nos faz odiar e amar Jack, nos faz amar e odiar a Mãe, assusta-nos com a maldade que pode nascer no coração dos homens, mostra-nos a indiferença e a frieza da imprensa frente às mazelas do mundo e termina convencendo-nos do poder indestrutível do espírito humano. É por filmes como este que acho que ainda vale a pena tentar assistir todos os indicados ao Oscar/Globo de Ouro: não fossem as premiações, acho que dificilmente eu ficaria sabendo da existência dele. Imagina o prejuízo.

O Quarto de Jack - Cena 3

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