Beasts of no Nation (2015)

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Beasts of no NationGostar de cinema e morar em Uberlândia, terra gentil que seduz, é algo complicado. Atualmente, somos atendidos pelo Cinépolis e pelo Cinemark e, na maior parte do tempo, as duas redes exibem os mesmos títulos. É claro que não enfrento dificuldades para ver blockbusters como Era de Ultron e Cinquenta Tons de Cinza, mas filmes “menores”, sejam eles produções americanas independentes ou títulos feitos fora do eixo hollywoodiano, raramente chegam por aqui. Na maior parte do tempo isso não chega a ser um problema, visto que a internet está aí para oferecer de graça aquilo pelo qual eu estaria disposto a pagar, mas não dá para ser feliz por aqui na época que antecede o Oscar e o Globo de Ouro. A maioria dos indicados simplesmente não são exibidos e, quando o são, só entram na grade de programação após as premiações. O Birdman, por exemplo, atual vencedor do Oscar de Melhor Filme, eu só vi no cinema umas duas semanas depois da cerimônia realizada pela Academia.

Sofro e comecei o texto relatando esse sofrimento porque, tal qual esperado, anunciaram no último dia 10 os indicados ao Globo de Ouro (conhecidamente uma prévia do Oscar) e, olhando a lista, constatei que a maioria esmagadora dos filmes ainda não chegaram na minha cidade. Pra variar, será uma correria infernal para tentar ver e resenhar todos os títulos antes das premiações (realidade que poderia ser BEM diferente caso eles estreassem aqui na época certa), mas não deixarei essas dificuldades me desanimarem. Apesar de todos os pesares, começo aqui mais uma cobertura do Globo de Ouro/Oscar e, se a internet me ajudar, pretendo chegar no dia 28 de fevereiro de 2016 com todos os concorrentes às principais categorias devidamente resenhados. Vamos lá!

Beasts of no Nation, produção ainda sem título nacional, não está entre os grandes indicados ao Globo de Ouro. O filme, aliás, concorre apenas em uma categoria secundária (Melhor Ator Coadjuvante para o Idris Elba), mas resolvi começar com ele por dois motivos: 1) infelizmente, ele é um dos poucos concorrentes que já estão disponíveis na internet e 2) um amigo, cuja opinião eu respeito, despertou minha curiosidade quando classificou-o no Facebook como o “Melhor Filme de 2015”. Não dá pra ignorar um comentário dessa magnitude, né?

Beasts of no Nation - Cena 4Bem, não acho que Beast of no Nation seja o “melhor filme de 2015”. O tema que ele trabalha (a guerra vista pelos olhos de uma criança) não é novo, tendo sido explorado recentemente, por exemplo, no Rebelle, e esse ano já nos deu Estrada da Fúria e ainda nos dará Star Wars – O Despertar da Força. Todo caso, quando deixamos essas questões pessoais de lado, é preciso reconhecer que o diretor e roteirista Cary Joji Fukunaga produziu um desses longas que, quando acabam, fazem-nos sentir tal qual alguém que acabou de tomar uma surra: há choque de realidade, há muita violência explícita e sobra desespero em Beast of no Nation, de modo que vê-lo significa necessariamente entrar em contato com a besta que cada um de nós carrega dentro de si. Acreditem, não é possível ficar indiferente aos eventos que Fukunaga mostra e é essa instrospecção (que o citado Rebelle falha em provocar devido a gratuidade de sua violência), mais do que o simples show de horrores, que fazem do filme uma experiência válida.

Beasts of no Nation - Cena 5Agu (Abraham Attah) é uma criança normal e feliz que utiliza a criatividade para brincar e sobreviver em um ambiente hostil. Nas primeiras cenas de Beasts of no Nation, Agu, que também narra a história, apresenta os membros de sua família e nos conta que eles vivem em uma zona neutra de um país que está enfrentando uma guerra civil. A inocência e a alegria presente nas brincadeiras do personagem com o irmão e com os coleguinhas do vilarejo, no entanto, não duram nem 20min de projeção: soldados do governo invadem o local e, confundido a família dele com membros da aliança rebelde, executam todos friamente. Agu, que conseguira escapar, é encontrado e adotado pelo exército do Comandante (Idris Elba), o qual obriga-o a deixar a infância de lado para lutar pelo país e por vingança.

Beasts of no Nation - CenaBeasts of no Nation, essencialmente, é um filme anti-guerra. Apesar de sabermos que o conflito ocorre no continente africano, o diretor opta por não dizer em qual país a história se passa, o que confere um caráter mais universal à trama. No mundo inteiro, pessoas de todas as idades entram em conflitos, sejam eles armados ou não, para defenderem causas que elas não entendem e líderes que não representam-nas. Vidas são perdidas, trajetórias são interrompidas e famílias são desfeitas para atender a ganância de políticos e de homens que só entendem a linguagem da violência. Quando essas mortes convertem-se em números nas manchetes de noticiários, a tendência é que a gente não dê a elas a devida importância. “Morreram 500 pessoas na guerra tal no país tal”. Triste, né? Mas e quando você conhece o rosto e o nome de uma das vítimas? É bem diferente, né? É isso que Beasts of no Nation nos diz: aqueles pobres demônios, como o próprio Agu define-se em uma cena de cortar o coração, também possuem pai e mãe e também já foram amados por alguém. Eles não são bestas de uma nação qualquer e não devem serem tratados como simples números nas guerras de outrem.

Beasts of no Nation - Cena 3O diretor Cary Joji Fukunaga, apoiado na atuação monstruosa do Idris Elba, nos dá um bocado de imagens perturbadoras para reforçar em nossas mentes a necessidade de nos sensibilizarmos para que tais situações não repitam-se no mundo real. Vale um aviso: a não ser que você seja indiferente a mutilações, estupro, pedofilia e violência gráfica explícita, Beasts of no Nation acabará com o seu dia. Revira o estômago também perceber que, em situações de desespero, as pessoas são capazes de adotarem acriticamente qualquer discurso e ideologia (Como é o Comandante? Muito bom!) e como isso é capaz de transformá-las em seres irreconhecíveis algum tempo depois. Beasts of no Nation pode até não ser o melhor filme do ano, mas ele traz um dos recados mais diretos sobre paz e atualidade que vi em 2015: desespero e violência só gera mais desespero e violência e as maiores vítimas desse processo, na maioria das vezes, não são aqueles que o iniciaram. Não inicie o processo.

Beasts of no Nation - Cena 2

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