No Coração do Mar (2015)

Padrão

No Coração do MarComo não li praticamente nada sobre esse filme antes do lançamento, fui ao cinema crente de que veria na tela uma nova adaptação do clássico Moby Dick. Li o livro do Herman Melville há alguns anos e assisti aquele longa antigo de 1956 estrelado pelo Gregory Peck, logo a expectativa de ver a obra ganhar vida através da computação gráfica atual era tão grande quanto o cachalote enfrentado pelo capitão Ahab. Não é isso, porém, que o diretor Ron Howard (do divertidão Rush) resolveu nos mostrar dessa vez. No Coração do Mar não é sobre a história ocorrida a bordo do Pequod, mas sim sobre como Melville utilizou os relatos de um tripulante do navio Essex para escrever sua obra. Trocando em miúdos, trata-se da “história da criação da história”, abordagem que funcionou muitíssimo bem em títulos variados como Em Busca da Terra da Nunca (sobre o Peter Pan) e Hitchcock (sobre o Psicose) e que também funciona aqui.

Herman Melville (Ben Whishaw) é, portanto, um homem desejoso de transformar em livro a famosa história do Essex, navio que naufragou após a tripulação confrontar-se em alto mar com uma enorme baleia branca. Para tanto, ele entre em contato com Tom Nickerson (Brendan Glesson), um dos únicos sobreviventes do desastre, e paga-lhe para que ele conte-lhe detalhes do ocorrido. Nickerson, que inicialmente titubeia devido ao sofrimento que as lembranças provocam-lhe, acaba cedendo e então narra para Melville a trágica viagem que ele realizou ao lado do Capitão George Pollard (Benjamin Walker) e Owen Chase (Chris Hemsworth).

A ficção criada por Melville em Moby Dick tem elementos suficientes para tirar o sono de qualquer um e eu sempre recordo do livro como um dos relatos mais palpáveis sobre obsessão que já li. Seria legal, conforme dito anteriormente, ver esse conto adaptado integralmente, com Ismael, Capitão Ahab perneta e tudo mais, mas a abordagem do diretor foi tão boa que, durante a sessão, não vi motivos para continuar lamentando o distanciamento da obra original. Ao seu modo, No Coração do Mar também trata de mentes obcecadas e há aqui uma ou duas cenas suficientemente perturbadoras para que tu saia da sala de cinema sem a menor vontade de ir até a praça de alimentação.

No Coração do Mar - Cena 2O conflito que assistimos entre George Pollard e Owen Chase, os protagonistas, é tão ou mais destrutivo para a tripulação do Essex do que os ataques da baleia gigante. Pollard vem de uma respeitada família de negócios, mas falta-lhe experiência no mar. Chase, por outro lado, tem experiência, mas a falta de um sobrenome conhecido impede-lhe de receber o comando de uma embarcação. Eles invejam-se e admiram-se mutuamente (a expressão de Pollard vendo Chase salvar o barco em uma tempestade é impagável) e esse embate de egos acaba trazendo ruína para a vida de todos. No fim, após os eventos que concluem a trama, fica a sensação de que o diretor está nos dizendo que é preciso valorizarmos aquilo que temos (Pollard o respeito, Chase a família), como se a nossa busca por mudança e pelo desconhecido (tema que é abordado em um diálogo logo no início) fosse algo ruim. Não acredito, no entanto, que Howard esteja propagando um discurso conformista. No Coração do Mar, acredito, mostra homens que precisaram levar suas obsessões até o extremo para perceberem que eram eles mesmos (e não seus antagonistas ou uma baleia gigantesca) os verdadeiros vilões de suas histórias (não é por acaso que Chase, ao encarar o monstro no clímax da trama, cancela o ataque). Sobre isso, quero relatar uma experiência que vivi durante a sessão.

IN THE HEART OF THE SEAPessoas conversando dentro do cinema sempre me irritaram MUITO. Relatei aqui, inclusive, um bate boca deplorável que tive com uma mulher durante uma sessão. Eu costumava acreditar que a culpa dessa raiva que eu sentia era única e exclusivamente da pessoa que estava conversando durante o filme, visto que era ela quem estava descumprindo as regras do local, mas acabei percebendo que eu também tinha minha parcela de responsabilidade no processo. De certa forma, eu já entrava na sala do cinema esperando que fosse haver algum sem educação por lá e, quando eu via as minhas suspeitas confirmarem-se, eu explodia fácil demais. Precisei levar essa “obsessão por silêncio” ao extremo, no dia da discussão citada, para entender que eu ajudava a criar as situações das quais eu reclamava. As conversas, obviamente, não acabaram, mas eu nunca mais passei por semelhante situação porque aprendi a me controlar. Durante a exibição do No Coração do Mar, vi um homem gritar para que um casal calasse a boca. Observei o stress e o desespero dele, enxerguei-me naquela situação e senti-me feliz por saber que não faço mais parte daquela realidade. Venci minha baleia.

No Coração do Mar - Cena 3O visual de No Coração do Mar é fantástico. Howard utiliza zooms escandalosos e extremamente funcionais para mostrar objetos importantes na tela e capricha no contraste entre a escuridão do mar e as cores vibrantes da baleia e do fogo que invade o Essex. O 3D continua dispensável, mas aconselho o leitor, caso seja possível, assistir o filme em uma sala que forneça algum recurso extra de som. Assisti na sala X D do Cinemark local e fiquei embasbacado com o som da cena da tempestade.

Mostrando que a realidade pode ser ainda mais impressionante e aterrorizadora do que a ficção, Howard conta-nos a história envolvendo canibalismo e desespero na imensidão do oceano que, nas mãos hábeis de Melville, transformou-se em um dos mais memoráveis confrontos “homem x natureza” da literatura. Gostei da abordagem proposta, fiquei impressionado com as transformações físicas dos atores (principalmente do Chris Hemsworth e do Cillian Murphy) e, fora um ou outro efeito especial capenga (as baleias as vezes não parecem muito reais), babei no visual alcançado pelo diretor. Ótimo filme.

No Coração do Mar - Cena 4

Anúncios

Uma resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s